Festival de Cannes: dois filmes retomam acento político

Passado o tititi da exibição de O Código Da Vinci, a política, como anunciava o diretor artístico da seleção de Cannes, Thierry Fremaux, instalou-se no festival. Na quarta à noite, Cannes começou efetivamente para os jornalistas de todo o mundo. Neste horário, foi exibido o primeiro filme da competição, Palace Summer (Palácio de Verão), do chinês Lou Ye. Ontem de manhã, foi a vez de um veterano das batalhas de Cannes, Ken Loach, mostrar The Wind That Shakes the Barley, que aqui se chama Le Vent Se Lève, o Vento Que Sopra. Dois filmes de acento fortemente político. Um sobre os acontecimentos da Praça da Paz Celestial, em Pequim, que anunciaram as mudanças no comunismo chinês, no fim dos anos 1980, quase simultaneamente à queda do Muro de Berlim. O outro, sobre a resistência dos irlandeses à dominação colonial dos ingleses, nos anos 1920. O chinês, primeiro. Lou Ye, que nasceu em Xangai, em 1965, já participou da competição aqui em Cannes, há três anos, com Purple Butterfly. Seu novo filme é quase um cruzamento de Wong Kar-wai com Sydney Pollack, o que não deixa de ser curioso, pois o primeiro preside o júri que vai atribuir a Palma de Ouro e o segundo dará, na semana que vem, a tradicional lição de cinema. Summer Palace tem um lado Amores Expressos muito forte, lembrando os primeiros filmes de Kar-wai. O filme conta uma história de amor visceral e terminal. Os personagens chamam-se Yu Hong e Zhou Wei. Pertencem à chamada geração Tian An Men e vivem uma relação de amor e ódio. Lou Ye não descontrói seu drama como Kar-wai gosta de fazer, mas usa muito a elipse, que tanto atrai seu compatriota (o diretor de Amor à Flor da Pele e 2046 nasceu na China, mas iniciou sua carreira em Hong Kong). Ele teve a idéia do filme quando estava concluindo a universidade, em 1989. A história de amor começou a persegui-lo. E ele era obcecado pela imagem do Palácio de Verão, em Pequim, vizinho à cidade universitária. Seus personagens vivem a vertigem do sexo e da política. Numa cena, passeiam de barco e ficam ali, no meio d´água, falando de suas indecisões. O barco oscila e não apenas o barco. O mundo inteiro vai oscilar. Lou Ye lembra aqui as cenas de Barbra Streisand e Robert Redford em outro barco, em outro período de mudanças, aquele que Pollack revelou em Nosso Amor de Ontem. Summer Palace talvez seja um pouco longo, mas é tudo aquilo que Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, deveria ter sido (e na época quase não nos demos conta de que não era). O casal de protagonistas, toda a sua geração vai às ruas gritando slogans contra a repressão, pedindo democracia dentro do maoísmo. Depois, cada um segue sua vida. Nós que nos amávamos tanto. Decepções, frustrações. O cinema chinês não cessa de surpreender. Ken Loach também não. Em The Wind That Shakes the Barley ele volta à Irlanda, que já lhe inspirou filmes como Days of Hope, de 1974, e Agenda Secreta, em 1989. Como em Terra e Liberdade, quando usou o quadro da Guerra Civil Espanhola para falar das divisões no mundo pós-comunismo, Loach filma a resistência dos irlandeses aos ingleses para mostrar que a independência lograda em 1922 não era aquela sonhada pelos republicanos. Os irlandeses que antes lutavam contra os ocupantes passaram a guerrear entre eles. Para Loach, a metáfora é clara. Ele filma uma história que se desenrolou há mais de 80 anos para retratar o que se passa hoje no Iraque, para atacar o premier inglês Tony Blair e para mostrar que as forças progressistas iraquianas pós-Saddam Hussein estão sendo manipuladas pelos interesses externos. Nada vai mudar, como não mudou na Irlanda de 22. Os pobres continuarão pobres, o poder e o dinheiro vão trocar de mãos, mas os interesses do mundo global continuarão intactos. Diretores como Michael Haneke em Cache dizem que o realismo está morto e o que sobrevive é uma imagem da realidade filtrada pelos autores. Se o realismo morreu, esqueceram-se de avisar Ken Loach e ele continua filmando com a mesma urgência, a mesma paixão, a mesma necessidade de refletir sobre seu tempo. Grande Kean Loach. Companheiro velho de guerra. E, agora, há que voltar ao Código Da Vinci. Com exceção dos protestos de terça-feira, o filme veio e foi-se sem provocar o escândalo com que a Sony esperava alavancar sua carreira internacional. O Código começa muito bem, tem cenas ótimas, mas vale chamar atenção para um detalhe. Logo no começo, quando Jacques Saulniere mutila o próprio corpo para fornecer indícios a Robert Langdon e Sophie Neveu, ele reproduz a célebre imagem do pentagrama de Leonardo Da Vinci. Deita-se nu na Grande Galeria do Louvre, abre braços e pernas para formar um círculo. Embora ele esteja despido, sua genitália foi suprimida mediante um efeito de luz (e computação gráfica). O curioso é isso. O filme adaptado do best seller de Dan Brown pode investir contra a Igreja Católica e a Opus Dei, pode sugerir uma conspiração contra as mulheres e tudo o mais, mas não pode mostrar, nem filmado a grande altura, o sexo de um homem morto. Isso revela bastante sobre o caráter e a natureza de uma sociedade puritana como a dos EUA e deve servir como material para reflexão, somado ao que Dan Brown e o diretor Ron Howard propõem com seu Evangelho revisto.

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