Joel Ryan/AP
Joel Ryan/AP

Favorita no Festival de Cannes, Marion Cotillard diz sofrer de insegurança

'Duvido sempre que vá conseguir corresponder àquilo que esperam de mim' diz protagonista do novo filme dos irmãos Dardenne

Luiz Carlos Merten , Enviado Especial a Cannes - O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2014 | 16h00

Você é capaz de não acreditar, mas Marion Cotillard fica repetindo sempre o mesmo discurso. "Sofro de uma crônica falta de confiança. Duvido sempre que vá conseguir corresponder àquilo que esperam de mim e aí, justamente por duvidar, me entrego de corpo e alma e busco me superar. É sempre um processo exaustivo, mas tem dado certo." Marion, de 38 anos, faz a confissão na tenda da Unifrance no Village International, onde estão as representações de grandes cinematografias (e/ou corporações) aqui na Croisette.

O 67.º Festival de Cannes encerra-se neste final de semana, e a maioria da imprensa reunida na cidade balneária do sul das França aposta em Marion para o prêmio de melhor atriz. Ela só não levará se o júri presidido pela cineasta Jane Campion resolver outorgar aos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne sua terceira Palma de Ouro.

Depois de Rosetta e A Criança, em 1999 e 2005, eles conseguiram, mais uma vez – seu novo filme, Dois Dias e Uma Noite, é magnífico. Não seria a mesma coisa sem Marion no papel de Sandra, a operária que tem um final de semana para reencontrar colegas de trabalho e convencê-los a reverter o voto que resultou em sua demissão da fábrica. O próprio Luc Dardenne confessou ao repórter – "Tínhamos colocado esse roteiro de lado há uns anos. Era uma ideia antiga que nos perseguia. Terminou saindo no momento certo, porque o desemprego ronda a Europa, e Marion era a atriz de que precisávamos. Não só ela. Fabrizio Rongione, que faz o marido que a apoia, também é um ator excepcional."

Marion conta que sempre admirou os Dardenne e por conta de tudo o que ouvia sobre eles, e seu método, sonhava com o que define como "osmose entre autores e autor". Não se decepcionou – "A regra fundamental para Jean-Pierre e Luc é que a gente se coloque na pele dos personagens. Eles não querem interpretações. Foi muito importante ter ficado um mês antes da filmagem totalmente imersa na personagem. Ensaiava com os outros atores, reescrevíamos os diálogos, eu experimentava os figurinos e conhecia os ambientes. E, com tudo isso, havia outra coisa. Os Dardennes gostam de planos-sequência. A maioria das cenas é de plano contínuo. E isso só dá certo com muito ensaio. Precisamos saber muito bem nossas posições, a câmera tem de ter uma coreografia muito bem elaborada."

Mas ela revela – "Não sou o tipo de atriz que se preocupa com a posição da câmera nem com a lente que o diretor está usando. Não tenho um método de abordagem das personagens. Cada uma delas tem me levado a algo novo. De comum, o que me guia é sempre a emoção. Sou uma atriz emocional." Você sabe – ela era pura emoção como Edith Piaf em Um Hino ao Amor/La Vie en Rose. O filme lhe deu o Oscar de 2008 e projeção internacional. Fez dela uma estrela. "Não há dias em que não me belisque para me certificar de que não estou sonhando, e que tudo o que ocorre comigo é real", ela repete o que já disse ao repórter no ano passado, em outra entrevista – por Blood Ties, em que foi dirigida pelo marido, o também ator Guillaume Canet.

Ele também está aqui em Cannes como protagonista masculino do novo André Techiné, com Catherine Deneuve. O filme reconstitui um affair judicial que ficou famoso na França. Canet, também entrevistado pelo Estado, disse que nem ele nem Marion fazem o jogo das celebridades. "Vocês não vão ver a nossa casa estampada nas revistas. As pessoas terminam por respeitar. Se você quiser continuar levando uma vida normal, elas aceitam. Qual seria o sentido de não podermos levar nosso filho à escola?" Ela vai adiante no raciocínio. Pega um exemplar da revista Gala, que, por acaso, está numa mesa ali perto, e confessa. "Isso é muito bizarro. Tirando o fato de que não acho que essa foto seja boa, me ver assim na capa, em traje de gala, me deixa um pouco aflita. É como se estivesse olhando para outra pessoa. Essa aí não é a Marion que eu vejo todo dia no espelho", reflete ainda a atriz.

O glamour, por mais que lhe pareça estranho, faz parte do métier. "OK", reconhece. "Só não creio que isso deva ter primazia sobre todo o resto. No tapete vermelho, ninguém pergunta pelo filme nem pelo papel. É como se não tivessem importância e isso aqui fosse só um show de moda. O que a maioria pergunta é sobre o estilista que criou seu vestido, que joias e sapatos você está usando. É a prova do seu sucesso. Quanto mais você reluz, mais bem-sucedida você é. Isso deveria ser secundário. Meu trabalho não é a mesma coisa que o de Sandra, no filme, mas atuar também é uma forma de trabalho. Dar vida a outra pessoa exige concentração, disciplina, entrega. E o cinema é uma atividade coletiva. Tenho de estar em sintonia com os colegas atores, com os técnicos, com o diretor."

Uma pergunta inevitável para quem se define como emocional – Marion é do tipo que chora no cinema? "Choro muito, e sem pudor nenhum." Qual foi o último filme que a fez chorar? "Alabama Monroe (o candidato belga ao Oscar de filme estrangeiro). Pensei que ia derreter, de tanto chorar."

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