Fernando Solanas apresenta novo filme em Veneza

Depois de ter narrado a raiva e o desespero dos argentinos após a trágica crise econômica que atingiu o país no início de 2001 em A Memória do Saqueio, agora Fernando Solanas apresenta A Dignidade dos Ninguéns, uma viagem à descoberta de muitos homens e mulheres argentinos que lutam por comida, trabalho, remédios e educação para os filhos. "O outro filme terminava no momento em que os argentinos disseram basta, e este procura contar o que aconteceu depois. No final de 2001 a população foi às ruas contra a globalização, mas nos primeiros meses de 2002 assistimos a um extraordinário processo de democratização do país, mas sem que se chegasse à constituição de uma assembléia. As pessoas estão desconfiadas a tal ponto da política que não vão votar, já que têm medo de se posicionar politicamente". O filme, rodado em 40 dias com tecnologia digital "mais ágil e menos invasiva", narra algumas das sessenta histórias que Solanas conheceu. Há o escritor motociclista Martín, atingido na cabeça por um disparo da polícia; o professor Toba, um homem que em sua mesa comunitária mata a fome de muitas crianças todos os dias; Margarita e Colinche que depois de ocuparem uma casa, vivem de trabalhos temporários e sofrem por não poder mandar seus nove filhos à escola. Há a experiência de Lucy, uma pequena proprietária que consegue se juntar a outras mulheres contra os leilões judiciários de terrenos com dívidas, usando como armas o hino nacional e orações. Há Darío, jovem militante social de um bairro pobre assassinado pela polícia; Gustavo, um sacerdote da periferia que denuncia a máfia e também a história da Zanon, umas das 200 fábricas geridas pelos próprios operários. "Vivemos numa sociedade midiática, aquilo que não aparece na mídia não existe. Eu narro coisas reais mas que não são conhecidas. Mesmo aqui na Itália assistimos à idiotização dos meios de comunicação, e Berlusconi compreendeu o poder deles sobre a população e os utiliza para impor seu modelo neoliberal. A maior derrota da pensamento progressista é a resignação, a idéia de que o mundo não pode ser mudado mas deve ser atualizado". O filme é dedicado aos dois documentaristas italianos Fernando Birri e Valentino Orsini.

Agencia Estado,

06 de setembro de 2005 | 18h48

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