Festival de Berlim esquenta com dois favoritos

E o 55.º Festival de Berlim começou para valer. Após um começo medíocre, com filmes marcados mais pelas boas intenções do que pelos bons resultados, tipo Hotel Rwanda, de Terry George, sobre o massacre dos tutsis pelos hutus, na África, o cinema deu o ar da graça no sábado com Les Temps Qui Changent, de André Techiné, e ontem com o poderoso filme alemão Sophie Scholl, de Marc Rothemund. Também ontem, veio da África do Sul uma nova Carmem, a de Mark Dornford-May, cantada em xhosa, o idioma nativo do país. O filme é cantado e coreografado como musical, mas o cenário é a favela de Capetown, filmada com extremo realismo cênico. Mas o que seduz nesta Carmen em Khayelitsha, a Cidade de Deus sul-africana em que se desenrola a história, é a interpretação de Pauline Malefane. Ela passa pela tela como um furacão. Logo no começo, um narrador fala do seu corpo. Ela é volumosa, não tem traços finos, podem-se destacar as arestas do rosto, os lábios muito grossos, mas os lábios, diz o narrador... Gérard Depardieu era esperado na Berlinale, pelo menos para a exibição oficial do filme de Techiné, que interpreta com Catherine Deneuve, mas não pôde vir porque iniciou a rodagem de um novo filme. Catherine foi a estrela da coletiva. Poucas perguntas foram feitas ao diretor, que se resignou a ser coadjuvante da eterna Bela da Tarde. Completam-se já 40 anos do clássico de Luis Buñuel. Catherine, aos 60 e tantos anos, continua um mito (e erótico). O filme trata de uma família disfuncional e de obsessão, dois temas freqüentes na seleção oficial deste ano. Passa-se em Tânger, onde um engenheiro francês constrói um centro cultural. Na verdade, ele está ali por causa da mulher que foi seu grande amor na juventude. Quer reconquistá-la, começar de novo. Ela resiste, diz que é loucura. Ele abre o jogo até para o marido dela. Techiné reassume uma conversa que começou com François Truffaut, em 1968, sobre o definitivo e o provisório em matéria de sentimentos. Lembram-se de Antoine Doinel/Jean-Pierre Léaud em Beijos Proibidos? O que a bela Catherine pensa sobre isso? "O amor, como a felicidade, não pode ser eterno, caso contrário seria uma condição normal da vida e nós sabemos que não é verdade. O amor é importante para os homens, mas não é, como para as mulheres, o mais importante. A obsessão do personagem de Gérard (Depardieu) é uma coisa feminina e tanto mais tocante porque não se espera essa delicadeza de sentimentos de um homem tão robusto como ele." Sophie Scholl conta a história do casal de irmãos que redigiu o documento dos estudantes de Munique contra Adolf Hitler. Foram condenados à morte. O diretor Rothemund conta a história do ângulo da garota, Sophie Scholl. Concentra-se nos últimos dias dela. Rothemund é o novo Robert Bresson do cinema. Ele viu O Processo de Joana D´Arc. Seu filme é intensamente dialogado. Opõe a jovem Sophie a diferentes inquiridores. Ela sustenta, pela palavra, a força de suas convicções políticas e religiosas - é protestante, acredita em Deus, abomina o anti-semitismo nazista. O filme é rigorosamente construído. Cada gesto, detalhe, parece ter sido milimetricamente pensado (e executado), mas nada disso impede a força da emoção desse filme que discute consciência e humanismo. Temas não muito em alta nestes tempos de globalização. Já temos candidata a melhor atriz. Julia Jentsch é magnífica. Seu magnestismo e convicção carregam o filme de Rothemund rumo ao Urso de Ouro, ao qual, mais do que Les Temps Qui Changent, surge como candidato que não pode ser ignorado.

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