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‘Fazer humor é colocar a sociedade no espelho’, diz Samantha Schmütz 

Atriz estrela ‘Tô Ryca! 2’, que agora coloca sua personagem em duelo com uma rival que quer pegar toda a sua fortuna

Luiz Carlos Merten, Especial para o Estadão

12 de fevereiro de 2022 | 05h00

Prepare-se para a nova feijoada da Selminha. Cinco anos depois de levar mais de 1 milhão de espectadores aos cinemas com o primeiro Tô Ryca!, Samantha Schmütz está de volta para novos perrengues no segundo filme da série realizada por Pedro Antônio. O diretor pertence a uma família de tradição no cinema brasileiro - o pai era o diretor Paulo Thiago, que morreu em junho passado, a mãe, a produtora Gláucia Camargos. Samantha é toda elogios - “Ele sempre consegue tirar o melhor de mim”. 

Em Tô Ryca! 2, após uns dez minutos que mostram Selminha nadando na riqueza - e preparando a feijoada que mobiliza toda a comunidade -, o mundo da personagem vem abaixo quando surge uma homônima - anônima? - reivindicando a herança que ela recebeu do tio. O caso envolve uma fraude, e não chega a ser uma surpresa a revelação de quem está por trás de tudo. Enquanto se desenvolve o processo jurídico - e Selminha confunde o tratamento à juíza, chamando a meritíssima de meretriz -, riqueza e pobreza e as necessidades da comunidade recheiam a narrativa, entrecortada pelas reflexões do motorista, interpretado por Rafael Portugal. O marido de Cacau Protásio em Juntos e Enrolados segue sendo um ótimo escada. Na arte da interpretação é o coadjuvante que fornece o gatilho para o brilho do/da protagonista. 

 

Tô Ryca! 2 foi feito antes da pandemia, mas está chegando somente agora aos cinemas. No intervalo, Samantha Schmütz viu morrer de covid o parceiro Paulo Gustavo e mais de 600 mil brasileiros. Não parou de soltar os cachorros no governo, e na forma como o presidente tem administrado a crise, não apenas a da saúde. Atriz, cantora, humorista, Samantha é, acima de tudo, cidadã. “Nosso papel de artistas é contestar e fazer refletir”, anuncia. Nesses dois anos, não tem feito outra coisa senão criticar o desmonte da cultura, a má gestão dos problemas nacionais e até os colegas de profissão que não tomam partido, como se não tivessem nada a ver com o que está ocorrendo. 

Ante o momento sombrio, ela defende a comédia - rir é o melhor remédio. “A comédia é uma necessidade. Com tanta coisa ruim rolando a gente precisa de alegria, de uma dose de felicidade.” Na trama, o surgimento da rival - Evelyn Castro - é uma armação sinistra de... Veja o filme para saber. Selminha vai parar na casa da amiga, Katiuscia Canoro, depois de quase estragar o casamento dela com Anderson Di Rizzi. A própria união com Rubens/Marcello Melo Jr. fica ameaçada, mas prepare-se para uma grande celebração coletiva no final. Na fantasia de Pedro Antônio - e Samantha -, a união faz a força. Resiliência, amizade e fraternidade - amor - são ferramentas necessárias para a superação dos problemas, individuais e coletivos. 

De onde vem essa facilidade que Samantha tem de criar personagens como a periguete de Vai Que Cola e a nova rica dessa comédia? Facilidade? “A gente se diverte, mas tem muito trabalho nisso aqui”, e por “aqui” se entenda a sua arte. O roteiro é sempre um ponto de partida. “Mas tem muita observação. Eu estou sempre observando as pessoas, o mundo ao redor. A periguete do prédio, da esquina faz aquele gesto e eu copio, até exagero. O público entende e morre de rir.” Não lhe falta a consciência da gravidade, e de que estamos rindo da nossa desgraça. “Espero que a nossa arte, nosso humor seja agente de transformação de tudo isso”, anuncia. 

Qual é sua expectativa de público? “Espero que o filme chegue às pessoas, mas além do medo do contágio - da covid - tem gente que não está tendo nem o que comer, então o acesso aos cinemas ficou mais difícil. Acho que a gente tem de criar condições de acesso, porque as pessoas precisam disso”, vaticina. Jessica, o Juninho Play de Zorra Total, Selminha. Samantha sempre fez sucesso com personagens com os quais o público pode se identificar, e que lhe permitem criticar comportamentos reais. O Juninho, por exemplo, era um machista. “Fazer humor é colocar a sociedade no espelho, consciente do próprio ridículo e miséria”, define. 

Três perguntas para: Pedro Antônio, diretor da comédia ‘Tô Ryca! 2’

Graças ao pai diretor - Paulo Thiago - e à mãe produtora - Gláucia Camargos -, o cinema sempre esteve presente na vida de Pedro Antônio. Suas comédias, Um Tio Quase Perfeito 1 e 2, Tô Ryca! 1 e 2, abordam sempre ambientes familiares e questões sociais. 

Sua família foi importante para a definição do cineasta em que você se transformou? 

Com certeza. O cinema tem estado na minha vida desde criança. Selminha e o tio são figuras reais, com as quais o público pode se identificar. Em casa, aprendi que o brasileiro gosta de se ver na tela. Faço comédias, mas o social está sempre presente, a desigualdade. Rimos da nossa miséria. O cinema pode nos ajudar a nos conhecermos e a refletir sobre o Brasil que queremos. 

 Samantha Schmütz diz que você sempre tira o melhor dela? 

A gente tem uma dinâmica muito positiva. Ensaiamos as cenas e, quando isso ocorre, não só a Samantha, mas a Evelyn (Castro), a Katiuscia (Corona), o Rafael (Portugal), todo mundo acrescenta, contribui. Então o que faço é agregar a criatividade dos meus atores. Eles me estimulam, também me levam a querer ser um diretor melhor. 

 Betina Viany, que faz a patroa, é filha de Alex Viany, importante crítico e cineasta. Você vem dessa outra família tradicional do cinema brasileiro. É mera coincidência? 

Olha, Betina era perfeita para o papel, mas você tem razão. Conheci muita gente que faz parte do nosso cinema. Talvez seja uma forma de homenagear essas figuras históricas. É graças a eles que ainda estamos aqui, resistindo, mesmo neste momento tão difícil.  

 

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