Pedro J. Marquez
Cena do filme 'A Última Floresta', de Luiz Bolognesi, com o escritor, xamã e líder político yanomami Davi Kopenawa Yanomami Pedro J. Marquez

Festival de Berlim começa nesta segunda com menos produções brasileiras ante 2020

'A Última Floresta', de Luiz Bolognesi, está entre os filmes; evento terá transmissão virtual em meio à pandemia de covid-19

Mariane Morisawa, especial para o Estadão, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 05h00

O avanço da pandemia foi sentido em tempo real no Festival de Berlim do ano passado, entre 20 de fevereiro e 1.º de março, o último grande evento de cinema realizado antes das restrições e cancelamentos provocados pelo coronavírus. Na primeira semana, todo o mundo estava relativamente calmo. Farmácias faziam oferta de álcool gel e não faltavam lenços desinfetantes. Na segunda, os artigos já não eram mais encontrados. É bem diferente a Berlinale de 2021, que começa sua versão virtual hoje. 

Com a nova onda de covid-19 na Europa, o festival decidiu em dezembro se dividir ao meio. De hoje a sexta-feira, ocorre o mercado de filmes, de maneira virtual. Apenas os júris estarão presentes em Berlim e anunciarão os vencedores na quinta (Curtas e Geração) e na sexta-feira (Encontros e Competição), causando calafrios nos jornalistas cobrindo o evento, que terá cinco dias em vez de dez. O número de longas em competição não variou tanto: são 15 ante 18 no ano passado. Em junho, há expectativa de que a segunda parte do festival aconteça, com os filmes ganhando os cinemas da capital alemã e trazendo seu público sempre fiel de volta. 

Entre os títulos na disputa pelo Urso de Ouro estão Introduction, o novo filme do sul-coreano Hong Sangsoo, vencedor do Urso de Prata de direção no ano passado por A Mulher Que Fugiu, e Petit Maman, o mais recente de Céline Sciamma (Retrato de uma Jovem em Chamas). Não há nenhum título americano na competição, e o único latino-americano é o mexicano A Cop Movie, de Alonso Ruizpalacios. Mas o Festival de Berlim traz títulos de apelo maior fora de competição, seja The Mauritanian, que concorreu a dois Globos de Ouro, ou o documentário Tina, sobre Tina Turner

A Berlinale também está menos verde e amarela neste ano, um provável reflexo das dificuldades encontradas pelo setor audiovisual desde o início do governo Bolsonaro. Em 2020, foram 19 filmes, entre curtas e longas-metragens. Desta vez, participam a série Os Últimos Dias de Gilda, de Gustavo Pizzi, a instalação Se Hace Camino Al Andar, de Paula Gaitán, na seção Forum Expanded, e o documentário A Última Floresta, de Luiz Bolognesi, na mostra Panorama.

Ianomâmi

Assim como seu longa anterior, Ex-Pajé, que participou da mesma seção em 2018, A Última Floresta também mergulha no universo indígena, só que de uma perspectiva diferente. “Em Ex-Pajé, contei a história de um pajé que estava desqualificado, destituído do seu poder científico, religioso e mitológico pela igreja evangélica, e os efeitos disso na comunidade”, disse o cineasta em entrevista ao Estadão. Seu trabalho anterior focava em Perpera, um xamã obrigado pelos pastores a abdicar de seus poderes e se tornar zelador do templo. “Decidi que precisava fazer o contrário. Porque existem muitos xamãs e pajés que estão conseguindo impedir a entrada dessas igrejas e manter a cultura xamânica funcionando. Queria filmar num lugar onde o xamã estivesse na sua potência política, econômica, científica e religiosa”, completou Bolognesi.

O diretor tinha lido A Queda do Céu, de Davi Kopenawa Yanomami, que define como o Grande Sertão: Veredas do século 21. “Resolvi fazer na terra dele, onde os xamãs estão potentes, apesar de mil dificuldades e lutas. E na potência dos xamãs, dos pajés, tem uma maneira de pensar o mundo, de lidar com o conflito, com o tempo. São mais de 4 mil anos de sabedoria.”

Para Bolognesi, não bastava mais apenas se desarmar do seu modo de ver e pensar e se deixar impregnar pelo ponto de vista do outro, entendendo suas explicações do mundo mágicas como reais. “Senti que tinha de dar um passo além, que era dividir a autoria. O mundo está me ensinando isso”, disse. “Sou um homem de 55 anos, e o mundo está mudando. E para mim está muito claro que esse lugar de fala precisa ser respeitado. Precisamos aprender com os povos que estavam aqui antes de os europeus chegarem. Para mim está claro que o papel é passar a palavra, se colocar na escuta e ajudá-los, na medida em que eles enxergam a câmera como mais uma flecha.” Davi Kopenawa Yanomami é corroteirista do filme.

