Festival de Berlim: premiação favorece estética política

Na coletiva de apresentação do júri, a atriz Charlotte Rampling já havia manifestado sua preferência pelo chamado cinema político. "Existem diversos tipos de cinema, mas o que me interessa é o que está comprometido com a discussão dos grandes temas contemporâneos", disse a estrela de filmes polêmicos de Luchino Visconti, Liliana Cavani e Nagisa Oshima.E ela acrescentou: "Por isso estou aqui; por isso aceitei a presidência do júri." Berlim, afinal de contas, tem a fama de ser o mais politizado dos festivais. Não sendo uma incoerente, Charlotte pode ter traçado uma orientação que foi seguida por seus companheiros jurados - os atores Armin Mueller-Stahl e Lee Young Ae, os produtores Yash Chopra e Fred Roos, a diretora Marleen Gorris, o fotógrafo Janusz Kaminski, o artista multimídia Matthew Barney.As escolhas deste grupo favoreceram a estética política, mas Charlotte, antes da premiação, no sábado à noite, subiu ao palco do Berlinale Palast para dizer que a premiação fora baseada no humanismo. "Espero que vocês aprovem", disse. De maneira geral, o júri da Berlinale de 2006 fez a coisa certa, mesmo que tenha se equivocado em algumas categorias. Houve críticos que acharam que o júri não ousou. Pelo contrário, ao privilegiar os novos talentos em detrimento de veteranos que competiam com bons filmes (Robert Altman e Claude Chabrol), o júri fez uma aposta merecedora de toda atenção.Grbavica, da cineasta bósnia Jasmila Zbanic, ficou com o Urso de Ouro para o melhor filme e somou ao prêmio maior da Berlinale o do júri ecumênico. O júri inverteu as posições que o enviado do Estado defendia - Urso de Prata para Grbavica, de Ouro para Road to Guantanamo. O filme dos ingleses Michael Winterbottom e Mat Whitecross ficou com o Urso de Prata destinado à melhor direção. O terceiro favorito, Offside, do iraniano Jafar Panahi, também ganhou um Urso de Prata, dividindo com En Soap, da dinamarquesa Pernille Fischer-Christensen, o grande prêmio do júri. Pernille também ganhou um Ursinho por seu longa, considerado o melhor assinado por um(a) diretor (a) estreante.Um filme sobre o campo de prisioneiros que o governo americano montou na sua base em Cuba, para a qual são enviados suspeitos de terrorismo. Um drama familiar sobre mulheres que foram estupradas na guerra da Bósnia. Uma história triste sobre mulheres que desafiam a lei islâmica e se disfarçam como homens para tentar assistir a um jogo decisivo de futebol em Teerã. E outra história ousada sobre uma mulher insatisfeita que abandona o marido e se instala num apartamento vizinho ao de um transexual, com o qual termina se envolvendo. Os quatro vencedores do Festival de Berlim são filmes que tratam, como Charlotte Rampling gosta, dos grandes temas contemporâneos. Políticos e/ou sociais, eles são, acima de tudo, humanos. Foram escolhas bem mais sensatas do que a dos críticos. O júri da Fipresci, a Fédération Internationale de la Presse Cinématographique, escolheu, não se sabe bem por que, Réquiem, do alemão Hans-Christian Schmid. O filme baseia-se numa história real de exorcismo que terminou em morte na Alemanha.É o reverso de um filme hollywoodiano sobre exorcismo, até porque o diretor não acredita que sua personagem estivesse possuída pelo demônio. Sua interpretação é psicanalítica. Favorece as relações de Micaela, a protagonista, com o pai e a mãe. A família, mais uma vez, é uma máquina de repressão. Havia o medo de que júri oficial seguisse a linha dos críticos e premiasse o drama de Schmid. Eles premiaram o que o filme tem de melhor, a atriz Sandra Hüller. Mesmo assim, ela não é melhor do que Isabelle Huppert em L´Ivresse du Pouvoir nem Mirjana Karanovic, a mãe sofredora de Grbavica. Os atores alemães deram show em Berlim. Moritz Bleibtreu recebeu o prêmio de ator por Partículas Elementares e ele também é muito melhor do que o filme que Oskar Roehler adaptou do romance de Michel Houllebecq. O caso de Jurgen Vogel é curioso.O jurado Kaminski, dos filmes de Steven Spielberg, subiu ao palco para anunciar o prêmio para a melhor contribuição artística. Todo mundo apostava num prêmio para fotografia, mais ligado aos aspectos visuais do cinema, mas Kaminski destacou um ator - o genial Vogel, que faz um estuprador de mulheres em The Free Will, de Matthias Glaser. Houve um prêmio para a melhor música, a que Peter Kam compôs para Isabella, do diretor de Hong Hong Pang Ho-Cheung, que termina com um sensacional fado com letra em português (a história passa-se em Macao). E o Alfred Bauer Prize, que homenageia o fundador do festival e vai para um filme inovador, foi para El Custodio, do argentino Rodrigo Moreno. Pode-se discordar aqui e ali, mas, foi uma bela premiação. Os vencedoresFilme: Grbavica, de Jasmila Zbanic Direção: Michael Winterbottom e Mat Whitecross, por Road to Guantanamo Grande Prêmio do Júri: Offside, de Jafar Panahi, e Em Soap, de Pernille Fischer-Christensen Ator: Moritz Bleibtreu, por Partículas Elementares, de Oskar Roehler Atriz: Sandra Hüller, por Réquiem, de Hans-Christian Schmid Contribuição Artística: Jürgen Vogel, ator, co-roteirista e co-produtor, por The Free Will, de Matthias Glasner Música: Peter Kam, por Isabella, de Pang Ho-CheungPrêmio Alfred Bauer: El Custodio, de Rodrigo Moreno Filme de Diretor Estreante: Em Soap, de Pernille Fischer-Christensen Crítica: Réquiem Ecumênico: Grbavica

Agencia Estado,

20 de fevereiro de 2006 | 12h14

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