Festival de Cannes chega à 71.ª edição politizado e sem concessões

Festival de Cannes chega à 71.ª edição politizado e sem concessões

Com poucos filmes dirigidos por mulheres, festival terá longa do iraniano Ashgar Farhadi em sua abertura

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2018 | 06h00

Começa nesta terça-feira, 8, o maior evento de cinema do mundo. Cannes! O festival, com suas múltiplas seções, o mercado e o tapete vermelho. A montée des marches de Cannes é um dos eventos mais midiatizados do planeta e a desta terça se antecipa das mais gloriosas. Thiérry Frémaux, que organiza a seleção oficial – os filmes da competição e da mostra Un Certain Regard –, claro que com a aprovação do diretor geral Pierre Lescure, escolheu para a abertura o thriller em língua espanhola do autor iraniano Asghar Farhadi, Todos lo Saben.

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O que todo mundo sabe é que Farhadi é um diretor superpremiado – Oscars, no plural, Ursos de Ouro e Prata, troféus em Cannes, mas ainda não a cobiçada Palma de Ouro. Farhadi assina agora esse thriller sobre mulher que volta à Espanha com o marido argentino. Volta para o que se supõe seja uma comemoração, uma confraternização, mas logo os fantasmas do passado ressurgem em sua vida. O passado cobra sempre seu preço no cinema do autor – um de seus filmes chama-se justamente assim, O Passado. Os demais grandes filmes de Farhadi você conhece – Procurando Elly, A Separação, O Apartamento.

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E o elenco – a almodovariana Penélope Cruz, Javier Bardem como o marido argentino e, do passado, surge Ricardo Darín. Esse trio promete movimentar o tapete vermelho de Cannes, mas é só o começo. Após a fala de Todos lo Saben, o festival prossegue até o sábado, 19, com a outorga da Palma de Ouro pelo júri presidido por Cate Blanchett. É o 71º festival, e o cartaz ostenta uma imagem emblemática de Pierrot le Fou, de 1965, considerado um dos grandes filmes de Jean-Luc Godard. Um beijo selvagem de Jean-Paul Belmondo e Anna Karina, ele, Pierrot, ela, Marianne, e o filme passou no Brasil como O Demônio das Onze Horas. Passaram-se mais de 50 anos – 53 – e o próprio Godard participa da competição com seu novo longa, Le Livre d’Image.

O Brasil integra a seleção oficial, mas fora de concurso. Cacá Diegues terá direito a gala no sábado, 12, às 19h locais (2 da tarde no Brasil), com seu O Grande Circo Místico. Outros brasileiros estarão nas demais seções, incluindo Beatriz Seigner, que mostra Los Silencios na Quinzena dos Realizadores. 

“Está sendo um longo caminho até aqui”, comemora, pelo telefone, a diretora de Bollywood Dream, que terminou de mixar seu longa latino às 2 da manhã de sábado, num estúdio parisiense.

Politizado. Só mesmo Cannes, o maior festival de cinema do mundo. Em plena era de empoderamento feminino, a seleção oficial do evento não se deixou intimidar pelas pressões dos movimentos #Me Too e Time’ s Up e, assim, poucos filmes de mulheres, entre eles Lazzaro Felice, da italiana Alice Rohrwacher, estarão na competição em 2018. O selecionador Thierry Fremaux passou seu recado curto e grosso – “A seleção de Cannes nunca foi uma questão de gênero. Selecionamos pela qualidade, e se os escolhidos são filmes dirigidos por homens o resultado espelha o que nos foi dado avaliar.”

Para compensar a pouca representatividade das mulheres na competição, Frémaux e o diretor geral Pierre Lescure lhes outorgaram a presidência do júri, e Cate Blanchett dará, com certeza, uma bela Mme. Président. Não há cinéfilo que desconheça a atriz, duas vezes vencedora do Oscar – melhor coadjuvante, por O Aviador, de Martin Scorsese; melhor atriz, por Blue Jasmine, de Woody Allen. O público terá a oportunidade de conferir outra faceta das habilidades dela. Face ao que Cannes oferece em 2018 – como espelho de novas tendências do cinema mundial –, como se comportarão seu júri? A resposta sairá no encerramento, dia 19, após o que promete ser uma exaustiva maratona de filmes. Os cinéfilos esperam que seja também prazerosa.

