JEANNE LAPOIRIE
JEANNE LAPOIRIE

Fanny Ardant encara desafio de fazer transexual em ‘Lola Pater’

Filme que estreou na quinta (23) conta a história de um garoto que, após a morte da mãe, parte em busca do pai e descobre que ele virou mulher

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2017 | 06h00

Fanny Ardant conversa com o Estado pelo telefone. Está em Carcassonne, com a peça Croque Monsieur. O texto é uma comédia e ela faz uma devoradora de homens que descobre o amor. Mas o tema da conversa é 'Lola Pater', o filme que estreou na quinta, 23. O filme conta a história de um garoto que, após a morte da mãe, parte em busca do pai. Descobre que ele virou mulher. Fanny é muito simpática e efusiva, mas, quando o repórter lhe diz que o Brasil é campeão de assassinatos de travestis... “Alô-alô, Fanny. Você está aí?” O silêncio é longo. “Oui-oui, je suis. Sim, eu estou aqui. Mas isso é uma coisa horrível. Mas por que as pessoas fazem isso? Só pode ser por um motivo. Transgêneros são pessoas libertas. Vão ao limite para exercer sua liberdade e se transformar no que acreditam que devem ser. Essa coragem de ser livre é ofensiva para quem vive reprimido(a).”

Mademoiselle Ardant – Jeanne Moreau ensinou ao repórter que uma atriz francesa é sempre ’mademoiselle’, mesmo que seja casada, viúva ou tenha 100 anos. O repórter arranca uma sonora gargalhada da mademoiselle ao ler um trecho da crítica da revista Télérama a Lola Pater. O crítico diz que Fanny consegue fazer do grotesco humano uma porta para o sublime. “Ele escreveu isso, é?”, e ela ri, gostosamente. Mas logo interrompe. “Estou rindo, mas no fundo acho deplorável. Um homem que realiza seu sonho de ser mulher não é grotesco. A personagem que faço na peça também poderia ser, mas para mim não é. Tudo o que é humano e foge das normas é trágico. Minha regra número um é representar a comédia como se fosse tragédia.”

Lola Pater é uma comédia de Nadir Moknèche, diretor francês de ascendência argelina que tem feito filmes para discutir a mulher no islamismo e a criminalidade urbana nas antigas colônias africanas. Fanny diz que não o conhecia, nem seus filmes, mas adorou o próprio Moknèche logo na primeira reunião com ele. “Nadir me disse que foi criado sem pai. Se aparecesse um ‘pãe’, o acolheria de braços abertos, porque pai e mãe a gente não escolhe. O importante é ter.” E Fanny acrescenta: “Ele tinha muita segurança sobre o filme que queria fazer e, ao mesmo tempo, tudo o que me dizia revelava sua sensibilidade, como o filme seria importante para ele.

Adoro homens que não tem medo de expor sua vulnerabilidade”.

A pergunta que não quer calar. Fanny fez grandes filmes, mas, no Olimpo dos cinéfilos, ela é sempre lembrada pela parceria com François Truffaut, em A Mulher do Lado e De Repente, Num Domingo. Truffaut era assim – vulnerável? “Mais bien sûr, claro, e François era sedutor para as mulheres justamente por isso. Não tinha medo de se expor. Filmando mulheres e crianças, como gostava de fazer, ele projetava na tela o que tinha de mais sensível.” Decorridos 33 anos da morte de Truffaut – em 1984 –, ele ainda permanece como o homem da vida de Fanny. “Minha mãe e minha avó foram livres ao amar um só homem, cada uma. Eu também fui livre ao amar muitos homens, mas nenhum como François.”

A liberdade é um tema recorrente, em sua vida e obra. Fanny dirigiu o curta Chimères Absentes e virou militante da causa dos romanis, os ciganos. Por que? “Gosto de gente que vive na estrada, sem medo de ser livre. O que me segura é ser atriz, viver outras vidas. Senão, estaria no mundo.” Tem dirigido muito – três longas, incluindo Le Divan de Staline, com Gérard Depardieu no papel. “É um filme sobre o poder e a atração que exerce sobre as pessoas.” De volta a Lola Pater, alguma coisa que queira dizer ao público brasileiro? “Vejam sem preconceito.” E sobre o ator que faz seu filho – Tewfik (que ela pronuncia ‘Túfik’) Jallab? “É adorável. Queria que fosse meu filho na vida.”

Crítica: Uma história de afetos e decepções

Na entrevista acima, faltou acrescentar que Fanny Ardant não vê problema nenhum em, sendo mulher, fazer uma transexual. “Entendo que isso possa incomodar algumas pessoas, mas vão chamar mulheres transgêneros para fazer qualquer personagem feminina? Interpretar não é ‘ser’. Já fui Medeia e não matei meus filhos.” O tema está na ordem do dia, a questão da representatividade. Se for utilizada para desqualificar o filme de Nadir Moknèche, estaremos nos privando de debater o que Lola Pater tem de mais interessante.

Um grande diretor como Billy Wilder fez do travestismo uma questão importante de seu cinema. Não é disso, mas de transexualidade que fala o longa de Moknèche. Mais que isso – é sobre afetos. A trama segue a estrutura que você pode imaginar – surpresa (da descoberta), decepção, rejeição, (re)aproximação. Pai, agora mulher, e filho nunca chegam a se conhecer totalmente, e o filme deixa essas áreas sombrias. De perto, ninguém é normal, mas também como se pode dizer que conhecemos completamente o outro? As pessoas surpreendem, mas também permanecem secretas. Um subtema no filme de Meknèche é a decepção. Podemos nos decepcionar com as pessoas – com o outro – e continuar a aceitá-lo(a). 

Tudo o que sabemos sobre:
Fanny Ardantcinematransgênero

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.