'Fay Grim' vê os Estados Unidos com olho mordaz

Hal Hartley faz obra inteligente que testemunha intriga internacional e critica com humor a América de Bush

Luiz Carlos Merten, do Estado de S. Paulo,

08 de setembro de 2025 | 18h02

É bom que esses filmes estejam assim, lado a lado, porque Fay Grim e Promessas de Um Cara-de-Pau, apesar de todas as suas diferenças, compartilham o mesmo desejo, de seus diretores, de dar um testemunho sobre os EUA, na atualidade. Fay Grim envolve a personagem numa daquelas intrigas de humor tão sutil quanto mordaz, das quais o diretor Hal Hartley há anos possui o segredo. A novidade é que Hartley agora relaciona a personagem de Parker Posey com agentes secretos e velhos revolucionários (reacionários, também) para refletir sobre a crise de identidade da ‘América’, sob George W. Bush. De uma forma mais simples e direta, Promessas de Um Cara-de-Pau fala sobre o processo eleitoral e radicaliza a questão da responsabilidade individual. O foco é na eleição presidencial norte-americana, mas pode servir para a municipal em São Paulo, por que não? Veja também:Trailer de Fay Grim    Cinéfilos de carteirinha devem lembrar-se de que, nos anos 90, Hal Hartley era um dos diretores mais CC - cool e cult - do cinema dos EUA. Para muitos críticos, ele era a própria cara da produção independente no que tinha de mais ousado. Avesso às formas narrativas tradicionais, Hartley conquistou adeptos por sua crítica mordaz ao modus operandi da sociedade norte-americana em filmes como Simples Desejo, Amateur e Flerte. Em 1997, ele fez As Confissões de Henry Fool, do qual Fay Grim é a seqüência. Só para lembrar, Henry Fool ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes. Além de escrever bem, e de forma concisa, para o cinema, Hartley disse aqui mesmo em São Paulo, onde foi jurado da Mostra Internacional naquele ano, que compunha, musicalmente, as imagens, mais do que as filmava.Antes de falar sobre Fay Grim, a ‘viúva’ de Henry Fool, talvez seja interessante traçar um perfilzinho rápido do sujeito desconhecido que chegava a uma cidade dos EUA para subverter a vida de todos. O próprio Hartley definiu certa vez Henry como um diabo contemporâneo não sobrenatural. Na seqüência, o diabo desapareceu há tempos e não deixou muita saudade na mulher, Fay, irmã do poeta Simon, de quem Henry era grande amigo. Simon está na cadeia e o filho de Fay (e Henry) começa o filme tendo problemas na escola, por seduzir os colegas de aula com uma engenhoca que reproduz uma orgia em movimento.Henry deixou alguns cadernos, e é a posse desses cadernos que desencadeia uma verdadeira intriga internacional. De repente, são vários agentes buscando os segredos contidos nesses cadernos que remetem ao 11 de setembro, no Chile, quando a CIA ajudou a depor o presidente constitucional Salvador Allende - porque sua política econômica não beneficiava os EUA, explica o agente Jeff Goldblum. Outros episódios controvertidos dos anos 60 e 70 também estão ali documentados. A narrativa salta para a França, sempre econômica e nunca com o formato de um thriller tradicional. E mais - Henry pode estar vivo. O resultado é um filme minimalista inteligente e simpático, no qual dá gosto ver como Hartley resolve os problemas de produção. Fay Grim é um compêndio da produção barata, e este é seu maior charme.  Fay Grim (EUA-Alemanha/2007, 118 min.) - Suspense. Dir. Hal Hartley.  16 anos. Cotação: Bom

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Fay Grim, Hal Hartley

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