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Festival de Berlim 2015 já começa com polêmica

Críticos rejeitam 'Nobody Wants the Night', de Isabel Coixet

Luiz Carlos Merten - Enviado Especial a Berlim, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2015 | 19h38

BERLIM - Desde 1996, quando seu terceiro longa, Cosas Que Nunca Te Dije, passou no Panorama, a espanhola Isabel Coixet tem sido uma presença frequente na Berlinale. Nobody Wants the Night, que abriu ontem o Festival de Berlim, é seu sexto filme no evento alemão, e o primeiro na competição. Isabel não tem papas na língua. É o que se chama de mulher com faca na bota. 

Seu filme remete à conquista do Polo Norte. Em 1908, a mulher do explorador do Ártico, Robert Peary, resolveu se juntar ao marido que se preparava para plantar a bandeira dos EUA nas distantes geleiras do Norte. Josephine enfrentou tudo e todos, que a exortavam a desistir da empresa. Como uma mulher sobreviveria sozinha naquela imensidão gelada?

Na ficção de Isabel Coixet, Josephine é interpretada por Juliette Binoche. Nem a morte do guia, que ocorre logo - a mais ou menos um terço da duração do filme, como o assassinato de Marion Crane/Janet Leigh em Psicose -, a faz desistir. A grande surpresa é que Josephine encontra uma nativa, uma mulher esquimó muito jovem. A princípio, ela reage irritada ao que parece ser a invasão de Alaka (é o nome), em sua vida. Ela descobre que Alaka está grávida, e de Peary (Gabriel Byrne). Unem-se para sobreviver. No processo, a socialite de Nova York, que acredita no marido e o defende como ‘gênio’, descobre a diferença (de culturas, mais que de classes sociais). Humaniza-se.

Embora prestigiada, Isabel Coixet está longe de ser uma unanimidade. Boa parte da crítica saiu da sessão falando mal do filme dela. Patético foi uma palavra repetida para definir Nadie Quiere as las Noche, Ninguém Gosta da Noite. Mesmo contra o mundo, o repórter ousa dizer que é o filme mais interessante da diretora que ele viu. Um filme sobre cultura(s), gênero(s). As mulheres vivem à sombra do homem. São resistentes. Josephine descobre uma força que não sabia possuir. No debate, mais de um crítico tentou direcionar o debate para a questão de gênero, homem x mulher.

A diretora diz que ninguém tem muita paciência com o assunto. “Somos diferentes fisicamente, mas o que me interessa é a igualdade. Luto para que as mulheres tenham os mesmos direitos, e isso significa ganhar tanto quanto os homens.” As mulheres na sala aplaudiram loucamente - talvez a declaração, não tanto o filme, por bom que seja. A pergunta que não quer calar. Como foi filmar em condições tão extremas, naquele frio horrível? Juliette Binoche retrucou - querem a verdade? “Passamos três dias de muito frio na Noruega, mas na maior parte do tempo filmamos em estúdio, e fazia muito calor lá dentro. Acreditem - não é fácil simular que se está tremendo de frio quando, na verdade, estamos derretendo sob aqueles refletores. É preciso representar, e bem” (risos).

Antes do filme, houve a coletiva do júri. Darren Aronofsky já presidiu o Festival de Veneza. Em Berlim, tem o voto de Minerva num júri constituído por três homens e três mulheres. Atores como Daniel Bruhl e Audrey Tautou, realizadores como Claudia Llosa e Bong Joon-ho, produtores como Martha De Laurentiis e Matthew Weiner, que, a propósito, atua mais na TV (a série Mad Men). Ele prometeu que seu júri será o mais democrático possível e que não vai tentar impor suas vontade a ninguém. “Vamos ver alguns filmes na sessão de gala, outros com a imprensa e também em sessões privadas só para nós. Na quarta (4), já vimos o primeiro. Nós nos reunimos depois e foi uma primeira discussão para reconhecimento, muito boa.” Mas ele não quis revelar qual foi esse primeiro filme.

Indagado de suas afinidades com Berlim, respondeu com outra pergunta - “Wim Wenders já foi premiado aqui, não? É um autor importante, com uma obra consolidada.” Wenders, para ser exato, nunca venceu em Berlim e vai ganhar este ano um Urso de Ouro de carreira. “Não estamos aqui para julgar, mas para celebrar”, disse Audrey Tautou. Ela disse que o fato de haver interpretado personagens doces talvez leve as pessoas a esperar dela um tipo de comportamento. “Não se iludam, consigo ser mais louca que Darren e Bong”, comentou. Ambos, o norte-americano e o coreano, haviam sido assim definidos - por seus filmes - por um jornalista. Premiar nunca é fácil, disse o presidente.”É como escolher entre laranjas e maçãs. É muito subjetivo, uma questão de gosto.” Mas ele antecipou que, o que mais espera, é ser surpreendido.

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