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Fest-Aruanda aposta em bons filmes e polêmica em sua 10ª edição

Mostra paraibana faz grande evento mesmo no ano da crise

Luiz Zanin Orrichio, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2015 | 03h00

O Fest-Aruanda chega à 10.ª edição e promete fazer bonito. A mostra de 2015 começa amanhã em João Pessoa, na Paraíba, com a exibição, fora de concurso, de Chatô, de Guilherme Fontes. Na sexta, será realizado um esperado debate sobre o filme, reunindo o diretor, o escritor Fernando Morais e o ator Lima Duarte, além de estudiosos e cineastas, como o documentarista Vladimir Carvalho. Fontes é o diretor do filme, que levou quase 20 anos para ficar pronto. Morais, o autor do livro Chatô – o Rei do Brasil, biografia em que o longa foi baseado. Marco Ricca, que também lá estará, interpreta o personagem. E Lima? Bom, o ator conheceu muito bem o personagem, o jornalista Assis Chateaubriand, e com ele conviveu. Trabalharam juntos na TV Tupi, e, embora não esteja nem na biografia nem no filme, terá histórias saborosas para contar sobre o magnata da imprensa brasileira, o William Randolph Hearst tupiniquim. O debate será, sem dúvida, antológico.

Também na sexta começa a mostra competitiva, composta por sete longas. Invólucro, de Caroline Oliveira (PE), Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba (PR) e Travessia, de João Gabriel (BA) são os novatos que concorrem aos troféus Aruanda. O experimentado Roberto Berliner (RJ) traz Nise, o Coração da Loucura (RJ). E cineastas de longo curso do cinema brasileiro entram no páreo: Walter Lima Jr. com Através da Sombra, (RJ), Júlio Bressane com Garoto (RJ) e Walter Carvalho com Um Filme de Cinema (RJ).

O festival fecha dia 16 com a exibição de Chico, Um Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr., terno e estupendo documentário sobre Chico Buarque, que tem encantado as plateias de cinema nas cidades onde já estreou. Inédito em João Pessoa, dará fecho emotivo e em alto-astral para a mostra. Um tipo de clima de que, convenhamos, o País anda bem necessitado.

O foco desta 10.ª edição do Aruanda é a Paraíba. A exibição de Chatô tem tudo a ver com isso. Afinal, o personagem polêmico, o jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968), é paraibano de Umbuzeiro. De lá saiu para se tornar um dos brasileiros mais influentes de sua época, fundando jornais, rádios e emissoras de TV, intervindo na política, no mundo empresarial e nas artes, através de meios nem sempre ortodoxos. Seja qual for a ideia que dele se tenha, foi um personagem e tanto. Dessa forma, cheia de paradoxos, é retratado na fascinante biografia escrita por Fernando Morais. Volta, agora, na pele de Marco Ricca, no não menos polêmico longa de Fontes. A produção respondeu a processos por prestações de contas e mau uso de dinheiro público. Dizia-se que o filme nem mesmo existia. Existe e está aí, para ser comentado, amado ou odiado.

Outra figura não menos polêmica que promete dar as caras em João Pessoa é o cantor e compositor Geraldo Vandré. Esse, todos conhecem: o Vandré que empolgou o Maracanãzinho com Pra não Dizer que Não Falei das Flores, em 1968, canção transformada em hino da resistência durante a ditadura, e que teve de se exilar para escapar à ira dos militares. Vandré que, de volta anos depois, surpreendeu a todo mundo, em especial à esquerda, com sua inesperada intimidade com a Força Aérea Brasileira. Ele, um perseguido político, voltava agora nas asas da Aeronáutica, para a qual, inclusive, compôs uma peça musical, Fabiana (em alusão à FAB). Vandré, vale dizer, é personalidade a ser resgatada (talvez até de si mesmo). Não foi apenas cantor e compositor engajado. Foi artista de grande recurso em sua veia lírica e o próprio cinema muito deve a ele. Em especial pela inspirada trilha composta para A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos. Esse, que é um dos maiores filmes do cinema nacional, não seria a mesma coisa sem a magnífica música de Vandré.

Enfim, não apenas pela qualidade da programação, mas pela dos seus convidados, o Aruanda consegue driblar as dificuldades econômicas que atingem todos os eventos culturais do País, e promete sua edição mais completa e brilhante já no crepúsculo do triste ano de 2015.

O festival, afinal de contas, tem nome a zelar. É o único em seu gênero que adota o título de um filme. Aruanda (1959-60), de Linduarte Noronha (1930-2012), é tido como precursor do Cinema Novo. Em forma de documentário ficcional, investiga a história e o cotidiano dos moradores de um quilombo na Serra do Talhado, que viviam isolados do País. Um clássico.

Os longas em competição

'Invólucro', de Caroline Oliveira (PE)

'Para Minha Amada Morta', de Aly Muritiba (PR)

'Travessia', de João Gabriel (BA)

'Nise, o Coração da Loucura', de Roberto Berliner (RJ)

'Através da Sombra', de Walter Lima Jr. (RJ)

'Garoto', de Julio Bressane (RJ)

'Um Filme de Cinema', de Walter Carvalho (RJ)

Veja o trailer de Travessia, de João Gabriel 

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