JOÃO FERNANDO|ESTADÃO
JOÃO FERNANDO|ESTADÃO

Fernando Meirelles: ‘Cuidar do planeta é urgente’

Em alta, cineasta vai dirigir série ambiental para a BBC de Londres

Entrevista com

Fernando Meirelles

Amilton Pinheiro / ESPECIAL PARA O ESTADO / GOIÁS, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2016 | 03h00

Nos últimos meses, Fernando Meirelles esteve totalmente envolvido com Daniela Thomas e Andrucha Waddington na direção da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Depois da enorme repercussão positiva da cerimônia, ele voltou a se dedicar às duas coisas de que mais gosta: dirigir e continuar com seu ativismo ambiental.

Nesta entrevista exclusiva ao Estado, ele fala sobre a série que está fazendo para a BBC de Londres, que vai abordar o problema do aquecimento global, e avisa que não será ‘ecochata’. Reflete sobre a concepção da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos e sobre a importância de festivais ambientais, como o Fica, que começou na terça (16), na cidade de Goiás.

Questionado se é a favor da continuidade do governo de Michel Temer, ironiza: “Sendo pragmático como um petista, melhor deixar como está do que irmos para mais uma reviravolta que nos custaria tanto”.

Você foi um dos diretores criativos da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio. Como nasceu a ideia de falar da preservação do planeta e da consciência ambiental?

A cerimônia foi criada e dirigida pela Daniela Thomas, pelo Andrucha Waddington e por mim. De saída, queríamos usar essa plataforma para falar sobre o mundo em vez de fazer uma espécie de propaganda do País, como acontece em geral nessas cerimônias. Os dois temas que nos pareceram mais relevantes para o mundo hoje é o da tolerância com os diferentes e a urgente necessidade de cuidarmos do nosso planeta.

Quando vocês decidiram homenagear a Bossa Nova com a música Garota de Ipanema, letra de Vinicius de Moraes e melodia de Tom Jobim, por que não colocaram uma imagem de Vinicius junto com a de Tom?

O segmento era sobre os anos 1960, o período em que o Rio se internacionalizou. E usamos Tom e Niemeyer para falar sobre isso. Não havia a foto de João Gilberto, Nara Leão, Burle Marx ou Lúcio Costa, mas estavam todos ali representados. A música de Vinicius já o inclui.

A família do poeta, segundo noticiou a imprensa, vai processar a organização dos jogos. O que acha da atitude da família?

Acho que isso é bobagem inventada pela imprensa. Imagina se fariam um troço destes.

Fale um pouco do projeto que você foi convidado para dirigir para a BBC de Londres?

Na verdade eles me pediram para apresentar um projeto e desenvolvi a ideia desta série sobre clima. Não será uma série “ecochata” que fica enumerando catástrofes, é um thriller político, tem história. A mudança do clima é o pano de fundo.

Como melhorar a comunicação sobre as questões ambientais e sensibilizar as pessoas sem ser “ecochato” e “biodesagradável”, como você já foi tachado?

Eu mesmo me tachei de “ecochato” e “biodesagradável”. A questão é complicada, acho que contar histórias em vez de enumerar desastres pode ser um caminho para abordar o tema. Nosso cérebro funciona e compreende o mundo através de histórias. As crianças aprendem conceitos como bem e mal, respeito e inveja por meio de histórias. As religiões, no fundo, contam histórias.

O cinema nacional vem perdendo público a cada ano. Duas grandes apostas de bilheteria deste ano, Contrato Vitalício, do Porta dos Fundos, e Mais Forte que o Mundo – A História de José Aldo, ficaram bem aquém do que se esperava. Como avalia isso?

Este é um fato em todo mundo. Cada vez mais os filmes eventos vão ocupando todos os espaços nas salas. Filmes menores precisam se viabilizar com VOD e na TV, a sala de cinema está praticamente sumindo para a maioria dos lançamentos. É uma mudança de hábito. Acho que não tem jeito.

Os seus filmes mais importantes foram adaptados de livros: Cidade de Deus, de Paulo Lins; O Jardineiro Fiel, de John Le Carré; e Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Quais as dificuldades de adaptar um livro? O que mais você gosta de fazer, assistir a um filme ou ler um livro?

Adaptar um bom livro acho que é mais fácil do que criar uma boa história original. Um filme e um livro são experiências diferentes, atualmente livros me prendem e me envolvem mais.

Que diretores da nova geração têm chamado a sua atenção?

Afonso Poyart, diretor da biografia do Zé Aldo, Mais Forte que o Mundo, me impressiona pelo seu domínio da linguagem. Gabriel Mascaro, de Boi Neon; Aly Muritiba, de Para a Minha Amada Morta; Pedro Morelli, de ZOOM e Entre Nós. Há muita gente boa chegando.

É a favor do impeachment de Dilma Rousseff?

Sou a favor de que o Brasil tenha alguma tranquilidade para lidar com o monte de problemas que foram criados. Às vezes ouço a Dilma falando e parece ser uma voz vinda de um passado remoto, sem absolutamente nenhum eco. Sendo pragmático como um petista, melhor deixar como está do que irmos para mais uma reviravolta, que nos custaria tanto.

E o que acha do presidente em exercício Michel Temer?

Ele tem a seu favor o fato de saber que ninguém votaria nele, então pode governar pensando no País e não em criar fatos para uma possível candidatura. Ele está um pouco na situação do Itamar, que não se importava em ser impopular e acabou fazendo em seu governo mudanças que foram fundamentais. Quem sabe? Vivo na esperança.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.