Festival de Berlim expressa o mal-estar da civilização

Foi um sábado agitado na capital alemã. Um protesto contra a guerra e uma manifestação de bancários contra a globalização meio que convulsionaram o centro de Berlim. Havia policiais por todo lado, bandeiras vermelhas, também. A agitação continuou na distante Potsdamer Platz, quando o presidente do júri do 53.º festival anunciou os vencedores dos Ursos deste ano. O Urso de Prata, o prêmio especial do júri, já era mais ou menos esperado para Adaptation, de Spike Jonze. Um autor pós-moderno como o presidente do júri da Berlinale 2003, o diretor canadense de origem armênia Atom Egoyan, não perderia a oportunidade de premiar um seu igual.Mas o Urso de Ouro para Michael Winterbottom? In This World não é o melhor de coisa nenhuma, muito menos o melhor filme, mas consagra uma tendência do Festival de Berlim.Um olhar sobre a seleção dos diversos filmes deste festival, desde a mostra competitiva até as seções paralelas do Panorama e do Fórum, revela uma acentuada preocupação política e social. Neste quadro, o tema dos refugiados políticos adquire uma dimensão muito forte. Numa cena de Reservni Kozole, do esloveno Damjan Kozole, o guarda de fronteira não se importa de abusar de uma garota desesperada para atravessar aquela linha divisória do espaço (e da vida dela, também). Ele diz que seu futuro é ser prostituta, não poderá fugir a isso. Os chamados países desenvolvidos não absorvem essa massa de refugiados. Não têm emprego nem para os seus jovens. Eles são condenados à exclusão social e à marginalidade. Os filmes deste festival trataram muitas vezes desses assuntos, recorrendo a metáforas de morte e doença para expressar o mal-estar da civilização.O tema dos refugiados políticos faz a ponte entre o vencedor do Urso de Ouro, In This World, e outro filme que também saiu vitorioso desse festival. Lichter (Luzes Distantes), do alemão Hans Christian Schmid, ganhou o prêmio da crítica. Ao contrário da mistura de documentário e ficção um tanto mistificadora de Michael Winterbottom, Schmid armou uma sólida ficção dramática, usando uma estrutura circular para fundir as diversas vidas desses refugiados que necessitam de solidariedade para seguir em frente. Talvez, do imenso diagnóstico que o festival fez das mazelas do mundo atual, a idéia dominante de todos esses filmes seja que, mais do que amor, o mundo precisa de solidariedade humana, de compaixão dos ricos para os dramas dos mais pobres.Brasileiros - E também não deixa de falar de exclusão social o filme brasileiro de Claudio Assis, Amarelo Manga, que foi exibido na mostra paralela Fórum e, portanto, não podia ambicionar o Urso de Ouro, mas ganhou o prêmio que a Confederação Internacional dos Cinemas de Arte e Ensaio (Cicae) atribui aos filmes desta seção. Além dele, os outros dois filmes brasileiros em Berlim, O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, e Rua 6 s/n.º, de João Batista de Andrade, ambos também fora de concurso, foram igualmente bem-recebidos, com exibições seguidas de entusiasmados debates sobre a realidade social e política do Brasil.Pode-se construir uma utopia a partir dos filmes exibidos aqui em Berlim e até da premiação, por mais que se possam contestar as preferências do júri de Atom Egoyan. Algumas dessas escolhas, por injustas que sejam, podem ser facilmente explicadas. As Horas, de Stephen Daldry, foi o filme mais estrelado pelos críticos, nos quadros de cotações, o que o transformava em favorito para o Urso de Ouro. Só que premiar o filme seria antecipar o que parece que vai ocorrer no Oscar, em março, ou o que as pessoas acham que vai ocorrer. As vaias para o anúncio do prêmio de melhor atriz, dividido entre as três protagonistas de As Horas - Meryl Streep, Nicole Kidman e Julianne Moore -, não foi, em absoluto, uma contestação da qualidade dessas interpretações. A vaia foi para o prêmio pequeno para filme tão grande e também para a incapacidade dos jurados em escolherem uma só das atrizes.Estréia de Clooney - Houve, em compensação, muitos aplausos para Sam Rockwell, que ganhou o prêmio de melhor ator por Confessions of a Dangerous Mind, que assinala a estréia do ator George Clooney na direção. A mente perigosa do título é a de Chuck Barris, que revolucionou a TV americana, há 30 anos, criando programas cujo modelo foi imitado em todo o mundo (o Show do Gongo, para calouros, por exemplo).Barris levava vida dupla e talvez tripla. Priápico, sempre correndo atrás de um rabo de saia, fazia um bufão na telinha e também era assassino da CIA, participando do sujo mundo da espionagem. Clooney fez um filme criativo e inteligente, melhor do que Solaris, de Steven Soderbergh, que ele próprio interpreta (também estava na competição). Julia Roberts, como femme fatale, não é o menor dos encantos desse filme de Clooney que estréia em breve no Brasil.O prêmio de direção para Patrice Chéreau, por Son Frère, foi merecido, mas também teve contestadores. Chéreau ganhou o Urso de Ouro, há dois anos, por Intimidade, que ainda permanece inédito no País. Após seu filme de sexo explícito, o diretor volta com outro filme sobre a morte, centrado na dolorosa relação de dois irmãos. Um deles está morrendo e é quase insuportável acompanhar a degradação desse corpo, que Chéreau filma em detalhes, não poupando o público de minúcias que fazem de seu filme (quase) um documentário sobre a vida hospitalar. Favorito entre os três filmes alemães da competição, Goodbye Lenin, de Wolfgang Becker, ganhou uma espécie de prêmio de consolação, o de melhor filme europeu - o único, no Festival de Berlim, que vem acompanhado de um cheque (aproximadamente, R$ 100 mil).E houve, finalmente, outro prêmio de consolação. Leva o nome de Alfred Bauer, fundador do festival, e foi para Zhang Yimou, que já venceu aqui em Berlim, há mais de dez anos, com Sorgo Vermelho. Yimou reinventou o cinema de ação com o mais belo filme de artes marciais que você possa imaginar, mas Herói, realmente, não é para todos os gostos. Você talvez tenha de gostar de Jet Li, de Maggie Cheung e Tony Leung, embora a pergunta que se deva fazer seja: como alguém conseguiria não gostar desse trio? Outro filme da China teve tratamento mais nobre. Black Shaft, de Li Yang, ganhou o prêmio para a melhor contribuição artística do festival. Atom Egoyan, realmente, quis brincar com a gente. O filme pode ser muito interessante, e é, por mostrar o que a abertura da China para o capitalismo representou em matéria de violência no país. Conta a história de dois trapaceiros que percorrem a China trabalhando em minas e que matam mineiros para ganhar o dinheiro do seguro. O tema é forte, inscreve-se na tendência social e política dominante na seleção berlinense, mas o filme... Berlim, quer dizer, Egoyan conseguiu dar o prêmio de melhor contribuição à arte do cinema para o mais mal realizado dos filmes da competição.

Agencia Estado,

17 de fevereiro de 2003 | 10h36

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