Sebastian Nogier/EFE
Sebastian Nogier/EFE

Festival de Cannes: eleito melhor filme levanta questões sobre a corrupção no Irã

‘Lerd, Um Homem Íntegro’, de Mohammad Rasoulof, recebeu o grande prêmio do festival de cinema francês

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2017 | 21h12

CANNES – Talvez para compensar o fato de que, nestes 70 anos de Festival de Cannes, apenas uma mulher tenha recebido a Palma de Ouro – Jane Campion, por O Piano –, a organização do evento tem colocado mulheres na presidência do júri da mostra Un Certain Regard, que integra a seleção oficial.

 Depois de Marthe Keller e Isabella Rossellini, Uma Thurman ocupou o posto em 2017. “Foi uma presidente trabalhadora”, definiu o diretor artístico Thierry Frémaux.

Na hora de anunciar os prêmios, Uma antecipou que as escolhas haviam sido diversificadas, mas esclareceu que não houve nenhum desejo de composição. 

A própria qualidade da seleção determinou que assim fosse. E vieram os prêmios – o do júri para Michel Franco, por Las Hijas de Abril; direção, para Taylor Sheridan, por Wind River; interpretação, um só prêmio, para a italiana Jasmine Trinca, por Fortunata, de Sergio Castellitto; um novo prêmio definido como ‘Poesia do Cinema’, para Mathieu Amalric, por Barbara; e – cereja do bolo – melhor filme para o iraniano Lerd, Um Homem Íntegro, de Mohammad Rasoulof. 

Na sequência, passou o filme vencedor. É excelente, melhor que muita coisa vista na competição.

Passa-se em algum momento da história recente do Irã, sob a condução do aiatolá Khomeini. Rememorando – exilado na França, Khomeiuni comandou à distância o movimento que paralisou o país, tomou conta das ruas e levou à deposição do governo imperial do Xá Reza Pahlevi. 

Entre outras coisas, o Xá foi deposto porque se afastou da tradição, se uniu ao Ocidente (EUA) e, como seus ministros, era acusado de corrupção. 

Será mera coincidência que o protagonista se chame Reza? É um homem íntegro, exceção num país que, sob a salvaguarda da religião e da moralidade, afundou de vez na corrupção. Qualquer semelhança com a atual situação do Brasil fica por conta e risco do leitor. 

Mesmo sem ser um filme de tese – é muito bem escrito e realizado. O diretor levanta uma questão importante. É possível enfrentar a corrupção sem se corromper? Fazer alianças sem se comprometer e sujar as mãos? Até onde vai a tal integridade? 

Lerd é das melhores coisas vistas nesse festival. Rasoulof faz uma crítica dura do Irã. Considerando-se o estado do país, há que torcer para que não venha a ser tratado como inimigo do regime, como Jasfar Pasnahi.

Os Premiados

Filme: Lerd - Um Homem Íntegro, de Mohammad Rasoulof

Direção: Taylor Sheridan, por Wind River

Poesia do Cinema:  Bárbara, de Mathieu Amalric

Atriz: Jasmine Trinca, por Fortunata

Prêmio do Júri: Las Hijas de Abril, de Michel Franco

 

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