Festival de Brasília dobra número de concorrentes ao prêmio principal

O mais antigo festival de cinema do Brasil chega em sua 45º edição e homenageia o crítico Paulo Emílio Salles Gomes

Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo / colaborou Ubiratan Brasil ,

16 de setembro de 2012 | 22h43

Como Janos, o deus bifronte que mira os dois lados, o Festival de Brasília 2012 põe um olho no passado, como referência, e outro no que julga ser o futuro.

No passado porque, em sua 45ª edição, este que é o mais antigo festival de cinema do País, cultua um dos seus fundadores, o crítico Paulo Emilio Salles Gomes, cuja obra e legado serão debatidos em seminário.

Pensando no futuro, ou no suposto futuro, Brasília abre mão de suas melhores características - a concisão e a concentração - para ceder à contemporânea tendência ao excesso. Ao invés dos seus tradicionais seis longas-metragens em competição, coloca o dobro de concorrentes. Doze longas, divididos meio a meio entre documentário e ficção. E mais 18 curtas, partilhados em três blocos de seis - ficção, documentário e animação. Cada qual com premiação específica.

Para quem considera retrocesso esse passo rumo ao gigantismo, há pelo menos uma boa notícia para compensar. O critério de ineditismo dos longas, que havia sido abolido no ano passado, volta a vigorar. Isso quer dizer que os 12 longas em competição serão novidade para o público e para os jornalistas.

Nenhuma dessas mudanças é definitiva. Serão adotadas em caráter experimental, é o que diz Sérgio Fidalgo, coordenador geral do festival. “Tudo isso nos traz certa insegurança”, admite. “Vamos ver como o público reage, pois será uma maratona”. De fato, é mudança radical na estrutura. O público de Brasília, bastante participativo, havia se habituado à dieta enxuta de um longa e dois curtas a cada noite.

Agora, haverá o dobro. E o conforto do Cine Brasília será apenas uma grata recordação, uma vez que a sala está em reforma e o festival será todo no Teatro Nacional, lindo, de bela acústica, mas que não tem nas apertadíssimas poltronas sua melhor referência. As cadeiras do teatro nos fazem sentir saudades das dos aviões, na classe econômica, para você ter ideia. “Estaremos fora do nosso ninho, que é o Cine Brasília”, lamenta Fidalgo.

Outro ponto polêmico é a divisão entre documentário e ficção, isso num momento em que as fronteiras de gênero derretem no mundo todo. “Também não é definitivo”, diz Fidalgo. Mas acrescenta: “É verdade que a produção de documentários vem crescendo muito no Brasil e pode ser interessante abrir espaço para eles”. Quando se argumenta que documentários já venceram o Festival de Brasília (Santo Forte e Peões, ambos de Eduardo Coutinho), responde: “É, mas o porcentual deles ainda é muito inferior ao da ficção”.

Como nada é definitivo, nem a opção pelo ineditismo o é. Ano passado, abriram para os não inéditos e o festival foi muito esvaziado. Agora, graças à boa comissão de seleção, voltou-se ao ineditismo, embora o regulamento não o exija de forma cabal. É apenas medida de bom senso, de festival de ponta que se leva a sério. “Mas ainda preciso conversar mais com as pessoas, ouvi-las, e ver o caminho a seguir”, admite Fidalgo.

Nesse mar de incertezas, o jeito é curtir o que se tem, sem pensar muito adiante. O cardápio parece apetitoso. Hoje o festival se inicia com um concerto da Sinfônica de Brasília, e a apresentação, fora de concurso, de A Última Estação, de Márcio Curi, conhecido produtor da cidade. 

Amanhã, começa para valer, com as mostras competitivas. A primeira sessão, com o curta Câmara Escura (PE), de Marcelo Pedroso, e o longa Um Filme para Dirceu (PR), de Ana Johan. Em seguida, mais dois curtas, Linear, de Amir Admoni (SP) e Canção Para Minha Irmã, de Pedro Severien (PE), antecedendo o longa Eles Voltam, de Marcelo Lordello (PE). Será a primeira amostra de uma seleção que Fidalgo considera muito boa. “Vi os 30 filmes e fiquei entusiasmado”, garante.

É ver e conferir. A seleção contempla bom número de diretores ainda pouco conhecidos do público, o que é sempre estimulante. Mas há também os mais esperados, como a volta de Lúcia Murat à ficção com A Memória que me Contam, o novo filme de Vinicius Reis, Noites de Reis, e Marcelo Gomes com Era uma Vez Eu, Verônica, com a incrível Hermila Guedes no papel principal. Além deles, há Gabriel Mascaro, com Doméstica, Joel Pizzini com Olho Nu e Cao Guimarães, com Otto, entre outros.

A esperança é que a qualidade da seleção apague o equívoco conceitual da segmentação de gêneros (ficção, documentário, animação) e a superlotação dos horários. Afinal, talvez o futuro esteja na referência intelectualmente estimulante a Paulo Emilio, e o passado, nesta retrógrada opção curatorial.

Tributo

Paulo Emilio Sales Gomes (1916-1977) foi um dos principais defensores do cinema nacional. Assim, nada mais justo que ele fosse homenageado no Festival de Brasília. Na quinta-feira, será lançado o livro O Homem Que Amava o Cinema e Nós Que O Amávamos Tanto, coletânea de artigos organizados por Maria do Rosário Caetano.

Com introduções de Lygia Fagundes Telles (ex-mulher de Paulo Emílio) e Antonio Candido, o livro traz textos alentados de Walnice Nogueira Galvão, Carlos Augusto Calil, Ismail Xavier e Adilson Mendes, entre outros. A obra não será vendida, apenas distribuída durante o festival.

Confira os concorrentes:

Longas-metragens de ficção

A Memória que Me Contam, de Lucia Murat

Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão

Eles Voltam, de Marcelo Lordello

Era Uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes

Esse Amor que Nos Consome, de Allan Ribeiro

Noites de Reis, de Vinicius Reis

Longas-metragens documentário

Doméstica, de Gabriel Mascaro

Elena, de Petra Costa

Kátia, de Karla Holanda

Olho Nu, de Joel Pizzini

Otto, de Cao Guimarães

Um Filme Para Dirceu, de Ana Johann

Curtas-metragens de ficção

A Mão que Afaga, de Gabriela Amaral Almeida

Canção para Minha Irmã, de Pedro Severien

Eu Nunca Deveria Ter Voltado, de Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão

Menino Peixe, de Eva Randolph

Vereda, de Diego Florentino

Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques

Curtas-metragens documentário

A Cidade, de Liliana Sulzbach

A Ditadura da Especulação, de Zé furtado

A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins

A Onda Traz, o Vento Leva, de Gabriel Mascaro

Câmara Escura, de Marcelo Pedroso

Empurrando o Dia, de Felipe Chimicatti, Pedro Carvalho e Rafael Bottaro

Curtas-metragens de animação

Destimação, de Ricardo de Podestá

Linear, de Amir Admoni

Mais Valia, de Marco Túlio Ramos Vieira

O Gigante, de Luís da Matta Almeida

Phantasma, de Alessandro Corrêa

Valquíria, de Luiz Henrique Marques

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