A primeira coisa que ele disse a Bolognesi é que não gostava de Ex-Pajé. Kopenawa acha que fazer um filme em que o pajé está fraco é bom para o pastor, não para os indígenas. “Ele falou para mim: eu não quero fazer um filme de índio coitado. Eu tenho garimpo na minha terra. Tem aldeia com gente doente de garimpo, com a pele descamando. Tem aldeia com gente morrendo. Eu não quero filmar isso. Eu quero falar disso, mas quero mostrar o meu povo bonito, forte”, contou Bolognesi.

O cineasta passou dez dias na isolada aldeia de Kopenawa, onde não há registro de homem branco num raio de 200 quilômetros, a não ser pelos garimpeiros que continuam invadindo suas terras. Estima-se que até 20 mil tenham entrado no território ianomâmi, levando doenças como malária e covid-19 e contaminando os rios com mercúrio. Os problemas estão lá no filme. Mas também a beleza, a cultura, o modo de pensar. Davi Kopenawa explica, por exemplo, que os minérios foram feitos para ficar na terra. Quando retirados, eles trazem a fumaça da doença. O que é parte da filosofia ianomâmi acaba sendo um paralelo bem fiel da realidade.

Há sequências de sonho que reproduzem a visão de mundo dos ianomâmis, com seus mitos sobre a formação dos rios e lagos, e as divindades que fazem coisas boas e más. Ehuana contou a Bolognesi sobre o desaparecimento de seu marido. Sua história é encenada no filme, refletindo a maneira de pensar ianomâmi. O marido pode ter sido vítima de onça ou queixada, mas também pode ter sido sequestrado pela divindade que mora no fundo das águas.

O cineasta temeu que os brancos não fossem capazes de assimilar os conceitos, mas a seleção para Berlim mostrou que seu temor era infundado. Do anúncio para cá, choveram convites para outros festivais. E, assim, Luiz Bolognesi espera que o documentário seja a flecha que vai apresentar a rica cultura ianomâmi para o mundo, ajudando esse povo a fazer valer a Constituição, que protege suas terras. “No fim, eles estão tentando salvar o planeta e nos salvar”, disse Bolognesi. 

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Júri do Festival de Berlim 2021 é composto por vencedores do Urso de Ouro

Os jurados são Mohammad Rasoulof, Nadav Lapid, Adina Pintilie, Ildikó Enyedi, Gianfranco Rosi e Jasmila Žbanic; competição será de 1 a 5 de março, totalmente online, e de 9 a 20 de junho, com público

AFP, Redação

03 de fevereiro de 2021 | 09h12

O júri do Festival de Berlim 2021, cuja competição acontecerá em março totalmente online, estará composto este ano por seis premiados com o Urso de Ouro em edições anteriores, anunciaram os organizadores nesta segunda-feira, 1º.

Os membros deste júri, que este ano não terá presidente - algo excepcional - serão convidados para a capital alemã para que vejam os filmes selecionados na competição principal, cuja lista será oficial em 11 de fevereiro, e designar os vencedores de cada categoria. 

Entre eles, estão o iraniano Mohammad Rasoulof, premiado em 2020 por There Is No Evil; o israelense Nadav Lapid (Sinônimos, 2019); a romena Adina Pintilie (Não Me Toque, 2018); a húngara Ildikó Enyedi (Corpo e Alma, 2017); o italiano Gianfranco Rosi (Fogo ao Mar, 2016) e a bósnia Jasmila Žbanic (Em Segredo, 2006).

Esses seis diretores "não só expressam diferentes formas de fazer filmes intransigentes e de criar histórias corajosas, mas também representam uma parte da história do Festival de Berlim", afirmou em nota o diretor artístico do concurso, Carlo Chatrian.

A 71ª edição do Festival acontecerá em duas partes. De 1 a 5 de março, haverá uma competição online e a entrega dos prêmios, como o Urso de Ouro; e de 9 a 20 de junho haverá exibições abertas ao público, a princípio em salas e ao ar livre. Neste segundo período também serão entregues os prêmios fisicamente. 

 

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'Os Últimos Dias de Gilda' é selecionado para o Festival de Berlim

Em quatro episódios, a série criada e dirigida por Gustavo Pizzi será exibida na mostra Berlinale Series

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2021 | 10h38

A série Os Últimos Dias de Gilda será a única produção brasileira a ser exibida na edição do Festival de Berlim deste ano. Protagonizada por Karine TelesJulia Stockler, a série de ficção está entre as seis produções internacionais neste formato selecionadas para a mostra. 

Em quatro episódios, a série criada e dirigida por Gustavo Pizzi será exibida na mostra Berlinale Series. A produção é inspirada em um monólogo teatral homônimo de Rodrigo de Roure e narra a vida de uma mulher livre que incomoda muita gente ao redor.

