Falta verba para o sonho de Kurosawa

Tudo começou em 1994, quando um emissário de Masato Ninomiya, diretor do Museu da Imigração Japonesa, foi a Nova York e viu a exposição de desenhos do grande mestre do cinema japonês, Akira Kurosawa. Entusiasmado com o relato que ele fez, Ninomiya imediatamente entrou em contato com a Kurosawa Productions, tentando trazer o evento para o Brasil. Kurosawa morreu em 1998 - completaram-se dois anos exatamente na quarta-feira.As conversações não foram interrompidas. Ninomiya passou a negociar com o filho do grande artista, Hisao Kurosawa, que o substitui à frente da Kurosawa Productions. Ninomiya obteve dele o oferecimento para trazer ao País a mais completa mostra de filmes e exposição de objetos e pertences de Kurosawa. Ele chamou o projeto de Sonhos de Kurosawa. Esperava trazê-lo a São Paulo neste mês, mas não conseguiu levantar o dinheiro. Espera que consiga tornar o projeto viável para setembro do ano que vem no terceiro aniversário da morte do Imperador.Era assim que ele era conhecido no Japão. O imperador colocou o cinema japonês no mapa do cinema mundial com o sucesso (e os prêmios) que filmes como Rashomon e Os Sete Samurais obtiveram. Atingiu, nos anos 80, a depuração de sua grande arte com Kagemusha, a Sombra do Samurai e Ran. Dele, os críticos gostam de dizer que era o mestre do movimento e do paradoxo. Um especialista em cinema japonês, o inglês Donald Ritchie, diz que seus filmes tratam sempre do desenvolvimento de uma consciência nos indivíduos - e chama esse processo de "descoberta ou revelação da personalidade".O diretor que se situava na confluência do Oriente com o Ocidente, que amava o western, Shakespeare e a grande literatura russa, fez filmes em que a dialética externa, o quadro histórico e social em que se desenvolve a ação, soma-se à dialética interna dos personagens para compor retratos intimistas e quase sempre grandes painéis de época.Objetos pessoais - O sonho de Ninomiya está por um fio. Embora inscrito desde o início do ano na Lei Rouanet, ele ainda não conseguiu levantar um real para trazer ao Brasil seu evento digno do Imperador. É uma mostra completa dos filmes de Kurosawa mas Ninomiya acha que isso, por mais atraente que seja, é secundário em relação à outra mostra - a dos objetos e pertences. São 620 itens, entre fotos, desenhos (os storyboards que o diretor gostava de usar como suportes nos sets), cartazes, objetos de cena, como quimonos, armaduras e capacetes, tudo isso e mais os troféus que Kurosawa recebeu ao longo de sua carreira e outros tão íntimos, que incluem até a mala que pertenceu ao sensei (mestre) de Tóquio, onde ele nasceu, em 1910.Ninomiya contratou a empresa GeroArte Produções para gerenciar o processo de captação. Ele quer vincular o evento Sonhos ao museu que dirige, mas explica que o museu já está inscrito nas leis de incentivo e capta recursos para o projeto de reforma, orçado em R$ 2 milhões. Por isso mesmo, ele inscreveu Sonhos em seu nome, na lei, mas não tem interesse em promover o evento como pessoa física. O projeto foi desmembrado e recebeu aprovação por meio de duas portarias. A que saiu primeiro, em fevereiro, contempla a mostra de filmes com a possibilidade de arrecadação de até R$ 105 mil. Mais para o meio do ano saiu a segunda, a da exposição, orçada em R$ 1,2 milhão.Nesse total está computado tudo - desde o transporte, caríssimo, até o deslocamento da equipe japonesa da Kurosawa Productions, que deve acompanhar a instalação do evento no País. Os objetos são únicos e pela primeira vez estarão saindo do Japão para uma mostra internacional. Ninomiya aproveita para dizer que orçou mal a mostra de filmes. Esperava contar com as facilidades da produtora para trazer as 30 cópias. A Kurosawa Productions exige que cópias sejam tiradas do negativo original, e por conta de Ninomiya. Cada cópia custa de US$ 5 mil a US$ 7 mil. Só isso já equivale a um custo de US$ 150 mil a US$ 210 mil que quase dobra, se for transformado em real.Ele acha que será possível resolver o problema desviando para a mostra parte dos recursos da exposição. Mas não está sendo fácil. Até agora, Ninomiya não conseguiu nenhum investidor interessado em associar seu nome (ou marca) aos Sonhos de Kurosawa. Mas não desiste. Espera que a publicação da matéria inspire os donos do capital a participar da homenagem a um dos maiores diretores do cinema. O diretor da GeroArte, Clio Levi, também espera que o know how de sua empresa especializada em produções esportivas e culturais venha a motivar os renitentes. Interessados devem entrar em contato com a GeroArte pelo telefone (0- -11) 285-5167 ou pelo e-mail cliogeroarte@uol.com.br.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.