Fantasia pós-feminista em ritmo de videoclipe só vale pelas belezinhas

Pense no filme iraniano mais lento e longo que você já viu. É menos cansativo do que As Panteras. Não que o filme dirigido por McG seja ruim. Ou melhor, é ruim, mas não é pior que a média da produção hollywoodiana atual. Tem até mais atrativos. É agradável ver três belezinhas como Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu prendendo e arrebentando, mesmo que essa fantasia pós-feminista exagere um pouco nessa nova fórmula que faz com que as mulheres, depois de Thelma & Louise, tenham de recorrer ao arsenal de comportamentos e truques dos homens para triunfar num mundo por eles dominado.Cameron é aquele assombro de sempre; Lucy faz uma gloriosa estréia cinematográfica, depois de estourar na TV; mas Drew talvez seja a melhor surpresa. Não só por estar linda, mas porque, de certa forma, cria a personagem mais vulnerável das três. Numa cena, o vilão chega a fazer troça do que é considerado uma qualidade feminina, a intuição - que Drew não exercitou, sendo por ele enrolada e quase morta. As três são supermulheres, mas a supermulher que Drew representa se deixa enrolar até com certa facilidade, o que não a impede, na hora do perigo, de acabar com meia-dúzia de machos, mesmo que esteja de mãos atadas a uma cadeira.Em Thelma & Louise, Ridley Scott instituiu, com todo o charme do mundo, a fórmula que o cinema de ação pós-feminista vem seguindo à risca. Quem não se lembra de Susan Srandon e Geena Davis enfrentando os durões com as mesmas armas que a sociedade machista usa para oprimir as mulheres? Para provar sua tese, Scott já criava um monte de estereótipos masculinos que estimulava a platéia a se identificar com a dupla principal. Homem não presta, era a tese de Thelma & Louise, sendo de lembrar que o mais docinho de todos os personagens masculinos da trama era o cafajeste interpretado por Brad Pitt, em seu primeiro grande papel. Ele se chamava J.D., para evocar o mítico James Dean, e fugia com a grana de Thelma depois de proporcionar à heroína de Geena Davis seu primeiro orgasmo.Os homens são todos crianças em As Panteras, uma (in)verdade que não deixa de estar amparada nos fatos, já que hoje, mais do que nunca, é aceito que a adolescência da maioria dos homens vá para os 40 anos (ou mais), sendo que até aqueles que fazem graça da constatação invariavelmente a comprovam. Mas o que cabe destacar, mesmo, é que esse feminismo é de araque, só fachada para alimentar as fantasias de homens e mulheres. Não é preciso esquecer que As Panteras se chama Charlie´s Angels no original e, por trás das supermulheres, há um homem manipulador, esse Charles só visto à distância, e do qual (ou para o qual) o trio de protagonistas é formado por anjos.No livro com a entrevista que deu a François Truffaut (Hitchcock Truffaut, da Editora Brasiliense), o mestre do suspense conta que foi forçado a abandonar diversos filmes ao longo da carreira. Cita casos de filmes que começavam de forma eletrizante e diz que era impossível manter o mesmo clima (ou ritmo) até o desfecho. O espectador precisa de pausas para respirar. Em seus filmes, esses momentos, digamos, staccatos, eram alimentados por ótimos diálogos e pelos ingredientes mais saborosos das tramas. Não é o que ocorre hoje. A ação tem de ser vertiginosa do começo ao fim, uma grande cena sucedendo a outra mais grandiosa ainda. E tem de ser assim porque, quando o tobogã de emoções pára um pouco, o que as pessoas dizem em cena é um amontoado de banalidades.Não deixa de ser interessante assinalar que o diretor de As Panteras é um certo McG. Não é um nome. É uma grife, um pseudônimo. Pertence à geração MTV, o que se percebe, facilmente, pelo visual que impõe às panteras. Há detalhes que estão lá sem que se perceba muito bem a intenção. Um grupo de motociclistas passa pela imagem evocando Federico Fellini (Roma), uma freira espreita no canto da tela num breve plano que mostra as panteras no exercício de sua irreverência. O que quer dizer? Nada, mas está lá, caso alguém queira cobrar de McG algo mais que o exercício de emoções baratas (e descartáveis) que está na essência de As Panteras. Nada de nostalgia pela série de TV, que não era nada disso que as novas panteras mostram. Se quiser comparar, é só ligar no canal Sony. A melhor crítica que se pode fazer a As Panteras está no próprio filme. Uma autocrítica. Na cena inicial, no avião, o afro-americano que... bem, é melhor não dizer o que ele é, ou quem é. O cara olha a TV e faz cara de nojo. "Mais um daqueles filmes adaptados de antigas séries de TV..." Pensando bem, não falta humor a McG.

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