Sebastien Nogier/EFE
Sebastien Nogier/EFE

Festival de Cannes chega ao último dia com prêmio para filme luso-brasileiro

'Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos' conta a história de um índio craô, no norte do Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

18 Maio 2018 | 19h33

CANNES - Há algo da magia de Piripkura - o resgate do espírito da floresta - no belo documentário do lisboeta João Salaviza e da paulista Renée Nader Messora que passou aqui em Cannes, integrando a seleção oficial na mostra Un Certain RegardChuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos acompanha um índio craô, no norte do Brasil. Ele se embrenha na floresta, tem sonhos cheios de presságios, verdadeiros pesadelos. Ihjãc é seu nome e ele precisa realizar o rito fúnebre do pai, para se reconciliar com o mundo. Essa poesia não passou despercebida pelo júri presidido pelo ator Benício Del Toro e nesta sexta-feira, 18, Chuva foi lembrado na premiação de Um Certo Olhar.

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Na exibição oficial do filme a equipe já portara cartazes de protesto. “Demarcação já!”, “Pelo fim do genocídio”, “Marco territorial, não!”. Também nesta sexta-feira, 18, o grito de “Demarcação já!” ecoou no palco da Salle Debussy e, quando o diretor pediu o apoio da imprensa mundial para divulgar o que ocorre no Brasil, as palmas ecoaram ritmadas. A premiação virou protesto. O russo Sergei Loznitsa, prêmio de direção por outro documentário, Donbass, não estava presente, mas enviou um documento alertando para as condições sub-humanas em que está preso na Rússia de Vladimir Putin, por um crime que não cometeu, o cineasta ucraniano Oleg Sentsov. O diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, inflamou o cerimonial ao pedir um minuto de aplauso, não de silêncio, por Sentsov.

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O 71.º Festival de Cannes vai chegando ao fim. Neste sábado, 19, o júri presidido pela atriz Cate Blanchett outorga a cobiçada Palma de Ouro. Quem vai levar? É um júri predominantemente feminino, e com mulheres que têm se destacado pelo ativismo. A cineasta Ava DuVernay, a cantora e compositora Khadjia Nin, a atriz Kristen Stewart. Nesses 11 dias que durou o festival, elas aproveitaram todos os espaços para reivindicar direitos. De negros, gays, trans. E paridade entre homens e mulheres. Há expectativa de que o Palmarès espelhe essa militância. Mas como? Os filmes foram predominantemente realizados por homens. Thierry Frémaux já disse que não cede à pressão por uma seleção de gênero. Escolhe os filmes pela qualidade.

São 21 concorrentes e apenas três são assinados por mulheres. A libanesa Nadine Labaki, de Capharnaüm, e a italiana Alice Rohrwacher, de Lázaro Feliz, podem aspirar a recompensas. O longa de Nadine, sobre a infância abandonada do Líbano, prolonga o episódio dela de Rio, Eu Te Amo, inclusive no que se refere ao método da improvisação. Alice já foi premiada (em Cannes) por As Maravilhas, mas dessa vez investe numa espécie de realismo ancorado no cotidiano de uma grande cidade. Preso na Rússia, Kirill Serebrennikov não pôde vir defender Leto, o Verão, mas o filme sobre a cena roqueira na perestroika defendeu-se sozinho. É belíssimo.

Outro que não pode sair de seu país, Jafar Panahi consegue, de novo, após Táxi Teerã, o prodígio de colocar o Irã dentro de um carro. Three Faces é seu melhor filme nessa fase. Matteo Garrone carrega no realismo social em Dogman. Seu filme sobre a vingança de um sujeito pacífico contra um brutamontes poderá até ser considerado masculino demais pelo júri, mas o ator Marcello Fonte, que o diretor compara a Buster Keaton, é excepcional. E já que o personagem é um dog sitter, Garrone admitiu para o repórter que espera ganhar pelo menos a Palme Dog, a Palma de Ouro dos caninos.

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Por uma questão de horário - foi projetado para a imprensa no fim de noite -, o único filme da competição que o repórter não viu até o encerramento desse texto foi o turco Ahlat AgaciA Árvore das Peras Selvagens. Nuri Bilge Ceylan é um grande diretor apreciado por seu foco no tempo. Cultiva as longas conversas, os planos-sequência. Seu novo filme é sobre um homem apaixonado pela literatura e que sonha escrever um grande romance. Para isso, ele retorna à cidade em que nasceu, mas como ocorre com frequência nos filmes de Ceylan é atormentado por problemas familiares. As dívidas do pai não lhe autorizam a concentração que ele considera necessária para produzir sua obra-prima. De Ceylan pode-se sempre esperar o melhor, embora certos críticos o considerem um autor de prestígio, daqueles que Cannes supervaloriza.

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Do Casaquistão, veio Ayka, de Sergey Dvortsevoy, filme belo e duro que dialoga muito bem com o anterior Tulpan, do diretor. Após um filme de homem, um de mulher. A protagonista foge do hospital na abertura para não alimentar seu bebê. Passa o filme, num inverno inclemente, tentando conseguir trabalho para pagar uma dívida. Os seios empedram, de tanto leite, e ela tem sangramento. A experiência é quase insustentável, mas o rigor impressiona e a atriz Samal Yesyamova, que já fazia Tulpan, é magnífica. E, claro, todo o mundo quer saber o que o júri de Cate Blanchett vai fazer com os filmes de Jean-Luc Godard, Le Livre d’Image, e Spike Lee, BlacKkKlansman. Poderiam levar a Palma da provocação. A questão é se Cate e seu júri vão bancá-los.

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