Falta imaginação e sobra sangue em "Hannibal"

Em 1991, Jonathan Demme ganhou uma fileira de Oscars com O Silêncio dos Inocentes. Dez anos depois, o personagem do canibal intelectualizado ressuscita neste Hannibal, desta vez dirigido por Ridley Scott. Anthony Hopkins vive o mesmo papel, mas o da agente do FBI, Clarice Starling, Jodie Foster no primeiro, agora é de Julianne Moore. Há muita fofoca nos bastidores da indústria e você nunca sabe quando uma notícia é verdadeira ou foi criada para beneficiar o lançamento do filme. No entanto, parece que foi por uma questão de honra que nem Demme nem Jodie quiseram associar-se a essa seqüência. Vendo-a entende-se o porquê.Certo, talvez O Silêncio dos Inocentes não seja lá tudo aquilo que dele foi dito. No entanto, tinha qualidades inegáveis, entre eles o suspense psicológico sutil e a manipulação do medo em doses calculadas. E, sobretudo, uma boa armação de história. O ponto de partida era primoroso: para agarrar um maluco, é preciso se associar a outro. E, se esse maluco é um psiquiatra canibal, melhor ainda. Lecter cobra em espécie pelas informações prestadas a Clarice: quer que ela se abra com ele. Em outras palavras, que se submeta a uma espécie de psicanálise selvagem, que satisfaça à vontade de saber do psiquiatra enlouquecido.O grau de originalidade dessa continuação é bem menor. Hannibal reaparece, agora muito bem instalado, em Florença, onde desenvolve sua vocação de sibarita. Mas, uma de suas vítimas, que sobreviveu, mas ficou deformada, procura por ele, concorrendo com o FBI. Esse papel caricato é de Gary Oldman, outro belo ator que de vez em quando embarca numa fria. Há também o tira italiano, o inspetor Pazzi (Giancarlo Giannini), que tenta capturar Lecter porque está atrás da recompensa. Precisa de grana, e muita, para sustentar a mulher jovem, Allegra (Francesca Neri).Enfim, toda a imaginação que sobra em O Silêncio dos Inocentes, falta em Hannibal. E como preencher o vazio e satisfazer a (suposta) expectativa da platéia? Com o excesso de violência. Lá onde faltam idéias ponha-se sangue. E tome cenas grotescas, uma atrás da outra. De um homem que além de ser enforcado ainda é estripado em público, até uma sórdida dissecção - in vivo - de um cérebro humano, que claro, vai virar prato refinado na mesa do gourmet Lecter.Há uma e uma só maneira de não se irritar com este Hannibal: não levá-lo muito a sério. Aliás, é perceptível a desfaçatez com que Anthony Hopkins, que é grande ator, vive o personagem. Assim que descobriu que Shakespeare não enche a barriga de ninguém, Hopkins caiu na gandaia. Encara qualquer uma. E numa boa. A sua auto-ironia ao interpretar Hannibal lembra a de Marlon Brando quando levado a viver Napoleão Bonaparte no cinema.Com estado de espírito mais leve, dá até para rir das barbaridades que se vêem na tela. Assim, passa batido o cinismo do personagem, mais intenso ainda pelo contraste com todo um mundo de alta sofisticação que o cerca. Como se o patrimônio cultural da humanidade, dos palácios florentinos às Variações Goldberg estivessem aí para servir de pano de fundo para qualquer vulgaridade. Quanto a Ridley Scott, tido nos anos 80 como profeta, por Blade Runner, está, como se diz no mercado, para o que der e vier. Surpresa é ver o nome de David Mamet, co-autor do roteiro, associado a esse projeto.

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