Há exatamente 50 anos, em maio de 68, Jean-Luc Godard estava na linha de frente do movimento que, com a participação de Roman Polanski e François Truffaut, paralisou o festival em solidariedade às barricadas de estudantes, em Paris. Maio de 68, o ano que não termina nunca. Godard agora fornece o cartaz do 71º festival – uma imagem de Jean-Paul Belmondo e Anna Karina em O Demônio das Onze Horas – e concorre à Palma de Ouro, que nunca recebeu, por Le Livre d’Image. Apesar do título – Todos lo Saben –, sabe-se bem pouco do longa de Asghar Farhadi, que fará a gala de abertura do festival, nesta terça-feira à noite. Sabe-se menos ainda sobre o novo de Godard.

O cartaz do filme ostenta a cara dele e a sinopse não poderia ser mais vaga. “Nada além do silêncio e de uma canção revolucionária. Uma história em cinco capítulos, como os cinco dedos da mão.” Não é muito para alimentar expectativa, exceto que se trata de um novo filme de Godard, que aos 87 anos permanece fiel à própria lenda. E, sim, a canção anunciada indica que Godard não abre mão de ser, num mundo cada vez mais conservador – direitista, reacionário? – um velho incômodo, revolucionário. Com Godard, a competição anuncia outros ícones de cinema político. 

Spike Lee concorre com BlacKkKlansman, sobre policial negro que se infiltra na organização racista Ku Klux Klan. Jafar Panahi, confinado no Irã, concorre com Three Faces, e o festival não desiste de tê-lo, em pessoa, na apresentação do filme.

Crítico ácido de Vladimir Putin, Kirill Serebrennikov está preso na Rússia acusado de fraude. Em todo o mundo, organizações de cineastas protestam, mas Putin diz que não tem nada a ver com isso. Conseguirá Serebrinnov mostrar Leto em Cannes? Só esses filmes e autores já garantem uma competição movimentada, mas tem mais. Declarado persona non grata em 2011, por conta de uma declaração considerada ofensiva (e racista) durante a coletiva de Melancolia, Lars Von Trier volta à montée des marches – fora de concurso – com The House That Jack Built. O filme, com elenco internacional – Riley Keough, Jeremy Davies, Matt Dillon, Uma Thurman, Ed Speelers, Bruno Ganz, etc –, conta, ao longo de 12 anos, a história de Jack, a casa que ele construiu e os crimes que perverteram sua mente e fizeram dele um serial killer. O festival, que, no ano passado, comprou aquela briga com a Netflix – a plataforma, com dois filmes na competição, recusou-se a colocá-los nos cinemas –, anuncia uma medida polêmica. Os selfies estão proibidos no tapete vermelho, mas a organização ainda não definiu como vai conseguir evitá-los. E Cannes ainda precisa resolver o imbróglio do filme de encerramento. O festival briga na Justiça com o produtor português Paulo Branco, que alega direitos e quer interditar The Man Who Killed Don Quixote. Branco, que já foi queridinho em Cannes – como produtor de Manoel de Oliveira –, ameaça suceder a Von Trier como indesejável.

O festival homenageia os 50 anos do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, com direito a master class de Christopher Nolan sobre a obra-prima de Stanley Kubrick. E tem os brasileiros. Além de Cacá Diegues, Beatriz Seigner, na Quinzena dos Realizadores, com Los Silencios. Beatriz está nas nuvens. “Depois de nove anos, 37 editais e uma gravidez surpresa, estou feliz de dar à luz esse outro filhote. Desde Bollywood Dream, muita gente chega para mim dizendo que tem história que daria filme. Em geral, não me interessam, mas uma amiga colombiana me contou a história do pai dela que veio para o Brasil e sumiu, deixando sua mãe com os filhos. Pesquisei mais de 80 famílias na fronteira da Colômbia com o Peru e o Brasil e encontrei muitas histórias similares. Pais que não se sabe se estão mortos ou vivos, e o que isso representa. Quis contar essa história. Meu filme vai chegar ao mundo no maior festival do planeta, tendo passado por uma seleção de milhares em que só 20 foram escolhidos. Não sei nem como comemorar.”

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