Festival de Brasília começa sem brilho

A cerimônia de abertura do 34º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi uma viagem no tempo. E como o desvão escolhido ficava entre os anos 60 e 70, não poderia ser melhor ocupado do que pelo compositor e cineasta Sérgio Ricardo. Acompanhado pela Orquestra do Teatro Nacional de Brasília, regida por Silvio Barbato, ele executou (ao piano, felizmente, e não ao violão) a peça Estória de João-Joana, tirada de um cordel de Carlos Drummond de Andrade e orquestrada por Radamés Gnatalli. Sérgio disse que a peça forma a base de um novo longa-metragem, que tenta há anos realizar. De resto, a noite foi excepcionalmente tranqüila. Nem muitas estrelas e nem autoridades. O governador do Distrito Federal, Joaquim Roriz (PMDB), não compareceu. Do staff governamental, só estava a secretária de Cultura, Maria Luiza Dornas. Estrelas também rareavam. Aliás, Brasília tem a característica de ser um festival mais sério, menos badalativo que seu concorrente, o de Gramado, que não vive sem as starlets da Globo.A aventura musical de Sérgio Ricardo foi partilhada também pelo cantor Alceu Valença e pelo ator Emanuel Cavalcanti, além de duas cantoras que se revezavam ao microfone. Alceu fazia intervenções eventuais, sendo as de Emanuel mais eventuais ainda. Limitavam-se a acompanhar alguns aboios presentes na peça, mas dada a personalidade barroca de Emanuel Cavalcanti, ator em vários filmes do Cinema Novo, as participações podiam ser raras porém nunca discretas. Musicalmente, a peça compõe-se de motivos nordestinos, reinterpretados com dissonâncias típicas do autor de Beto Bom de Bola. Para os mais jovens: Beto Bom de Bola foi a canção apresentada por Sérgio Ricardo em um daqueles badalados festivais de música dos anos 60, o Festival da Record de 1967. Vaiado, o compositor irritou-se, quebrou o violão e atirou-o em cima da platéia. Ficou famoso pela proeza.Mas, é claro, a carreira de Sérgio Ricardo não pode ser reduzida a este feito. Musicou filmes tão importantes quanto Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, os três de Glauber Rocha, além de A Guerra dos Pelados, de Sylvio Back, e A Compadecida, de George Jonas, entre outros. Como cineasta, assina filmes como Esse Mundo É Meu (1964), Juliana do Amor Perdido (1970), Quatro Contra o Mundo (episódio Menino da Calça Branca) (1970), e A Noite do Espantalho (1974). Este último foi exibido no Teatro Nacional, logo após a apresentação da peça musical. E então se compreendeu a presença de Alceu Valença e Emanuel Cavalcanti porque ambos são atores do filme. Apresentando seu trabalho, Sérgio Ricardo disse que "usa a linguagem meio absurda do cordel brasileiro, o que causou muita incompreensão na época em que foi lançado". Hoje, acredita o compositor, seu filme seria perfeitamente decodificável por causa da evolução da linguagem contemporânea. A Noite do Espantalho foi inteiramente rodado em Nova Jerusalém, Pernambuco, local famoso pela encenação da Paixão de Cristo. O filme não poderia ser exemplar mais emblemático da estética brasileira dos anos 70. Fortemente alegórico, é produto, em parte, de um tempo em que nada podia ser dito diretamente, pois o País era governado por militares e a censura acompanhava de muito perto artistas politicamente empenhados como Sérgio Ricardo. Em ironia mal compreendida, Jorge Luis Borges disse certa vez que a censura era muito útil porque impedia que tudo fosse escancarado e portanto apurava o estilo. Pois bem, a arte brasileira dos anos 70, ou pelo menos parte dela, é um desmentido ao valor universal da frase do argentino. Sente-se por vezes que a alegoria é usada, não de maneira tática (para passar um recado sem que o inimigo perceba) mas por seu valor em si. Essa alegoria funde-se ao barroquismo que é uma característica nacional e também a um certo espírito anos 70, que corteja o happening, o desbunde e mesmo certo gosto trash.O modo de contar a história, fortemente estilizado, lembra às vezes a coreografia cênica de Deus e o Diabo na Terra do Sol, a obra-prima de Glauber, em especial nas cenas de luta. Trata-se obviamente de uma homenagem. O dragão, a figura emblemática do mal num universo mítico e religioso do sertão aparece no filme em sua imagem literal, um constrangedor dragão de plástico, fake e rugidor. A Noite do Espantalho, no entanto, oscila esses momentos menos inspirados com outros de grande beleza, quando então se vê a mão do grande fotógrafo Dib Lutfi, irmão de Sérgio Ricardo, e considerado o grande diretor de fotografia do Cinema Novo. Lutfi, presente em Brasília, foi um dos homenageados da noite. Mas esses momentos de beleza, se dão um respiro não salvam o conjunto da obra. De maneira que, boa parte do público do Teatro Nacional (1.300 poltronas), ao se ver diante de uma linguagem que não era a sua, foi abandonando a platéia e aderindo ao coquetel no foyer. Não foi assim que Sérgio Ricardo viu a coisa. No final da sessão, declarou que boa parte da platéia permaneceu, o que para ele só poderia ser interpretado de uma maneira: "O filme continua atual". Bem, de fato os problemas tocados em A Noite do Espantalho - coronelismo, má-distribuição fundiária e portanto luta pela terra, opressão e misticismo consolador - continuam intocados. Mas esteticamente o filme é tão atual como uma vistosa calça de boca de sino. A atração de hoje à noite, no Cine Brasília, é Netto Perde Sua Alma, de Beto Souza e Tabajara Ruas, que resgata um dos personagens da Revolução Farroupilha. Netto, adaptado de um romance de Tabajara Ruas, já concorreu em Gramado, onde ganhou quatro prêmios, incluindo o de melhor filme na votação popular.

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