Fernando Castets e Guillermo Arriaga falam da importância do roteiro

Diretores estão no País para divulgar novos trabalhos

O Estado de S. Paulo

24 de outubro de 2014 | 03h00

Dois importantes roteiristas do cinema de língua espanhola participaram de um debate com o público da Mostra na quarta-feira. E, na última quinta-feira, o argentino Fernando Castets, de O Filho da Noiva, ministrou uma oficina na Faap. O outro, o mexicano Guillermo Arriaga, está na cidade também como produtor de Falando com Deuses, que conta histórias sobre a fé no mundo contemporâneo. É um tema que extrapola a religiosidade e virou questão geopolítica. Em nome de Deus, agentes de diferentes religiões chegam a matar. O encontro com Arriaga e Castets ocorreu no café do Itaú Cultural. E volta e meia foi interrompido por jovens que queriam entregar seus roteiros aos dois, para ‘consultas’ .

No último mês, você veio ao Brasil para o lançamento de Rio Eu Te Amo, no qual assina um dos episódios. De onde está vindo agora? Do México?

Guillermo Arriaga - Minha vida anda agitada. Depois do Rio, fui à Romênia, para participar de um evento literário, e a Chicago, nos EUA, para outro de cinema. É interessante como o perfil desses eventos pode ser diferente. Trabalho com a escrita, mas na literatura e no cinema o papel do escritor é diferente. O importante é que vivo de escrever, e é uma coisa que me agrada.

Qual é a grande curiosidade do público nesses encontros?

Fernando Castets - As pessoas têm muita curiosidade pelos processos. Tem gente que espera o mapa da mina, que se diga como é possível se profissionalizar, escrevendo para cinema. Lembro-me que uma vez alguém disse que existem cinco regras para se escrever bem para cinema, mas, até onde me lembro, quem disse isso saltou duas ou três das próprias regras. Não creio que existam ‘regras’. Depende do filme, das particularidades da produção. Uma coisa que as pessoas sempre querem saber é se a gente põe um ponto final no roteiro, como põe num romance. Se o trabalho do roteirista continua durante a filmagem. Em geral, não. Roteiro entregue é roteiro concluído.

Arriaga - É raro, mas já me ocorreu de ser chamado para reescrever um roteiro porque o ator era muito ruim e não conseguia dizer as falas. Fui chamado para eliminar diálogos e manter a história funcionando.

Vocês escrevem pensando nos atores?

Castets - Não escrevo para atores e, na maioria das vezes, nem sei quem vai atuar. Mas gosto de dar um rosto a meus personagens, e nesse caso penso em atores, sim. Só que, como se trata de uma escolha idealizada, tem casos em que o astro já está morto,

Arriaga - A gente ouve muito que um filme se faz três vezes. A escrita do roteiro, na rodagem e na montagem. Já me ocorreu de brigar com atores que são ‘cabrones, hijos de una chingada’. Eu também lhes digo que o trabalho deles se faz erm três momentos - no ensaio, no set e na ilha de edição, tentando salvar a m... de interpretação que fizeram.

E os diretores? A convivência é tranquila?

Arriaga - Tenho a sorte de ter muitas vezes como diretor o melhor colaborador do mundo. Eu! (Risos) Mas existe tensão, sim. Como roteirista, produtor e até diretor posso considerar o roteiro fundamental, mas um diretor, qualquer que seja, var querer imprimir sua marca no material, e isso pode criar atritos.

Castets - Acho que o atrito, quando existe, liga-se à questão da autoria. Para mim, o importante é sempre a história. Tento servir à história, mais que ao diretor, ou à sua visão dela.

Você pode servir à história sem gostar dos personagens?

Arriaga - Detestava o personagem do meu primeiro romance, mas achava que não tinha direito de formular juízos morais sobre ele. Como escritor, tento entender e defender todos os personagens. E com certeza não consigo começar um livro nem um roteiro sabendo o final. Gosto que a própria escrita me aponte o caminho.

O cinema argentino tem a fama de ser um cinema de roteiro. Concorda?

Castets - Temos grandes diretores, mas, sim, nossas histórias de classe média têm um público muito vasto que exige situações bem escritas e verdadeiras.

Existe o roteiro perfeito?

Arriaga - Mais que o roteiro, existe o filme perfeito. O Poderoso Chefão 2 é melhor que o 1. Me encanta a forma como (Francis Ford) Coppola trabalha o tempo.

APOSTAS DO DIA

História da Eternidade

O longa de Camilo Cavalcanti, que venceu o Festival de Paulínia, tem sido uma unanimidade entre críticos. Alfonsina e o mar - garota que vive no sertão sonha em conhecer o mar. Ao redor dela, as vidas e os sentimentos de todos serão afetados.

Deserto Azul

A ficção científica do mineiro Éder Santos vale-se de videoinstalações de grandes artistas para antecipar no futuro. E o diretor inova, fazendo do celular ferramenta que participa da projeção.

Trinta

Paulo Machline recria a trajetória do carnavalesco Joãosinho Trinta e reconstitui seu primeiro desfile na Beija-Flor. Matheus Nachtergaele é quem faz o papel.

Corpo Estranho

Para matar a saudade de Krzystof Zanussi, autor de alguns dos maiores filmes de toda a história do cinema polonês - Estrutura de Cristal, Iluminata. Se tiver 10% da qualidade daqueles filmes, já valerá a pena. 

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