Festival de Berlim começa com emocionante exibição

Após uma quarta-feira ensolarada e quase quente, Berlim vestiu-se nesta quinta-feira de branco. Tradicionalmente, a neve fornece o cenário para Berlinale e nevou a noite toda, apenas para que esta quinta amanhecesse tudo pronto. O 57.º Festival de Berlim começou emocionante com a exibição de La Môme - La Vie enRoseLa Môme merecem entrar para a história.Há uma armação de filme de guerra, a expectativa de um colapso iminente. Edith Piaf canta num teatro de Nova York. Nos bastidores, há nervosismo. Chega uma ambulância e o espectador recebe a informação de que ela teve um mal-estar, mas insistiu em continuar cantando. Ela canta - até cair desmaiada no palco. Por que determinadas vidas merecem ser contadas? Na verdade, todas as vidas poderiam ser contadas, mas a de Piaf supera a mais delirante ficção. Nascida nas ruas, uma ?môme?, como dizem os franceses, Piaf foi abandonada pela mãe e criada num prostíbulo, onde uma das garotas a tomou sob sua proteção, até que o pai retirasse dali a pequena Edith, para levá-la a se apresentar nas ruas. Descoberta por um empresário (Gérard Depardieu), Piaf teve o seu Pigmalião, o homem que esculpiu o mito, mostrando-lhe que não bastava ter voz, ou contar como um pintassilgo. Ela tinha de ser também uma atriz da canção.Tudo é difícil na história dessa vida, acima de tudo porque a garota das ruas teve de lutar sempre contra o fantasma da autodestruição. A mulher que cantava o amor como ninguém não sabia amar, ou suas escolhas iniciais é que eram equivocadas. Quando encontrou o amor no campeão mundial de boxe Marcel Cerdan, ele morre num acidente aéreo. É demais para Edith - e quase demais para o espectador, submetido a uma vertigem de emoções na estrutura narrativa em quebra-cabeça armada pelo diretor Dahan.BrasilEle não prometia muito, é verdade. Afinal, o currículo de Dahan tem filmes como Rios Vermelhos 2 - Anjos do Apocalipse, que não é exatamente uma maravilha. Mas aqui ele acerta em cheio. O roteiro é inteligentemente construído, não apenas na forma de embaralhar tempo e espaço para iluminar o enigma Piaf, mas integra muito bem as música, as canções que a celebrizaram. Milord, La Vie en Rose, Hino ao Amor, Non, Je ne Regrette Rien.E o filme tem Marion Cotillard, uma mulher bonita e talentosa que cativou a todos na coletiva. Como ela pôde se transformar na Môme Piaf? Encurvada, frágil, Marion mimetiza Edith da juventude à morte, aos 47 anos, quando ela parecia uma velha de 100. Como ela disse, agradecendo ao diretor Dahan: ?É um papel magnífico, mas o presente de Olivier é que ele não queria apenas que eu ficasse na exterioridade de Edith. Todo o nosso esforço foi para lhe dar um interior cheio de intensidade. La Môme era assim.?Foi um belo começo para o festival, sendo difícil imaginar que poderá surgir uma atriz melhor do que Marion. Aguardem - ela leva jeito de ganhar o César, o Oscar de melhor atriz da França e, no ano que vem, concorrer ao prêmio da academia. Não foi apenas o repórter que se emocionou - Leon Cakoff e Renata Almeida, da Mostra Internacional de São Paulo, admitiram que haviam chorado. A maratona está recém começando. Esta sexta-feira será um dia especial para o Brasil. Às 9 da manhã, ocorre a sessão de imprensa de O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, seguida de entrevista coletiva do diretor Cao Hamburger e a equipe do filme que veio à Berlinale. À tarde, mais emoção brasileira - no mesmo dia em que Antônia estréia no Brasil, o longa de Tata Amaral passa em Berlim. É o fecho da trilogia da diretora sobre as idades da mulher, que começou aqui mesmo, na Berlinale, com o ótimo Um Céu de Estrelas.

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