Vida Cavalcante/Estadão
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'Favela High Tech' vira filme com gravações a partir de abril

Trama que se passa no Japão, com roteiro adaptado do livro de Marco Lacerda, começa a movimentar o meio audiovisual

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h00

A produtora Gullane, dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, faz um dos primeiros movimentos para a retomada das ações da indústria do cinema no País. Com um bom roteiro nas mãos, adaptado do livro Favela High Tech, do jornalista Marco Antonio Lacerda – a história de uma brasileira descendente de japoneses que segue para Tóquio, trabalha como modelo e acaba se envolvendo com o tráfico de drogas –, os produtores estão na fase de preparação para que as primeiras cenas comecem a ser gravadas entre abril e junho, em Tóquio, sob direção de Karim Aïnouz. Segundo a assessoria da produtora, imagens serão feitas também em São Paulo e em alguns países da América Latina.

A história teve origem nos anos 1990, quando Marco trabalhava no Japão como correspondente para a Editora Abril. Ao saber do que se passava em torno de Drika, a personagem central, mergulhou na indústria do sexo japonesa e outros fios foram sendo puxados. Assassinatos e ligações com a Yakuza, a máfia japonesa, fazem parte da história.

Antes de publicar a reportagem, o editor de Marco no Brasil disse que aquilo não era uma matéria, mas um livro. Ele voltou ao Japão e retomou as apurações pensando em uma publicação maior. Os direitos foram vendidos há sete anos, mas só agora começa a se tornar filme. Contar o que descobriu nos submundos de Tóquio valeu ameaças que obrigaram o autor a deixar o Japão assim que Favela High Tech foi publicado por lá. “Recebi ameaças por fax e telefone muitas vezes.”

Marco fala sobre ver seu livro como um dos primeiros impulsos para a retomada das gravações. “Acho que essa é a grande notícia, algo que traz um pouco de luz em um momento tão incerto para o cinema.” Fabiano Gullane diz que foi pego por Favela High Tech na primeira leitura. “Quando eu li o livro pela primeira vez, imediatamente imaginei um filme e o Karim Aïnouz para fazê-lo. Conversamos com o Marco Lacerda, o autor, que confiou bastante na Gullane, e a partir daí começamos a trabalhar no roteiro.”

Ele conta que logo em seguida convidou o roteirista inglês Tobey Finley para fazer a primeira versão. “E então chamamos o Sergio Machado e o George Walker para continuar e concluir esse roteiro juntamente com Karim. É um livro que marcou muito a geração dos anos 80 e 90.” Um dos maiores desafios foi atualizar uma história tão centrada em uma realidade dos anos 1990. “Nos inspiramos muito nessa onda de imigrações e refugiados, de como as pessoas, às vezes, são bem-vindas e, às vezes, completamente renegadas quando chegam a países que não são sua pátria. O Favela vai falar muito disso, dessa sensação de pertencimento, de realmente se sentir aceito, amado e respeitado em um país que não é o seu.”

Pandemia alterou planos

Sobre as preparações para as filmagens, Fabiano diz que há uma parceria com uma produtora japonesa, chamada Bitters End, que lança os sucessos internacionais no Japão, como o premiado Parasita. “Estávamos nos preparando para filmar este ano, logo após a Olimpíada, mas, com a pandemia, tudo foi alterado.”

A Olimpíada no Japão ficou para julho e agosto de 2021. “Não sabemos ainda se começamos as filmagens pelo Japão ou pelo Brasil, estamos fazendo esse estudo agora.” O elenco ainda está em aberto, com procuras pela atriz principal, para viver Drika, nos dois países. 

Se Fabiano vê algo que outros produtores possam fazer para reativar a indústria dos filmes neste momento? “Falo com muita franqueza com os amigos do Estadão: no Brasil, a gente sofre com dois problemas na indústria do audiovisual. O primeiro deles, claro, a pandemia. Que é um problema muito maior do que a indústria do audiovisual. É um absurdo nós termos chegado a esse patamar, com mais de 100 mil mortes, mais de 2 milhões de infectados, sem uma política clara de prevenção, de contenção desse mal. Fica até difícil a gente falar de outros assuntos tendo a pandemia com um protagonismo tão grande neste momento. Mas temos que fazer a vida seguir, temos que cuidar dos nossos negócios e projetos de vida para continuarmos avançando e existindo.”

A segunda questão diz respeito à inatividade da Ancine, a Agência Nacional do Cinema: “É uma paralisação completamente ineficiente, que põe em risco muitas conquistas do mercado brasileiro”. 

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