Valery Hache/AFP
Valery Hache/AFP

Festival de Cannes recebe drama de Asghar Farhadi com aplausos tímidos

Thriller psicológico do iraniano, 'Todos lo Saben' decepciona no festival que celebra Godard no cartaz e tem Cate Blanchett presidindo júri

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

08 Maio 2018 | 20h48

CANNES - No novo formato do Festival de Cannes, a imprensa, que antes via os filmes antecipadamente, agora tem de vê-los com o público, mas não na mesma sala. A primeira experiência ocorreu na noite desta terça-feira, 8, noite com o thriller em língua espanhola do iraniano Asghar Farhadi. Mas, para chegar a Todos lo Saben, foi preciso passar pela cerimônia de abertura. Foi a mais inesperada de todas, em muito tempo. Edouard Baer foi o apresentador. Escreveu os próprios textos.

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O 71.º festival homenageia, no cartaz, Jean-Luc Godard e seu Pierrot le Fou, que passou no Brasil como O Demônio das Onze Horas (1965). Baer colocou no telão um diálogo de Pierrot e Marianne, Jean-Paul Belmondo e Anna Karina - ela estava na plateia. Ambos conversam sobre o que se pode, ou não, fazer. Baer transformou a conversa numa meditação sobre os rumos do cinema. Foi muito aplaudido. Ele chamou o delegado-geral Thierry Frémaux, o homem que organiza a seleção oficial, para apresentar o júri. A presidente Cate Blanchett teve direito a um clipe que fez a síntese de sua carreira. O recorte privilegiou certas atitudes feministas da atriz - agradecendo prêmios da Academia, por exemplo.

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A representatividade das mulheres na indústria foi tema da coletiva do júri. São nove integrantes, quatro mulheres, quatro homens, mais a presidente, um escore de 5 a 4 para elas. Cate enfatizou a importância desse momento como marco da luta por igualdade na indústria. Mas a pergunta mais interessante não foi sobre questões de gênero, nem sobre uma eventual Palma de Ouro de gênero, já que, entre 21 filmes concorrentes, apenas três são dirigidos por mulheres. A pergunta de Rodrigo Fonseca, blogueiro do Estado, colocou a questão crucial dessa seleção - há muita gente nova e talentosa, mas, concorrendo com esses novos talentos, há um ícone revolucionário. Como será, para esse júri, avaliar LeLivre d’Imge, novo longa de Godard, de 87 anos? Nos anos 1960, ele transformou/subverteu a linguagem e a política do cinema. E agora?

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E veio o thriller de Farhadi. Penélope Cruz volta à Espanha para o casamento da irmã. O marido, Ricardo Darín, ficou na Argentina. Ela reencontra uma antiga paixão, Javier Bardem. Ocorre uma tragédia, um sequestro. Segredos familiares são revelados, e alguns amplamente conhecidos. Todos sabem. Os tímidos aplausos foram paralisados por um gélido silêncio. Mas o filme não é ruim. Farhadi retoma temas e situações de O Passado transpostos de uma família franco-iraniana para a Espanha.

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