Festival de Brasília consagra "Amarelo Manga"

Estava escrito nas estrelas:Amarelo Manga, do pernambucano Cláudio Assis, confirmou suacondição de favorito do 35.º Festival de Cinema de Brasília,ganhando os prêmios de melhor filme em três segmentos: júrioficial, júri popular e crítica. Além desses, o longa ganhouainda os troféus de fotografia (Walter Carvalho), montagem(Paulo Sacramento), ator (Chico Diaz) e o São Saruê, dado pelojornal Correio Braziliense. Dois Perdidos numa Noite Suja, que havia ido muitomal no Festival de Gramado, recuperou-se em Brasília e leva paracasa os prêmios de direção (José Joffily), atriz (DéboraFalabella) e roteiro (Paulo Halm). Foi além do que devia. JáDesmundo, bonito e competente filme histórico de AlainFresnot, ficou aquém do que se previa: ganhou apenas trilhasonora (John Neschling) e atriz coadjuvante (Berta Zemel). É ogrande perdedor do festival, mais do que Lua Cambará - NasEscadarias do Palácio, que saiu de mãos vazias porque dele nãose esperava nada mesmo. Duas produções fora dos padrões, como A Festa deMargarette e Cama de Gato, também foram lembradas. A primeiracom um prêmio especial do júri para o diretor estreante RenatoFalcão e uma estapafúrdia estatueta para a direção de arte. Asegunda com o troféu de coadjuvante para Rodrigo Bolzan - o quetambém parece estranho, pois ninguém predomina no trio deintérpretes principais do filme. Como então distinguirprotagonistas de coadjuvantes? Assim, na premiação de longas, o júri acertou noprincipal e vacilou no detalhe. Por exemplo: será que ainterpretação de Débora Falabella em Dois Perdidos ésuperior à de Simone Spoladore em Desmundo ou à de Dira Paesem Amarelo Manga? Dira, pelo menos, teve o consolo de umprêmio especial do júri, pois atuou em três longas do festival:Amarelo Manga, Lua Cambará e Celeste & Estrela.Simone é preterida em Brasília pela segunda vez consecutiva. Anopassado, com Lavoura Arcaica; neste, com Desmundo. Mas, como se comentava nos bastidores, o maior absurdofoi o troféu de direção de arte ter ido para Rodrigo Lopez, deA Festa de Margarette, e não para Adrian Cooper e ChicoAndrade, de Desmundo. Essa premiação não se sustenta emqualquer análise técnica. É um equívoco conceitual. Limitações - Assim como é equivocada, em seu conjunto, apremiação de curtas. Como explicar que um filme-piada como NoBar, de Cleiton Stringhini e Paulo de Tarso Mendonça, tenhaacumulado os prêmios de melhor filme e direção, além do júripopular? Os próprios diretores, conscientes das limitações dessecurta de estréia, pareciam atônitos com a premiação. Comoatônitos ficaram alguns cineastas presentes à festa. Um delasobservou, com razão, que o problema não eram os prêmios em si,mas sim o incentivo que eles significavam para produtos tolinhos de feitio televisivo, como no No Bar. O comentário nãopoderia ser mais justo. No mais, tudo correu bem e de forma polida, secompararmos com edições passadas nas quais houve até brigafísica, troca de insultos e troféus candangos jogados na lata dolixo. Neste ano, é verdade, viram-se cobranças públicas decineastas a jurados e a jornalistas, caras fechadas,cumprimentos não respondidos, mas não se passou disso. Quemconhece os padrões de civilidade do cinema brasileiro não podedeixar de elogiar essa conduta digna de um manual de boasmaneiras. A festa de premiação, no Teatro Nacional Cláudio Santoro foi correta e simples, com apresentação do músico Túlio Mourãoantes da distribuição de troféus. O mais contente, claro, era odiretor Cláudio Assis. Ele não se cansava de repetir aomicrofone uma das suas expressões favoritas, enfática, mas quenão pode ser publicada em jornal de família. Já consciente desua nova responsabilidade de vencedor, Assis dedicou os prêmiosao fotógrafo Hélio Silva (de A Hora e a Vez de AugustoMatraga), que está doente e em péssimas condiçõesfinanceiras.

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