Daniela Nader | DIV
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Festival Cine PE exibe o choque entre o cinema tradicional e o moderno

Seleção do festival, que termina neste domingo, 8, reflete bem esse antagonismo; neste sábado, 7, a atriz e diretora Carla Camurati será homenageada

Luiz Carlos Merten / RECIFE, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2016 | 05h00

Como nem só de filmes vivem os grandes festivais de cinema, o Cine PE está abrigando uma série de seminários e workshops. Sexta-feira, dia 6, comandado pela jornalista Maria do Rosário Caetano, houve um seminário para discutir a representação do nordestino na tela. Participaram dois atores, Maeve Jinkins, de Boi Neon, de Gabriel Mascaro (e novelas da Globo), e Renato Góes, que fez o personagem de Santo na primeira fase da novela Velho Chico. Góes também está no elenco de Por Trás do Céu, de Caio Sóh, que participa da competição do Cine PE. A discussão foi bem interessante. Maeve é fundamental no belo filme manifesto de Mascaro. Em vez da tradicional nordestina sofredora, devastada pela seca, faz uma caminhoneira que briga pelo controle da sua vida. O macho do filme, Juliano Cazarré, está integrado na indústria do espetáculo dos rodeios. Cria figurinos, seu sonho é ser estilista.

Esse choque entre o tradicional e o moderno tem estado presente na história do festival, que completa 20 anos, e, logicamente, na seleção deste ano. O Cine PE termina no fim de semana, no domingo, dia 8. Hoje, sábado, 7, será exibido o último longa concorrente, Leste/Oeste, de Rodrigo Grota. Considerando-se a repercussão que o diretor obteve com seus curtas sobre a imigração japonesa no Paraná, a expectativa é grande, mas dessa vez Rodrigo conta a história de um ex-piloto que volta à cidade em que nasceu para um acerto de contas com o passado.

Também hoje, dia 7, o festival presta homenagem à atriz e diretora Carla Camurati, que vai receber uma Calunga especial por sua carreira. Carla chegou ontem gripada, sem condições de dar entrevistas. Espera-se que possa hoje conversar com a imprensa, rememorando seus êxitos como atriz e a épica jornada que empreendeu pelo Brasil, carregando seu filme Carlota Joaquina debaixo do braço e convencendo donos de salas de todo o País a exibi-lo. Foi dessa forma que ela recolocou o cinema brasileiro no mapa, resgatando-o do marasmo da era Collor e deflagrando o processo chamado de Retomada.

A noite de quinta, 5, foi a da animação. Foram programados um curta e um longa. O curta Engolervilha é resultado de um projeto coletivo comandado por Marão. Os animadores têm liberdade total para fazer o que querem e ele se encarrega de juntar as partes. Quanto mais bizarro, melhor. O problema é que a realidade tem superado os limites do surreal e o cinema, por mais fantástico e escatológico que seja, não dá conta do que anda ocorrendo. Quase na contracorrente, o longa As Aventuras do Pequeno Colombo, de Rodrigo Gava, é uma dupla raridade em festivais brasileiros. Um filme longo de animação, e ainda por cima voltado ao público infantojuvenil. Contra a escatologia, o bom-mocismo.

O pequeno Colombo é aquele que você está pensando – Cristóvão, que resolve ajudar o pai em apuros financeiros e se lança numa aventura nos mares em busca de Hi Brasil. O nome vem do Monty Python e a mistura de história e fantasia, compondo uma espécie de samba do crioulo doido (à Stanislaw Ponte Preta), até poderia ser digna de Terry Gilliam, se o espírito de José Wilker, dois anos após sua morte, não se fizesse presente, criando, com sua voz, um personagem que passa pelo filme distribuindo bons conselhos. O melhor momento da noite terminou sendo o curta da Mostra Pernambuco – A Vida em Uma Viagem, de Tauana Uchôa. Foi o segundo curta da diretora nessa seção do festival, após Não Tem Só Mandacaru, exibido na noite de abertura. Tauana conta a vida de Ana da infância à velhice. As diferentes etapas são estações nessa viagem que é o trem da vida, e a dilatação do tempo na concentração do espaço lembra O Baile, de Ettore Scola. A história de Ana é, um pouco, a do Brasil. Questionada sobre a influência de Scola, que morreu este ano, a diretora desconversou. Está no olhar de quem vê.

Nascido para ser um festival popular, de grande público, o Cine PE – Festival do Audiovisual, que já foi Festival do Recife, foi mudando o formato e hoje as sessões se realizam num cinema de rua no centro do Recife, o São Luiz, mas os convidados e as demais atividades (debates, entrevistas, seminários) se abrigam num hotel de Olinda. O conceito é fazer com que os participantes vivam intensamente o cinema durante uma semana. Nenhum festival consegue apresentar uma programação regular – no sentido de regularmente boa. Existem coisas ótimas, outras boas, outras nem tanto. Este ano, à espera de Leste/Oeste, o poderoso Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho, já justificou a existência do festival. Entre os curtas, destacaram-se os capixabas – Das Águas Que Passam, de Diego Zon, e o (en)cantado +1 Brasileiro, de Gustavo Moraes.

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