Arno Burgi/EFE
Arno Burgi/EFE

Famílias, política e religião tomam Berlinale

Nos primeiros dias, festival já prova por que é a mais política das mostras

Luiz Carlos Merten, Berlim - O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2014 | 17h47

Karin Aïnouz participa da competição da 64.ª Berlinale com um filme que conta a história de dois irmãos. O caçula idolatra o mais velho – é seu herói – e embarca numa viagem para reencontrá-lo, quando desaparece na Alemanha. O filme chama-se A Praia do Futuro e passa aqui na terça que vem. Ontem, passou um filme alemão que, num certo sentido, é um pouco o inverso do de Aïnouz. Jack, de Edward Berger, conta a história do irmão mais velho que pega o caçula e parte com ele numa viagem em busca da mãe.

O cinema tem contado muitas histórias de famílias disfuncionais, de pais e mães drogados. A mãe de Jack é trabalhadora, possui uma casa e existem momentos no filme em que ela É muito calorosa com os filhos. Mas ela também é jovem, ardente. Em vez dos filhos, prioriza a si mesma – seus desejos, suas necessidades. A família é separada. Jack vai para um albergue e, neste fim de semana em particular, a mãe virá buscá-lo. Mas ela não vem, Jack se envolve numa situação de violência e foge. Pega o irmão e, com ele, busca a mãe.

O cinéfilo, com certeza, se lembra de Enzo Staiola, o garoto de Ladrões de Bicicletas, o clássico neorrealista de Vittorio De Sica. Enzo, embora criança, tinha aquela cara de quem tudo viu. No final, é seu aperto de mão que dá força ao pai derrotado. O ator que faz Jack chama-se Ivo Pietzeker, e tem algo da determinação de Enzo Staiola. Onde sua mãe é irresponsável e só pensa em si, ele coloca o bem-estar do irmão acima de tudo. Sente-se responsável por ele.

Existem quatro filmes alemães na competição da Berlinale. A Alemanha, afinal, é a dona da casa, mas os comentários já apontavam para uma seleção alemã mais forte do que a de qualquer outra nos anos recentes. Jack aponta para isso.

Explosão. Será que é possível que no segundo dia já tenha chegado o vencedor do Urso de Ouro? É cedo para fazer prognósticos, mas a Berlinale de 2014 decolou muito bem. O melhor Wes Anderson, Grand Budapest Hotel – e o filme, ao contrário do que informava o próprio site do festival – participa da competição; o belíssimo filme alemão; e outros dois que, mesmo não sendo tão bons, possuem qualidades. Quantos filmes você já viu que abordam a explosiva situação na Irlanda do Norte, dilacerada pelos conflitos entre católicos e protestantes? Nenhum como 71, com certeza.

O título do longa de Yann Demange refere-se ao ano de 1971, particularmente sangrento nessa história de retaliações sem fim. O protagonista é um soldado britânico que não se define nem como cristão nem como protestante. Mas ele testemunha o que não deve – a participação de agentes ingleses infiltrados para radicalizar ainda mais o conflito – e vira objeto de uma caçada humana. Todo mundo o quer morto. Sem heróis e cheio de traidores, o longa do francês Demange – ele nasceu em Paris, mas se criou na Inglaterra – tem um quê de filme de Sam Fuller. Jornalístico, urgente, brutal, conta (bem) a luta de um sobrevivente que adquire um desgosto cada vez maior pelo mundo à sua volta.

Islã. Outro francês – na verdade, francófono, o argelino Rachid Mouchareb – assina com Two Men in Town seu segundo filme em língua inglesa, após London River, também com Brenda Blethyn. Ela faz uma policial que, no começo do filme, está chegando à fronteira mexicana. Vem trabalhar com detentos cuja liberdade foi antecipada, mas que devem permanecer sob vigilância. O protagonista, Forest Whitaker, se converteu ao Islã, mas, embora Brenda lhe diga que ele está tendo sua segunda chance, é perseguido tenazmente pelo xerife Harvey Keitel, cujo parceiro matou no passado. Keitel não é um monstro, é humano na questão dos ilegais, que tentam atravessar a fronteira, mas duro com Whitaker. E esse último ainda sofre a pressão de Luiz Guzmán, que quer que ele volte à vida de crimes.

Two Men in Town baseia-se num filme do escritor e diretor José Giovanni com Alain Delon, nos anos 1970, Deux Hommens dans la Ville. Na coletiva, Bouchareb esclareceu aquilo que quem viu o filme antigo logo percebe. Não se trata de um remake porque ele manteve, do original, só o conceito – o ex-preso, o policial que o persegue e o amigo, muy amigo, criminoso. Toda a conversão ao islamismo, e a luta de Forest Whitaker para se manter na linha, com base no Corão -, vem da experiência de arte e vida do diretor. Todo o elenco está bem, mas Whitaker está ótimo, num dos seus melhores papéis.

Ele está cada vez melhor – O Mordomo da Casa Branca, Dois Homens na Cidade (e o curioso é que o filme se passa quase todo no deserto). Whitaker agradeceu a Bouchareb e disse que o cinema que lhe interessa, hoje, é o que dá testemunho do estado do mundo. Não foi por acaso que ajudou a produzir Fruitvale Station – A Última Estação.

A Berlinale vai bem. De todos os grandes festivais de cinema, é o que tem – com Dieter Kosslick, Wielland Speck etc – a curadoria mais autoral, senão ideológica. Os filmes tratam de famílias, de pais e filhos, de autoridade. A Berlinale, que recém começou, promete.

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