Festival de Brasília discute documentários

Por mais que o foco do 33.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro esteja direcionado para a mostra competitiva, há vários eventos rolando paralelamente e que merecem atenção. Um deles foi a série de debates para discutir o processo criativo do cinema documentário. Foram três tardes de discussões. O destaque do primeiro dia foi a homenagem a Linduarte Noronha, pelos 40 anos de Aruanda. Esse filme é um marco do cinema brasileiro do começo dos anos 60. Antecipa o Cinema Novo.Duarte veio do jornalismo. Pesquisou muito para dar forma ao filme, que trata do cotidiano de uma família no alto sertão da Paraíba. Ele investigou, coletou as informações, mas seu documentário foi encenado, pelo menos em parte. Veio daí um dos tópicos mais interessantes desses três dias de discussões - o que, afinal de contas, determina que um filme seja considerado um documentário? A palavra tem a mesma raiz de documento. Pressupõe algo verdadeiro, encravado no real. Mas, se é assim como um documentário pode ser encenado? E se é encenado, o que o diferencia da ficção?Boa parte da discussão girou em torno desse tema crucial. Jorge Furtado, que trafega nas fronteiras do documentário e da ficção (Ilha das Flores é um clássico), colocou que essencial, nesse gênero de cinema, não é a linguagem, mas a moral. O documentário pressupõe um compromisso com a verdade, que o autor não minta, não trapaceie com o espectador. Mas de que maneira isso é possível se a verdade é relativa e no próprio ato de filmar, ou seja, de enquadrar, colocar a câmera, determinar a duração do plano ou de que maneira ele se encaixa na montagem do filme, se tudo isso faz parte de um processo de manipulação?Homenagem - Geraldo Sarno, o grande documentarista de Viramundo, homenageou Linduarte Noronha (e Aruanda). Misturou um depoimento do diretor com as imagens do filme e superpôs um texto de Gláuber Rocha que se imprime sobre o filme, como se estivesse sendo escrito à máquina. É um trabalho lindo. Sarno citou Jean Rouch, o papa do cinema verdade - a questão-chave da ficção é o que colocar diante da câmera e a do documentário, onde colocar a câmera. Questão bem mais complexa do que se apresenta a uma primeira vista. A partir de uma intervenção da diretora Suzana Amaral, de A Hora da Estrela, no segundo dia, a discussão adquiriu contornos de teoria pura. Ela questionou o próprio real, no que foi socorrida pelo crítico José Carlos Avellar, que estava na mesa. Ele colocou a questão do olhar. Uma coisa, qualquer coisa, só existe a partir do nosso olhar sobre ela. Por meio do olho da câmera, o que se faz, portanto, seja na ficção ou documentário, é selecionar uma fração do real, apenas. Sílvio Tendler, de Jango, e Paulo Caldas, de O Baile Perfumado e O Rap do Pequeno Príncipe contra as Almas Sebosas, polarizaram a discussão do terceiro dia, o mais animado.Caldas também mereceu de Sarno um especial em que discute seu método nesses filmes (o primeiro, co-dirigido por Lírio Ferreira, o segundo, por Marcelo Luna). Caldas provocou sensação ao dizer que considera O Baile um documentário, e ninguém que veja o filme vai considerá-lo assim, da mesma forma que O Rap, para ele, tem muito de estrutura ficcional, e aí fica mais fácil acreditar na afirmação. Caldas diz que o que vale no documentário é a primeira tomada. O documentário, para ser verdadeiro, exige esse caráter de urgência. Duas ou três tomadas já viram uma encenação. Tendler alertou para o risco de se fazer telejornalismo achando que é documentário. A discussão não chegou a nenhum resultado definitivo, mas foi rica e esclarecedora. Teve até incorências. Vladimir Carvalho, na mesa do primeiro dia, criticou o que considera uma facilidade do documentário brasileiro atual. Não agüenta mais a tagarelice dos filmes, a profusão de entrevistas, o que não o impediu de seguir a fórmula em Barra 68, seu filme sobre a invasão da Universidade de Brasília durante a ditadura militar.

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