Na série, a independência de Gilda vai despertar a atenção da vizinhança, principalmente de Cacilda (Julia Stockler), candidata a um cargo público por meio de um partido ligado a um grupo religioso. A série aborda temas como o crescimento das igrejas neopentecostais e as milícias em comunidades. 

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'Um Inverno em Nova York', uma fábula otimista com personagens feridos, chega ao País

Filme da cineasta dinamarquesa Lone Scherfig que abriu o Festival de Berlim pode ser comprado ou alugado em plataformas

Mariane Morisawa, Especia para O Estado de S. Paulo

21 de dezembro de 2020 | 05h00

Durante anos, a cineasta dinamarquesa Lone Scherfig coletou pensamentos, ideias, imagens. “São coisas que me preocupam, ou que eu quero celebrar, e talvez um tanto de sonho de como eu gostaria que o mundo fosse”, disse ela em entrevista ao Estadão. Assim nasceu Um Inverno em Nova York, disponível para aluguel e compra nas plataformas digitais Now, Vivo Play, iTunes/Apple TV, Sky Play, Google Play e YouTube.

É uma espécie de fábula sobre a sociedade moderna, baseada na cidade americana. Para lá escapa Clara (Zoe Kazan), a jovem mãe de duas crianças e dona de casa fugindo do marido abusivo, um policial (Esben Smed). É onde moram Alice (Andrea Riseborough), uma enfermeira que também é voluntária num abrigo para os sem-teto, Jeff (Caleb Landry Jones), um rapaz que não dá certo em nada, e Marc (Tahar Rahim), que acaba de sair da prisão, graças a seu advogado John Peter (Jay Baruchel), e que consegue um emprego no restaurante russo decadente de Timofey (Bill Nighy). 

À exceção do rebuscado restaurante, os outros cenários estão longe da Nova York de cartões-postais. São hospitais, abrigos para sem-teto, pequenas igrejas, becos. “Muitos americanos vivem mês a mês”, disse Scherfig. “A distância entre ter uma vida normal e simplesmente terminar na rua é muito pequena, especialmente para olhos europeus.” Para ela, é evidente que o sonho americano vendido em tantos filmes e séries de televisão é possível, mas não é uma regra. “Eu sempre acho perigoso quando celebridades dizem que, se você quiser algo de verdade, vai conseguir. É uma mentira.” Em outubro deste ano, mais de 57 mil homens, mulheres e crianças dormiram em abrigos na cidade de Nova York.

Ao mesmo tempo, Scherfig sempre ficou impressionada com a disposição dos americanos para a caridade. “Mesmo que você não tenha ninguém nesse mundo, estranhos vão ajudar”, disse a diretora de Italiano para Principiantes (2000) e Educação (2009). “Eu acho que tem a ver com ser uma nação de imigrantes, onde há uma certa hospitalidade e uma abertura para conversar com pessoas que você não conhece. Os americanos também consideram a caridade social como algo que devem fazer pessoalmente, enquanto, na minha parte do mundo, o pensamento é o de que o Estado é o responsável.” Então, apesar de todos os dramas desses personagens feridos, Um Inverno em Nova York é otimista.

Para contar essa história, a cineasta reuniu um elenco multinacional. Zoe Kazan, Caleb Landry Jones e Jay Baruchel são americanos, Andrea Riseborough e Bill Nighy, ingleses, e Tahar Rahim, francês. “Em parte eu quis que o cenário fosse Nova York para poder fazer um filme internacional”, disse ela. Originalmente, os personagens eram mais velhos do que os atores que acabaram sendo escolhidos. “E quando Bill Nighy entrou no projeto, eu alterei bastante o roteiro. Timofey teria 35 anos. Mas Nighy pode fazer qualquer papel”, disse ela sobre o ator, com quem já tinha trabalhado em Sua Melhor História (2016). Normalmente, Scherfig sente que gostaria de conhecer os personagens que estão no papel. Aqui, foi diferente. “Eu sinto falta dos atores. Gostaria de trabalhar com eles novamente.”

A chegada do filme, que abriu o Festival de Berlim no ano passado, em plena pandemia dá um sabor especial. “Estamos sentindo falta de pessoas, não só das que conhecemos, mas de pessoas em geral”, disse ela. “E temos um respeito extra pelos profissionais de saúde como a Alice do filme. Ele acabou sendo muito atual, apesar de sua criação datar do governo de Barack Obama.” 

E ela espera inclusive que ajude a aumentar a conscientização sobre os diferentes tipos de abuso doméstico, seja físico, mental ou financeiro, como acontece com Clara no filme. “Não foi à toa que a Camilla Parker Bowles, duquesa da Cornualha, falou que é preciso intervir quando há suspeita de violência doméstica. Especialmente agora durante as quarentenas, precisamos ajudar. As mulheres são muito boas de esconder esse tipo de coisa. Elas também são boas em esconder quando estão em situação de rua. Precisamos ficar alertas para detectar os sinais.”

 

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