Festival de BH homenageia Kieslowski

No mês que vem, Krzysztof Kieslowski estaria completando 60 anos. Mas ele morreu há cinco, logo depois de concluir a sua trilogia das cores - A Liberdade É Azul, A Igualdade É Branca e A Fraternidade É Vermelha. Kieslowski havia anunciado que estava parando com o cinema, mas nos últimos tempos estava sendo cooptado pelo produtor Marin Karmitz para fazer nova trilogia. Céu, Inferno e Purgatório. Como o Dostoievski do cinema polonês trataria esses temas? Kieslowski levou a resposta com ele, mas sua obra admirável, felizmente, continua viva. Ele será o grande homenageado internacional do 3.º Festival de Curtas-Metragens de Belo Horizonte, que começa nesta terça-feira na capital mineira.É uma promoção da Fundação Clóvis Salgado, do governo de Minas Gerais e da Associação Pró-Cultura Palácio das Artes, com apoio da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte e co-promoção da Zeta Filmes. Vai até o dia 10. A competição oficial terá 50 títulos - 14 brasileiros e 36 internacionais. Deles, nove são curtas em 16 mm e os restantes, em 35 mm. As ficções dominam, com 38 trabalhos, sendo um de ficção científica. Completam a lista: três animações, quatro documentários e cinco experimentos de linguagem. Foram garimpados pela comissão de seleção entre os 344 títulos inscritos para participar do evento. Todas as sessões serão gratuitas.Ivan Cardoso preside o júri da mostra competitiva. O criador do "terrir", filmes de terror que subvertem o gênero por meio do riso, também será homenageado pelo festival, mas o forte é mesmo a mostra Kieslowski, com oito filmes curtos. Alguns deles são considerados clássicos do autor - Da Cidade de Lodz, Fábrica e Hospital. Neles, já se percebe o Kieslowski observador da condição humana que iria explodir no Decálogo, essa suprema realização do gênio polonês.Houve um tempo, no começo dos anos 90, em que a produção brasileira ficou reduzida quase que só aos curtas. Debatia-se muito o formato e a conclusão é que o curta, por seu baixo custo, é o território por excelência da experimentação no cinema. O Brasil participa com títulos já conhecidos (e premiados) de outros festivais: BMW Vermelho, de Reinaldo Pinheiro e Edu Ramos; o filme-poema O Branco, de Ângela Pires e Liliana Sulzbach; o outro poema de Liliana, A Invenção da Infância; O Sanduíche, de Jorge Furtado. Há também, entre as propostas brasileiras do festival de BH, o manifesto do Dogma-Feijoada de Jeferson De, Distraída para a Morte, que coloca a temática do negro na sociedade brasileira. Desta maneira, BH prossegue com uma discussão que começou no Recife, com a exibição (e premiação) do documentário A Negação do Brasil, de Joel Zito Araújo. E há a mostra competetiva internacional.Ere Mla Mla, de Daniel Wiroth, ganhou o Teddy Award no Festival de Berlim deste ano. Isto o classifica como filme de "temática gay", mas o próprio diretor prefere defini-lo como mais amplo - um delicado poema para o outro, sem o qual não existiríamos. Há também Seraglio, de Gail Lerner e Colin Campbell, que concorreu ao Oscar, sobre dona de casa que encontra carta de amor num repolho e vira uma improvável sedutora; Motorcycle, de Aditya Assarat, curta tailandês premiado em Nova York e Chicago, e Scarecrow, de Alexander Knott, da Rússia, que participou do Cannes, no ano passado, e foi premiado em Hamburgo. O festival internacional de curtas de São Paulo pode continuar sendo o maior evento do gênero na América Latina, mas o de BH está ficando cada vez melhor.

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