FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Fernanda Montenegro fala de arte e das incapacidades do País

Atriz fala do filme 'Infância' que estreia na próxima semana no Rio, São Paulo e Salvador

Entrevista com

Fernanda Montenegro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

06 de setembro de 2015 | 03h00

Correios, Banco do Brasil? Não. Petrobrás? Nem sonhar. A instituição mais sólida da República no Brasil, atualmente, é uma mulher, uma atriz. Fernanda Montenegro anda liderando todas as pesquisas. É a melhor atriz, a mais confiável, a que está envelhecendo melhor. Aos 85 anos, ela acaba de encerrar uma novela – polêmica –, tendo protagonizado um beijo gay com outra colega veterana, Natália Timberg. Ela só lamenta que o tal beijo tenha sido usado como manta protetora para ocultar os motivos que, segundo ela, fazem de Babilônia, de Gilberto Braga, uma novela de importância histórica. Na quinta-feira, 10, Fernanda estreia novo filme – Infância, de Domingos Oliveira, em que interpreta Dona Mocinha, matriarca de uma família tradicional e outra instituição do republicanismo – conservador. Fernanda solta o verbo. Fala de TV, cinema e não foge da raia se o assunto é política, o governo da presidente Dilma Rousseff.

Como é virar um ícone de credibilidade num País em que o tema dominante é a quebra de confiança nas instituições?

Só posso dizer que me surpreendo muito. Nunca me preparei para isso. Quando saí para a vida, não pensava nem em termos de profissão. Há uma carga pesada na palavra, virou uma coisa deturpada. Inspirada no exemplo de meu pai, de meu avô, só sonhava em adquirir um ofício, naquele sentido dos velhos oficiais artesãos, das velhas ligas de artesanato. Um ofício do qual pudesse me orgulhar. E creio que consegui.

Como você vê o Brasil neste momento de crise?

Passando por cima de muita coisa, o que mais me inspira é uma constatação básica. Estamos vivendo um momento de liberdade de expressão plena, e por conta disso, sabemos de tanta coisa que talvez não tivesse vindo a público. A imprensa, a internet. A informação circula livremente. Às vezes, são coisas que chocam, e não só histórias de corrupção. Vi hoje na TV paga (sexta-feira) que uma mãe se jogou com o filho na linha do trem. É muita loucura. Acho a liberdade inspiradora, mas existem coisas que me impressionam mal. Nas manifestações contra Dilma, se aparece algum petista querendo defender a presidente, é escorraçado. Pois deveriam expurgar também esses malucos que pedem a volta dos militares. Eles têm todo o direito, numa democracia, de se expressar, mas que façam a manifestação deles, com a pauta deles, não misturando as coisas. Nós vivemos o período duro do regime militar e aquilo foi um horror. Pedir a volta dos militares é coisa de doentes mentais.

Como mulher e cidadã, você apoia a presidente Dilma Rousseff?

Não apoio a Dilma nem nenhum presidente. Apoio o Brasil. Minha causa, meu projeto é no Brasil, a melhoria do povo brasileiro. Estávamos num cenário otimista na véspera da eleição e hoje o quadro é outro. Temos um quadro de crise e desemprego dos mais graves, puxado por 600 cavalos de raça. Existem indicadores positivos. Toda uma classe se beneficiou por meio de vários mecanismos sociais. Isso é obrigação, já deveria ter sido feito. A verdade é que o governo virou uma miscelânea de incapacidades, e isso é grave.

Você está pessimista, então?

Como o povo brasileiro, sou otimista por natureza. Meu ofício é a esperança. Sobrevivemos ao Estado Novo, ao suicídio do Getúlio, à renúncia do Jânio, à deposição de Jango, ao impeachment do Collor. Vamos sobreviver de novo. Mas isso não nos isenta de lutar por um País melhor, por uma classe dirigente mais digna e responsável. Não é possível que as pessoas no poder só pensem nas próprias benesses. Esse País precisa se organizar, se reorganizar para termos governabilidade.

Vamos falar do beijo gay de Babilônia. O que foi aquilo?

Acho que a novela foi complicada, que teve uma questão de audiência que embolou seu desenvolvimento. Mas ninguém fala do que os outros canais estão mostrando e da diversidade do público. A queda vira uma coisa absoluta. Estamos falando de dramaturgia. Babilônia, de Gilberto Braga, tem uma importância histórica muito grande. O beijo gay do qual tanto se falou não foi um beijo lambido, chupado, uma comendo a boca da outra. Foi a expressão de carinho de duas mulheres de 80 anos que há 40 estão juntas. Mulheres que representam uma elite. Não são ripongas. São bem-sucedidas e responsáveis. Habitam bem, comem bem. Um beijo carinhoso causou todo esse escândalo? Para mim, foi uma manta protetora, para distrair a atenção. Porque a novela foi histórica por outra coisa. Pela afirmação da negritude. Negros, mulatos, pardos, todos se afirmaram pela atitude. Ninguém era subserviente. Ninguém de uniforme, servil. O único de uniforme foi o motorista negro, amante da patroa, e assassinado no começo. Glorinha (Pires) ficou louca de desejo por um homem de outro extrato social. Essa foi a verdadeira revolução da novela. Nunca tantos negros se casaram com brancos, nunca houve tanta miscigenação. A negra que se forma advogada, o que tem sua barraquinha. Isso foi o que incomodou. O resto foi pretexto.

Você faz uma matriarca conservadora em Infância. Como foi entrar no filme do Domingos Oliveira?

Domingos fez um filme autobiográfico. Dona Mocinha, a matriarca que represento, sua avó, é uma dona de fazenda transplantada para São Clemente, que era o reduto de poder da 1.ª República, no Rio. Dona Mocinha é conservadora, fiel ao marido, à Igreja, mas eu tenho a impressão de que ela dava para o Carlos Lacerda, pelo que ele representava para o status quo do conservadorismo nos anos 1950. É raro no cinema brasileiro um diretor como Domingos, que veio da elite e faz a revisão de sua classe. A dramaturgia dele é clássica, mas esse desejo de revelar desde o interior o funcionamento de sua classe social é outra coisa revolucionária.

Alguma coisa nova de teatro?

No Rio, me pedem muito que volte com a peça sobre Simone de Beauvoir. Aí em São Paulo vocês já viram bastante. Mas eu agora preciso dar uma parada. Emendei peça e filme com novela. Foi um ano de muita atividade. Gosto do que faço, mas quero descansar, tirar férias até o carnaval, pelo menos. Depois, é preciso cuidar da saúde. Aos 85, quase 86, todo cuidado é pouco.

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