"Fala Tu" busca retrato honesto da vida na periferia

Fala Tu, de Guilherme Coelho, acompanha de perto a vida de três personagens da zona norte carioca. Paisagem outra, fora do cartão-postal da "cidade maravilhosa", pontuada pelo rap, pela ginga, um certo ideal de malandragem, mas também pela carência material. Documento de vidas difíceis, marcadas no final pela tragédia de um dos personagens. O filme ganhou o prêmio de público do recém-encerrado Festival do Rio, o que se entende. Além da linguagem ágil, de fácil comunicação, faz um perfil honesto da vida fora do mainstream econômico do País. Traz risos, pode trazer lágrimas no final - e essa mistura costuma dar certo.Mais uma vez um filme vai despertar a discussão sobre os meios de representação da margem social brasileira, cada vez mais extensa. Dificilmente se dirá que Fala Tu "cosmetiza" a realidade das camadas pobres da população. Mas talvez alguém mais xiita implique com o fato de que alguns personagens parecem exibir uma incrível capacidade de alegria em meio ao mais completo desamparo material. Há também a inequívoca vontade de "progredir", de dar um salto além do determinismo social, o que poderia, em outros tempos, parecer uma atitude "pequeno-burguesa" por parte de um ilustre membro do lumpem proletariado. Enfim, são termos antigos, que não definem essas imagens modernas do povo."Imagens do povo" - o termo remete para o recém-publicado livro de Jean-Claude Bernardet, na verdade uma republicação, com textos novos sobre documentários contemporâneos. Nele, Bernardet afirma algo óbvio, mas que deve ser relembrado a cada momento - o "povo" não se oferece à câmera como um dado da realidade, como uma árvore ou uma pedra. A imagem do povo é construída pelo cineasta, na maneira como coloca a câmera, no jeito como se dirige às pessoas, como dialoga com elas, como capta suas imagens e monta o material no fim do processo.De Fala Tu, que muitas vezes pode parecer superficial, deve-se dizer que procura resgatar um retrato íntegro do povo brasileiro como um todo, e do carioca, de forma particular. Registra uma visão de mundo que é quase estereotipada - o da "vantagem em tudo" - e, ao mesmo tempo, escancara os limites desse auto-engodo, observando a face trágica da pobreza e do seu determinismo.Fala Tu. Documentário. Direção de Guilherme Coelho. Br/2003. Duração: 74 minutos. Segunda (20), às 17h05, Espaço Unibanco 1; sexta (24), às 16h10, Cineclube Directv 1.

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