Festival de Brasília começa sem apoteose

Um Teatro Nacional lotado, com 1.400 pessoas sentadas e mais gente acomodada pelos degraus, assistiu a abertura do 37.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais tradicional evento do gênero no País. A Orquestra do Teatro tocou na noite de terça, a trilha sonora composta por Cláudio Santoro para o filme A Estrada e, em seguida, foi apresentada, fora de concurso, a produção local As Vidas de Maria. O filme, estréia na ficção de Renato Barbieri, agradou, mas não foi a apoteose esperada. Reação justa, pois afinal era dia de festa mas nem assim se podiam ignorar os problemas do longa-metragem. A idéia, embora nada nova, era um bom ponto de partida: acompanhar a história de uma cidade pelas etapas da vida de uma de suas moradoras, que simbolicamente nasce no dia da inauguração da nova capital. Maria é filha de um candango e sua mãe morre no parto. O pai (Cláudio Jaborandy), como aconteceu com outros trabalhadores, ficou sem emprego depois da construção da cidade. A esse respeito, existe o belo documentário de Vladimir Carvalho, Conterrâneos Velhos de Guerra. Seguindo essa sina, o pai de Maria deixa a filha pequena com um compadre e vai tentar a sorte na Transamazônica. Pela vida de Maria, interpretada quando moça por Ingra Liberato, passam as diversas fases da cidade - e do País. O "Brasil grande" e a conquista do tricampeonato no México, a votação da emenda das Diretas, a queda de Collor, etc. Ela vai levando sua vidinha enquanto o País vai levando a dele. Sente-se perdida, cai na gandaia e, num determinado momento, procura algum tipo de sentido para a existência. Bonito e estimulante visualmente, o filme no entanto deixa a desejar quanto à sua consistência. Política - Enquanto o festival começa a rolar na tela, a política do audiovisual esquenta. Como se sabe, as disputas em torno da aprovação da Ancinav, a nova proposta para formatação do audiovisual brasileiro, continuam a despertar polêmica. O projeto do governo, que tem sofrido modificações antes de ser apresentado, provocou um racha no meio cinematográfico, um verdadeiro Fla-Flu (daqueles dos bons tempos) que está longe de terminar. No lance mais recente, foi lançada ontem, no edifício do Senado Federal, A Frente Parlamentar Mista em Defesa da Indústria Cinematográfica Brasileira. Em seu documento de criação, a Frente diz que seus objetivos são "estimular, defender, proteger, divulgar e garantir a competitividade da indústria cinematográfica brasileira". Assinam o documento Ideli Salvati e Maurício Rands, ambos do PT, e Beto Albuquerque, do PSB. Além do princípio de frisson político, na manhã de ontem houve a divulgação do Prêmio Binacional das Artes Brasil-Argentina, uma iniciativa conjunta dos ministérios da Cultura dos dois países. Pelo Brasil, o escolhido foi o cineasta Beto Brant, e pela Argentina Hector Oliveira, diretor veterano, autor de filmes como La Patagonia Rebelde e La Noche de los Lapisis, há pouco exibidos pelo Canal Brasil. Na justificativa da comissão julgadora brasileira, Brant foi escolhido "pelo vigor criativo de seu trabalho e pela abordagem de temáticas que estão no centro das preocupações das sociedades brasileira e argentina contemporâneas. O diretor escolheu, em seu longa-metragem de estréia, Os Matadores, a fronteira entre o Brasil e seus vizinhos sul-americanos como cenário de sua narrativa. No segundo filme - Ação entre Amigos - revisitou o período em que regimes militares tomaram conta do Cone Sul. No terceiro longa - O Invasor - construiu sólido e ousado retrato das periferias e da vida urbana de nossas grandes metrópoles." O prêmio será de 25 mil reais para o brasileiro e 25 mil pesos para o argentino. No ano que vem, serão contemplados dois criadores dos dois países, na área de literatura. Além da mostra competitiva, que exibe o longa-metragem Cabra Cega, do paulista Toni Venturi, o Festival tem como grande atração para hoje a projeção pela primeira vez da cópia restaurada de Terra em Transe, para muitos a obra-prima de Glauber Rocha. A sessão, às 17h no Cine Brasília, terá as presenças de Dona Lúcia Rocha e Paloma Rocha, respectivamente mãe e filha do cineasta baiano, morto em 1981. Com o negativo original destruído no incêndio de um laboratório, Terra em Transe teve de ser recuperado a partir de uma cópia preservada em Berlim. A restauração foi supervisionada por Eduardo Escorel, que montou o filme original. As cópias que andavam por aí, inclusive em VHS, cometiam barbaridades com a obra, como a omissão ou troca de rolos. Volta agora conforme foi concebida por seu autor.

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