Festival capixaba premia olhar feminino

Um festival organizado por mulheres e com júri majoritariamente feminino (na proporção de quatro a um) só poderia dar atenção especial à força feminina, cada vez mais expressiva no cinema brasileiro. O 9.º Festival de Cinema e Vídeo de Vitória, encerrado na madrugada de ontem, na capital capixaba, laureou com o Troféu Marlin Azul as realizadoras Luelane Corrêa e Jane Malaquias. A carioca Luelane é autora de Como Se Morre no Cinema, premiado como melhor documentário. A cearense Jane Malaquias dirigiu No Passo da Véia, a melhor ficção. As mulheres só não venceram a categoria melhor animação, já que os premiados foram os brasilienses Ítalo Cajueiro & Elvis Kléber, autores de O Lobisomem e o Coronel.Como Se Morre no Cinema, documentário com inserções ficcionais, narra as memórias do papagaio que atuou, em 1962, no filme Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, ao lado da cachorra Baleia. Luelane, montadora e integrante de equipes de filmagem de Nelson, constrói narrativa muito bem humorada. O papagaio, que fala pela voz do ator Luiz Carlos Vasconcelos (o Lampião, de Baile Perfumado), jura que escapou ileso da degola promovida por Sinhá Vitória (Maria Ribeiro) e que, invejoso, foi a Cannes, tirar casquinha no sucesso da cachorra Baleia.A "atriz" canina acabou no centro de polêmica que a imprensa brasileira cobriu com muito bom humor. A Condessa Mia Acquarone indignou-se com a cena da morte de Baleia (fulminada por tiro da espingarda de Fabiano/Átila Iório). Para provar que o animal estava vivo, Luiz Carlos & Lucy Barreto, co-produtores de Vidas Secas, contaram com apoio da Air France e levaram Baleia a Cannes. A história está contada no filme com ótimos depoimentos, raro senso de humor e reprodução de material jornalístico que narrou o episódio.No Passo da Véia fascina por sua protagonista, a "véia" Dona Nenê (Francisca Ribeiro da Silva). Com a pele curtida de sol e seus cabelos brancos, a septuagenária senhora caminha da ilha de pescadores onde mora até a cidade para vender uma galinha. O dinheiro auferido será gasto na compra de desodorante, presente que ela pretende dar ao neto, o pescador Luciano Araújo. No final, quando a voz de Lia de Itamaracá (cantando uma ciranda) toma conta do ambiente, a platéia está perplexa. Não sabe se o filme é bom ou se é ingênuo. Só sabe que acabou de presenciar um curta original e que é impossível resistir aos encantos da carismática Dona Nenê.O juri, presidido pela atriz Ada Chaseliov (a Olga Benário de Memórias do Cárcere), e integrado pelas cineastas Eunice Gutman e Glecir Coutinho; pela diretora adjunta do Festival de Curtas de SP, Beth Sá Freire, e pelo crítico Luiz Zanin Oricchio, do Estado, não resistiu aos encantos de Dona Nenê.O Lobisomem e o Coronel, premiado pelo júri popular no Anima Mundi em SP e Rio, ganhou o prêmio do juri oficial capixaba (melhor curta de animação). E merecidamente, pois sua história (narrativa popular da literatura de cordel), seus desenhos e trilha sonora são de primeira.Dois atores de grande prestígio e reconhecimento foram agraciados com o Troféu Marlin Azul: Denise Weinberg, do grupo Tapa, ganhou o prêmio de melhor atriz (pelo curta Em Nome do Pai, de Júlio Maria Pessoa), e Paulo José foi laureado por Morte, de José Roberto Torero.Os outros vencedores na categoria cinema foram: Joe Pimentel (melhor diretor, por Retrato Pintado); Antônio Luiz Mendes (melhor fotografia, por O Céu de Iracema); Leandro Adriano (melhor roteiro, por Domingo); Marcelo Moraes (melhor montagem, por À Margem da Imagem); Orquestra Popular de Câmara (melhor trilha sonora, por Em Busca da Cor), e Zilda Moschkovich (direção de arte, por Ismael & Adalgisa). Glauces, Estudo de Um Rosto, média-metragem de Joel Pizzini, ganhou o Marlin Azul na categoria pesquisa de linguagem.Júri popular - O filme capixaba Baseado em Histórias Reais, de Gustavo Moraes, venceu o júri popular, e seu protagonista, o ator José Augusto Loureiro, ganhou menção honrosa. Os curtas Rosas, do Maranhão, e o carioca Tudo Que Você Quer Ser, animação estrelada pela boneca Barbie, também receberam menções honrosas. O melhor roteiro capixaba inédito foi A Passageira, de Glecir Coutinho e Margareth Taquete.A ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), que está comemorando 30 anos, premiou - através de sua representação capixaba - o documentário À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel, como o melhor filme do Festival. Na justificativa, o júri composto de cineastas-associados registrou: "neste momento em que o Brasil encontra-se em nova etapa de reconstrução, sentimos que é hora de valorizar o cinema verdade, capaz de mostrar sem retoques ou retakes, a cara do povo brasileiro. Por sua coragem em se tornar porta-voz dos excluídos, pela força de seu discurso, capaz de nos atingir - e a si próprio - com um soco no estômago e, ainda, por sua honestidade de desnudar-se diante de todos os olhares, o Troféu ABD vai para À Margem da Imagem".Na categoria vídeo, os vencedores foram O Padre e o Moribundo, do mineiro Thiago Arruda (melhor ficção), O Ciclone Lento e Sutil, direção coletiva de alunos da Oficina de Vídeo do Festival de Inverno de Ouro Preto (melhor documentário); Tá tudo Esquematizado, dos mineiros Conrado Almada e Leandro HBL (melhor videoclip); A Casa, também de Almada & HBL (melhor vídeo arte); XX, de Bárbara Soalheiro, Helena Campos, Juliana Ribeiro, Marina Rezende, Milena Almeida e Roberta Maia (Prêmio Especial do Juri), e A Vingança de Kaili Gara, do gaúcho Jerri Dias (Prêmio On Line, atribuído pelos internautas).Na festa de encerramento, dois filmes realizados em oficinas cinematográficas do Festival foram apresentados: Mangue & Tal, animação realizada por 150 alunos da rede pública, e com trilha sonora ao vivo (a cargo do grupo Congo Mirim da Ilha), e Ângela, de Vanessa Frisso, supervisionado por Luiz Carlos Lacerda.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.