Festival de Brasília chega à 40ª edição nesta terça

O Festival de Brasília do Cinema Brasileiro segue só aceitando, em concurso, longas-metragens inéditos no País

Luiz Zanin, do Estadão,

07 de novembro de 2019 | 14h02

Será um festival marcado por datas redondas - 40ª edição e 30 anos da morte do seu fundador, o crítico Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977), até hoje considerado o maior pensador do cinema brasileiro. Por sorte, ou melhor, por competência e teimosia, o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro poderá insistir, este ano, na linha de curadoria adotada há algum tempo - só aceita em concurso longas-metragens inéditos no País. Dois deles - Anabasys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha, e Cleópatra, de Julio Bressane - foram apresentados em setembro no Festival de Veneza. No Brasil, são 0 km.    Blog do Zanin   Já os outros quatro, nem no exterior foram vistos. São eles Falsa Loura, de Carlão Reichenbach (SP), Chega de Saudade, de Laís Bodansky (SP), Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte (DF), e Amigos de Risco, de Daniel Bandeira (PE). Dos seis concorrentes, fazem suas estréias em longa o pernambucano e Paloma Rocha, filha de Glauber e de Helena Ignez. Já seu parceiro em Anabasys, Joel Pizzini, concorreu várias vezes com curtas-metragens e também com o longa documental 500 Almas. Belmonte apresenta seu terceiro longa, ele que já competiu em Brasília com o polêmico A Concepção. Laís concorre com seu segundo longa-metragem, e já tem um candango (o troféu do festival) de vencedora por seu Bicho de Sete Cabeças, com o qual ganhou o festival de 2000. Carlão é um veterano, e faturou o primeiro lugar em Brasília com Alma Corsária, em 1993. Já Bressane é chamado de "o senhor Brasília" ou, como ele mesmo diz, "O Amado", já que venceu o festival em três ocasiões - com Tabu (1982), Miramar (1997) e Filme de Amor (2004). Mas antes que a competição comece a rolar, na terça-feira, 20, à noite, na tradicional abertura no Teatro Nacional Cláudio Santoro, deverá ocorrer uma sessão histórica, com apresentação do vencedor de 1967, Proezas do Satanás na Vila do Leva-e-Traz, de Paulo Gil Soares (1935-2000). Pouca gente conhece esse filme, que nunca mais foi programado pelos cinemas, não saiu em vídeo e nem em DVD.   Paulo Gil teve brilhante começo de carreira no cinema, como co-roteirista e assistente de direção de Glauber Rocha no clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). É autor do brilhante média-metragem Memórias do Cangaço (1965), integrante do projeto Brasil Verdade, de Thomaz Farkas. Depois realizou Proezas do Satanás, comédia crítica, e alusivamente política, numa época de ditadura militar. Mas logo trocou a carreira cinematográfica pela televisão, sendo fundador do Globo Repórter na Rede Globo. A noite inaugural de Brasília terá, assim, o caráter de resgate de uma obra esquecida.   A partir de amanhã, as atividades passam do Teatro Nacional para o Cine Brasília, onde se realiza a mostra competitiva dos longas e curtas-metragens em 35 mm. Neste formato, concorrem 12 filmes, sendo seis de São Paulo, três de Brasília, dois de Pernambuco e apenas um do Rio de Janeiro.   Dezoito filmes em 16 mm serão apresentados em outro local, a Sala Martins Pena do Teatro Nacional. Na rotina do festival, os filmes apresentados à noite no Cine Brasília são discutidos na manhã seguinte no Hotel Nacional, sede do festival. Longos debates, de às vezes até três horas de duração, entre realizadores, atores, técnicos e jornalistas especializados e o público.   Esse cuidado com a parte reflexiva faz de Brasília um caso à parte entre os festivais brasileiros.   Outras atividades fazem parte da "agenda reflexiva" de Brasília. Entre elas, as mais importantes ligam-se ao nome de Paulo Emilio, nos 30 anos de sua morte.   Nos dias 22, 23 e 24, o crítico Marcelo Lyra ministra workshop que contextualiza as atividades de Paulo Emilio, da fundação do Clube de Cinema na Faculdade de Filosofia da USP à criação do curso de Cinema na então recém-fundada Universidade de Brasília. Como professor da jovem UnB, Paulo Emilio presidiu o comitê que, em 1965, criou a Semana do Cinema Brasileiro, primeiro nome do Festival.   Dia 24 haverá mesa redonda com o tema Por que Paulo Emilio?, com participação do biógrafo do crítico, o pesquisador José Inácio de Melo Souza. Com seu livro Paulo Emilio no Paraíso (Editora Record, 630 págs.), José Inácio ganhou o Prêmio Jabuti de 2003 na categoria Biografias.   Será interessante verificar, nessas conversas, o que pode ser feito com a memória de Paulo Emilio, que ainda exerce grande influência em parte da crítica brasileira, ao passo que é desprezado por outra, sob acusação de nacionalismo. Entre a adesão incondicional e o repúdio ignorante, há todo um universo a ser explorado nos textos legados pelo crítico.   O Festival termina dia 27, quando então volta ao Teatro Nacional para a cerimônia de premiação. Antes da entrega dos Candangos, em noite que às vezes é de muita euforia e, outras, de choro e ranger de dentes, acontecerá sessão cinematográfica importante: a exibição do raro e transgressivo Dezesperato (1968) em homenagem ao seu diretor Sérgio Bernardes Filho (1944-2007). Será uma autêntica noite marginal - no bom sentido do termo, claro.

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