Fernanda Montenegro, na platéia da Berlinale

Marcos Bernstein, como num sonho, está em Berlim para representar o Brasil sem o estresse da participar da competição e com a certeza de participar da mostra, no fundo, mais prestigiada pela crítica - a seção paralela Panorama, onde estarão o filme de estréia de Bernstein, O Outro Lado da Rua, e também os outros dois longas brasileiros da Berlinale. São obras de estreantes ? o documentário Fala Tu, de Guilherme Coelho e Natanael Lécléry, sobre rappers da periferia do Rio; e a ficção Contra Todos, de Roberto Moreira. Um quarto filme brasileiro na Berlinale, também no Panorama, será o curta Truques, Xaropes e Outros Artigos de Confiança, de Eduardo Goldstein. E haverá até um quinto programa, indiretamente brasileiro ? o making of de Diários de Motocicleta, enfocando os bastidores do filme famoso de Walter Salles.Fernanda está achando ótimo voltar a Berlim, cidade que lhe deu o Urso de Prata de melhor atriz por Central do Brasil, há seis anos. Depois que o filme de Walter Salles ganhou o prêmio principal do evento, o Urso de Ouro, sua vida mudou. ?Fomos parar no Oscar e, apesar de toda a minha atividade no cinema, teatro e televisão, confesso que nunca participei de uma roda-viva tão intensa. A exposição internacional que o Oscar te dá é algo fora de série.? O curioso é que o diretor estreante de O Outro Lado da Rua, Marcos Bernstein, foi co-roteirista (com João Emanuel Carneiro, co-autor da atual novela das 7 na Globo) de Central do Brasil.Trata-se de uma produção de R$ 3 milhões e pouco. Recebeu dinheiro da major americana Columbia e da rede francesa Arte. Apesar do orçamento que não é barato pelos padrões brasileiros. Bernstein co-escreveu o roteiro com Melanie Dimantas, colaboradora de Carla Camurati em Copacabana. O Outro Lado da Rua também trata do universo de aposentados de Copacabana. Fernanda faz Regina, uma aposentada que se sente meio fiscal do bairro, que vive bisbilhotando tudo e todos, na certeza de contribuir para a melhoria das condições gerais de vida. Por conta disso, vira informante da polícia, suspeitando que Camargo (Raul Cortez) matou a mulher.Bernstein ficou tão marcado pela Dora que Fernanda interpretou em Central do Brasil que, ao ser possuído por Regina, nunca pensou em outra atriz para o papel. Quando enviou o roteiro para Fernanda, ainda com o primeiro tratamento, ela adorou. Passaram a trabalhar juntos. Nunca foi um impedimento ele ser um estreante. ?Gosto de trabalhar com gente que está começando porque esses jovens diretores têm garra e entusiasmo. Eles querem que seus filmes aconteçam. É bom trabalhar num clima de paixão?, explica a atriz. Sempre trabalhou com novos diretores. Leon Hirszman, por exemplo, fez o primeiro filme com ela (A Falecida) e, atualmente, Fernanda também está nos filmes dos estreantes Cláudio Torres, seu filho, (O Redentor) e Jayme Monjardim (Olga). Fernanda está entusiasmada com Regina. ?O filme subverte os clichês dos velhinhos dóceis. Sua relação com Camargo possui aspectos misteriosos e até perigosos. Regina é muito rica e tem uma coisa que aprecio muito, o humor. O carioca tira sarro de tudo, até da própria desgraça. Sei disso porque nasci, me criei e vivo aqui nesta cidade. A Regina tem a cara do Rio?, define. A volta a Berlim tem, para ela, o sentido de um agradecimento à organização do festival. ?Já me convidaram para ser jurada, mas não pude aceitar, por causa de compromissos profissionais. Volto agora a Berlim sem a pressão de estar competindo. Tenho certeza de que vai ser maravilhoso.?

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