Festival de Cannes começa com favoritos

Babel é o título do filme que o mexicano Alejandro González-Iñárritu realizou para a interpretação de Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal. Cannes é uma Babel de culturas, línguas, nacionalidades. O filme de González-Iñárritu, diretor de Amores Brutos e 21 Gramas, é uma metáfora da Babel bíblica, que o autor utiliza para discutir a dificuldade (impossibilidade?) de comunicação no mundo moderno. Babel é um dos 20 filmes que integram a competição.Thiérry Frémaux, que assina a seleção de Cannes, explica como ela é feita. Por princípio e filosofia, o festival é voltado à promoção, debate e consagração do cinema de arte. O festival, como ele diz, ?visa à prática do cinema como arte e também procura vozes originais que estejam se manifestando nas mais diferentes culturas?. Desta forma foram selecionados os filmes que integram a disputa pela Palma de Ouro.A seleção deste ano traz mais filmes europeus do que as de anos anteriores recentes. Frémaux divide os autores selecionados em três grupos - os consagrados, tipo Pedro Almodóvar e Nanni Moretti; os que estão em ascensão, como Sofia Coppola e Richard Linklater; e aqueles que vão surpreender pela audácia poética, como Guillermo Del Toro. Festival já tem favoritos, mesmo antes de começarEmbora o festival ainda não tenha começado, Cannes 2006 decola com alguns favoritismos. Três das mais conhecidas revistas francesas de cinema - Cahiers, Première e Studio - estampam na capa a foto de Maria Antonieta, apostando no filme de Sofia Coppola. Positif prefere arriscar com Volver, de Pedro Almodóvar e todas abrem muito espaço no interior para o principal concorrente italiano, Il Caimano, de Nanni Moretti. Selecionar os filmes para um grande festival como Cannes é exercer uma curadoria à qual todos os olhos estão atentos. Frémaux, sabe disso. Os temas dos filmes da competição deste ano privilegiam a história e a política. Crônica de uma Fuga, do argentino Israel Adrian Caetano, trata dos anos de chumbo da ditadura militar; O Labirinto do Touro, de Guillermo Del Toro, investiga o imaginário da Guerra Civil espanhola; The Wind That Shakes the Barley, de Ken Loach, volta-se para a frente de oposição aos invasores ingleses na Irlanda dos anos 1920, vendo na vitória precária dos nacionalistas a origem da guerra civil que ensangüentou o país durante décadas. Guerra e violência fazem-se presentes em diversos filmes, mas a competição inclui sátiras como Fast Food Nation, de Richard Linklater, sobre um sujeito que investiga o envenenamento de carne numa rede de hambúrgueres e descobre todo um mundo à margem da globalização triunfante; retratos de personagens históricas como a Maria Antonieta da filha de Francis Ford Coppola, hoje mais fácil de ser identificado como pai da talentosa Sofia; histórias de amor como a de Volver, que volta à parceria com sua antiga musa, Carmen Maura; e o filme particularmente aguardado de Nanni Moretti, no qual o caimano do título é ninguém menos do que o ex-premier italiano Silvio Berlusconi.Além dos 20 filmes em concurso, e os que passam fora de competição, como O Código Da Vinci, a seleção de Cannes inclui as seções paralelas - Um Certain Regard, Quinzena dos Realizadores, Semana da Crítica.Diretores de todo o mundo dariam a alma para pisar na Croisette, esse território sagrado do cinema de autor (e de arte). Richard Linklater, que dirigiu Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, estará duas vezes na seleção oficial, com seu filme da competição e também com A Scanner Darkly, programado na mostra Um Certain Regard. Descontadas a inauguração, nesta quarta-feira, e a premiação (dia 28), o festival propõe dez dias de atividade intensa, durante os quais centenas e até milhares de filmes, incluindo os do mercado, estarão à disposição de críticos, compradores, curiosos. É humanamente impossível atender a tanta oferta, mas há que tentar, pois Cannes abriga filmes que nunca serão exibidos em países como o nosso, voltado, massivamente, à exibição da produção de Hollywood.E existem as festas, porque a mundanidade ajudou a construir a mística de Cannes. O Brasil terá sua festa, com o ministro Gilberto Gil, da Cultura. Haverá um grande evento para promover o lançamento de X Men 3, de Brett Ratner, dias antes da estréia mundial do terceiro filme da franquia (dia 26). Chega? Claro que não. Só para ver a homenagem a Sergei M. Eisenstein, já valeria vir à Croisette, o passeio à beira-mar que liga o Palais aos hotéis de luxo que abrigam as sedes das empresas distribuidoras e seus convidados. Cannes vai mostrar desenhos e filmes restaurados de Eisenstein, mas o interesse maior da homenagem ficará por conta de uma coleção de desenhos eróticos do mestre, que até hoje estava inédita.Cannes ClassicsNa seção Cannes Classics, o festival vai exibir versões restauradas não apenas de filmes de Eisenstein (Outubro e O Prado de Brejin), mas também de Luchino Visconti (La Terra Trema), John Ford (Rastros de Ódio), Alejandro Jodorovski (El Topo), Valerio Zurlini (Verão Violento), Robert Enrico (Os Aventureiros) e Marguerite Duras (India Song), mais a Cabíria de Giovanni Pastrone, monumento que data do cinema mudo, tendo preparado o caminho para O Nascimento de Uma Nação, de David W. Griffith. As lições fazem parte da programação oficial e são sempre oportunidades raras de conhecer e debater com grandes artistas. Gena Rowlands dará a lição de atriz; Sydney Pollack, a de diretor; e haverá uma lição de música, dada pelo cineasta francês Jacques Audiard e pelo compositor de seus filmes, Alex Desplat. O futebol, no ano da Copa, será representado por Zidane, que vem ao Palais mostrar sua estréia como ator. O Brasil, pentacampeão do mundo, não concorre à Palma de Ouro do longa-metragem, mas pode ambicionar a de curta, com O Monstro, de Eduardo Valente, que já ganhou o prêmio da Cinéfondation com O Sol Alaranjado. Outro brasileiro, Bruno Jorge, concorre ao prêmio da Cinéfondation, que abriga representantes de escolas de cinema (a dele é a ESPM, de São Paulo), com Justiça ao Insulto. E Walter Salles e Daniela Thomas assinam um dos episódios de Paris, Je t´Aime, que vai abrir a mostra Un Certain Regard. Só para constar, os demais episódios desse filme sobre a capital francesa, vista por diretores do país e por cineastas estrangeiros, incluem nomes de autores de prestígio, como Alfonso Cuarón, Gus Van Sant, Olivier Assayas e os irmãos Coen.

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