Festival de Cannes surpreende ao conceder Grande Prix a diretora italiana

Rodado em uma região da Itália habitada por ex-hippies, 'Le Meraviglie' , de Alice Rohrwacher, conta o drama de família de apicultores

Luiz Carlos Merten / Enviado Especial / Cannes, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2014 | 20h38

Todo mundo esperava que a presidente do júri desta 67.ª edição do Festival de Cannes, Jane Campion, premiasse uma mulher com o Grand Prix. A surpresa foi que a escolhida tenha sido a italiana Alice Rohrwacher, de 32 anos, por Le Meraviglie (As Maravilhas).

Como se sente com seu Grand Prix?

O prêmio excedeu minha expectativa, mas o filme foi feito com tanto amor, por toda a equipe, que eu me sinto feliz por todos nós.

Le Meraviglie começa como um documentário e se torna cada vez mais ficcional. Como foi sua abertura para o fantástico, o maravilhoso?

O filme nasceu do meu encontro com uma paisagem. Sou natural de uma região que fica no limite entre Úmbria, Lácio e Toscana. É uma região que tem muita história, e eu queria falar sobre este sentimento: como é viver encravado na tradição. São sítios muitas vezes museificados. Queria falar da situação dos jovens. Mas também encontro na minha região uma coisa que me intriga. Muitos desses pequenos proprietários são ex-hippies e ex-revolucionários de Maio de 68 que seguem buscando formas alternativas de vida e organização social. Se antes eram contra a família, hoje ela é a sua forma de se organizar. As comunidades são verdadeiras famílias.

O filme mostra uma família de apicultores. Por que escolheu esses personagens?

Eu mesma trabalhei como apicultora quando era mais jovem. Tenho de admitir que talvez conheça mais as abelhas que as pessoas e por isso fiz o filme com cautela, atenta ao que a ambiência local poderia me fornecer.

Por que a TV vira personagem?

A TV está presente na vida dos italianos. Integra o mistério das maravilhas de que falo. O que é uma maravilha, senão um coisa que nos deixa sem voz e que se situa entre o mundo terrestre e o fantástico? A maravilha está nesses cenários e famílias que resistem. Está na luz e nos segredos de infância. Nas abelhas. Mas, para essas pessoas simples, estar na TV e no programa de Milly Catena é que é maravilhoso. Acho que, sem a TV, jamais conseguiríamos explicar o fenômeno em que Berlusconi se transformou na Itália.

E Monica Bellucci como Milly?

Queria alguém que fosse um ícone sem perder a humanidade. Jamais pensei que Monica fosse se interessar, mas ela logo aceitou.

Como escolheu o elenco?

Por meio de testes, e fazendo laboratórios. Tivemos um período em que os jovens só trabalhavam com as abelhas. A mãe de uma das meninas me disse que era bom, porque se o filme não fosse feito, sua filha, de qualquer maneira, poderia ser apicultora.

A garota se chama Gelsomina. É uma homenagem a Fellini?

Embora La Strada seja um de meus filmes preferidos, o nome não é meu, mas foi dado pelos pais da garota. A homenagem é deles. Revela que pessoas simples também possuem uma cultura.

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