Festival de Brasília chega ao fim

Com a apresentação dos doisúltimos concorrentes, Dois Perdidos numa Noite Suja e AFesta de Margarette, o Festival de Brasília entra em sua retafinal. Amanhã à noite, a festa migra do Cine Brasília para oTeatro Nacional Cláudio Santoro, palco também da abertura, ondeserão entregues os troféus. Além das estatuetas, os tradicionaisCandangos, também há R$ 280 mil de premiação em dinheiro para osprincipais ganhadores. Os dois últimos longas exibidos compõem um painelvariado do cinema brasileiro atual, o que parece ter sido atendência norteadora da comissão de seleção. Dois Perdidos,dirigido por José Joffily, adapta a peça de Plínio Marcos parauma nova situação. Desta vez, os dois protagonistas são Tonho(Roberto Bomtempo) e Paco, ou melhor, Rita (Débora Falabela),dois brasileiros desgarrados do sonho americano numa Nova Yorkpré-11/09/01. Da peça de Plínio Marcos guarda-se a dramaticidade daconvivência de dois desvalidos que se entredevoram. O texto dePlínio inova ao criticar o bom-mocismo ingênuo, que tem nasolidariedade entre oprimidos um dado natural do mundo. Fazer deum dos personagens uma garota (Débora Falabela), ainda que elase passe por menino ao se prostituir, talvez normalize umpouco a acidez da peça. Outras alterações (de diálogos, porexemplo) retiraram mais um pouco do impacto do original. Dois Perdidos é bem filmado, mas sua dramaturgiaparece reticente. No entanto, teve boa aceitação do público que,como se sabe desde Aristóteles, não resiste ao apelo de uma boacatarse. Em Dois Perdidos, esta ocorre quando se invertem ospapéis de oprimido e opressor entre os personagens. Uma boalinha, insinuada mas não desenvolvida, seria a da diferença depontos de vista dos personagens em relação ao Brasil. Tonho quervoltar; Paco/Rita não pode nem ouvir falar do Brasil. Já que erapara alterar o texto de Plínio Marcos, esta linha inovadorapoderia ser mais bem explorada e talvez o resultado fosseoutro. Já A Festa de Margarette é um filme simpático, queretorna às origens do cinema para contar uma história bem atual.Com linguagem de filme mudo (e rodado a 18 quadros por segundoem vez dos 24 normais), Margarette fala de um homem que perde oemprego, mas não a gentileza, e faz de tudo para dar à suaesposa a festa de que fala o título. Amoroso, bem-humorado, talvez com música em excesso emsua trilha, Margarette é boa opção para encerrar o festival como astral lá em cima.E quanto aos prêmios? Difícil prever, ainda mais por que o júrideste ano tem composição das mais heterogêneas. Certo, há umtititi em favor de Amarelo Manga, de Cláudio Assis, queparece o preferido dos jornalistas e dos estudantes. Se osjurados optarem pela linha da ousadia estética, associada àtemática social, escolherão o longa de Assis. Se não, seescolherem o cinema mais clássico, sólido porém de baixadensidade polêmica, poderão até mesmo ficar com Desmundo, deAlain Fresnot. Este, um protótipo do cinema brasileiro dequalidade (para usar a terminologia da nouvelle vague quandose referia ao cinema anterior a ela), deve no entanto brilharnos quesitos técnicos, como direção de arte e fotografia. Há três fortes candidatas a atriz: Dira Paes, SimoneSpoladore e Débora Falabela, o que dificultará o trabalho dojúri. Os atores também estão em alta e a estatueta pode ficarcom Osmar Prado, Roberto Bomtempo, Matheus Nachtergaele e ChicoDiaz. Tudo dependerá talvez menos do mérito profissional em sique do equilíbrio na distribuição geral dos prêmios.Dificilmente um único filme levará a maioria dos principaistroféus.(*) O repórter viajou a convite da organização do festival

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