Lionel Cironneau|AP
Lionel Cironneau|AP

Festival de Cannes vaia o filme ‘The Last Face’, de Sean Penn

O excesso de realismo no longa sobre guerra desagradou, e muito; a salvação foi 'The Salesman, de Asghar Farhadi

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

20 de maio de 2016 | 20h54

CANNES - E o 69.º Festival de Cannes vai chegando ao fim. Foram dez dias muito intensos desde a sua abertura com Woody Allen, ‘Café Society’, na quarta-feira, 11, mas será preciso esperar até domingo, 22, para ver a quem o júri presidido pelo cineasta George Miller, de ‘Mad Max – Estrada da Fúria’, vai dar sua Palma de Ouro.

Nos quadros de cotações dos críticos, a campeã de Palmas, correspondentes a quatro estrelas, é a alemã Maren Ade, com ‘Toni Erdmann’. Como o Brasil, a Alemanha também está voltando a Cannes após oito anos. E ela é a primeira diretora do país a concorrer ao prêmio (e a estar tão perto dele). Kleber Mendonça Filho, com ‘Aquarius’, está bem cotado. 

Mas a verdade é que tudo embolou nesse finalzinho. Havia, desde o início, grande expectativa por ‘Elle’, o thriller psicológico de Paul Verhoeven com Isabelle Huppert, que será, neste sábado, 21, o último filme da competição. Há uma tradição em Cannes, que não vale como regra – porque volta e meia é desmentida –, segundo a qual os últimos serão os primeiros. Pode até ser que Verhoeven corresponda a tudo de bom que se espera dele. Mas no penúltimo dia, sexta, 20, apareceu o grande filme, e é o iraniano ‘The Salesman/Le Client’, de Asghar Farhadi, o autor de ‘A Separação’.

Cannes este ano tem celebrado enquetes (policiais) e levantado questões de ordem mortal. Pode-se dizer que o top five do repórter, até aqui, privilegiava a questão ética como a estética, filmes como os de Jim Jarmusch (‘Paterson’), Pedro Almodóvar (‘Julieta’), Kleber Mendonça Filho (‘Aquarius’), Xavier Dolan (‘Juste la Fin du Monde’) e o primeiro romeno, o de Cristi Puiu (‘Sierra Nevada’).

Correndo por fora, numa linha toda própria, o preferido nos quadros de cotações, o alemão ‘Toni Erdmann’, de Maren Ade, desconcerta por sua abordagem de pai e filha e pela questão social. O pai inconveniente proporciona à filha carreirista o choque de realidade que ela precisa para terminar o filme como uma pessoa melhor. O curioso é que, no encontro com o repórter, Maren disse que nunca pensou em ‘Toni Erdmann’ como comédia. Está surpresa que o público e os críticos o tenham recebido assim. Não vai polemizar com ninguém, mas virou voto vencido no próprio filme.

Farhadi, depois de ‘A Separação’, premiado em Berlim e no Oscar, veio a Cannes com ‘O Passado’, que não era tão bom. Supera-se com ‘The Salesman’. O filme é sobre um dublê de ator e professor. No teatro, interpreta ‘A Morte do Caixeiro Viajante’, de Arthur Miller, com a mulher. Inesperadamente, o prédio em que o casal vive é interditado e eles precisam de casa. Alugam, sem saber, o apartamento que pertencia a uma prostituta. No que parece um incidente banal, a mulher abre a porta para o marido, mas é um cliente. Ela está no banho. A situação tem desdobramentos.

Muitos filmes desse festival foram bons, a maioria, descartável. O de Asghar Farhadi é extraordinário. Tem a questão do apartamento como ‘Aquarius’, uma enquete como ‘Julieta’, a discussão de uma questão moral como o outro romeno, ‘Baccalauréat’, de Cristian Mungiu. Complexo, humano, é um filme que fica com o espectador. Terá ficado com o júri? Saberemos neste domingo, 22. A Palma de Ouro vai para...? Por enquanto, sabemos para quem não vai. Nenhum júri seria irresponsável a ponto de premiar ‘The Neon Demon’, de Nicolas Winding Refn, ou ‘The Last Face’, de Sean Penn, que talvez tenha sido o pior filme da competição. ‘The Neon Demon’ é falso no seu horror gore, mas há, ali dentro, de alguma forma, um documentário sobre uma sociedade doente que erige a perfeição física como valor supremo. Também há um documentário, mas sobre a imperfeição humana, em ‘The Last Face’.

Recebido com sarcasmo e risadas pelo público, o filme de Sean Penn, que ao final foi vaiado,  é sobre a organização Médicos Sem Fronteiras, que ele usa para falar na brutalidade das guerras na África e a na violência que os homens impõem a outros homens.

Membros decepados, corpos violentados de toda forma possível. E sangue, muito sangue. Essa parte documentária é desagradável de ver, mas realista. E há o romance. O absurdo de ‘The Last Face’ está em comparar a guerra aos embates afetivos e sexuais entre homens e mulheres. 

Um roteiro inteligente até conseguiria (talvez), mas para ter Javier Bardem, Sean Penn e Charlize Theron no tapete vermelho bastava colocar o filme fora de concurso. Concorrendo, é demais. 

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