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Fake News

Em plena era da liberdade e da informação, a liberdade experimenta burcas ideológicas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2018 | 02h00

Todo mundo está empregando a expressão fake news. Primeiro equívoco sobre o tema: confundir com a simples mentira. Inventam-se coisas há milênios. Há grafites caluniosos nas ruínas de Pompeia. Minha geração acompanhou uma das mais célebres falcatruas lançadas contra uma personagem famosa: a insinuação de Carlos Imperial sobre um uso indevido de uma cenoura. Era pura vingança de alguém destituído de escrúpulos. Caluniar, inventar, utilizar a voz ou a escrita (ou até imagens) como base para tecer uma trama urdida de maldades e sem compromisso com o real é um traço permanente da história.

Fake news estão um pouco além da simples mentira. O campo delas se situa na ideia de persuasão e propaganda, logo, distante da zona da verdade baseada em argumentos ponderáveis. O curioso é que a notícia falsa clássica se destina a uma bolha epistêmica, ou seja, como definiu Walter Carnielli: um grupo que compartilha opiniões semelhantes e afasta vozes discordantes, reforçando o viés de confirmação de cada um (Opinião não é argumento: Veja, edição 2.578, págs. 64-65). Garantiu-me uma jornalista em debate recente que, se você não acreditou no que recebeu no seu celular, é porque a notícia não era destinada a sua bolha. A eficácia das fake news é dependente da comunhão de valores que produz a zona de conforto para amparar a sua opinião. É a suprema preguiça cerebral humana: se todos que conheço concordam, é óbvio que eu estou certo. O fato ocorre com pessoas que partilham vieses políticos, ideias religiosas ou redes sociais específicas.

Há duas maneiras de garantir o não acesso de uma pessoa à boa informação crítica. A primeira é o recurso clássico das ditaduras como a da Coreia do Norte e a de Cuba: impedir o contraditório e barrar quaisquer fatos que divirjam da versão oficial. Controla-se a opinião pela escassez e seleção de dados. A outra, abundante em democracias, é afogar o cidadão em tantas informações e tão contraditórias, que ninguém seja capaz de distinguir o falso do verdadeiro. O Brasil abusa do segundo modelo. Aqui funciona o processo de açodamento informativo sobre o internauta desavisado: embaralha-se tanto o critério objetivo para checar coisas que, no fundo, todos os elementos são relativizados e se chega ao ponto de achar que qualquer discussão seja fruto exclusivo do direito que tenho à opinião. Exclui-se a busca equilibrada de fatos.

Não somos originais na Terra de Santa Cruz. Todo o planeta está conectado e vive a avalanche de dados. Tudo foi multiplicado e tudo possui o oposto disponível com uma busca básica. Coisas solidificadas há séculos como a forma arredondada do nosso mundo deixaram de ser verdade estabelecida. Um google na expressão terraplanismo e você verá, caro leitor e querida leitora, um mundo inteiro de vídeos e debates contestando aquilo que os gregos deduziram e a astronomia moderna comprovou. Sim! Em 2018 há gente repetindo as crenças dos inquisidores do processo de Galileu.

Quando o real está a serviço da crença e das opiniões, escasseiam análises e abundam bate-bocas. De novo: existe uma verdade, obviamente não a verdade absoluta e total, mas uma que se ampara nos melhores argumentos objetivos e demonstráveis. A busca científica e filosófica não é pelo dogma inatacável e atemporal, porém a definição de horizontes possíveis a partir dos dados disponíveis. Há uma pista boa para distinguir ciência de crença: a certeza total só pode existir na segunda. Não dependendo de comprovação, a crença não duvida, pois, afinal, deixaria de ser crença se o fizesse.

Entramos no último e mais delicado patamar para apurar uma notícia falsa. Quando nasceu a imprensa brasileira formal, em 1808, os impressos tinham uma posição clara e anterior a tudo. A Gazeta do Rio de Janeiro, por exemplo, dirigida por frei Tibúrcio José da Rocha, tinha como objeto claro a divulgação favorável das ações da Corte Portuguesa recém-instalada na capital da colônia. A oposição se pronunciava do exterior, pois o exilado Hipólito José da Costa enviava de Londres, seu Correio Braziliense. Tudo que era positivo na Gazeta era negativo no Correio. A posição era absolutamente parcial em ambos e um bom leitor talvez devesse ler ambos para conseguir formar uma posição mais sólida. O desafio é válido até hoje, 210 anos depois.

Encontrar o verdadeiro é contrapor dois polos? Se eu ler uma revista de direita e depois uma de esquerda, eu encontrarei a verdade do centro? Como sempre, a resposta não é tão fácil, pois, se a dita verdade raramente aparece em zero ou dez, não significa que ela brilhe em cinco.

Eu falei que era o patamar mais delicado. A imprensa declaradamente partidária e oficial saiu de moda. A neutralidade passou a ser uma meta. O leitor-consumidor exige maior pluralidade. Uma posição clara e definida pode afastar anunciantes e assinantes. Surge uma nova forma, sempre desejável para garantir a objetividade: o outro lado. Brilha o sol cinco no horizonte da imprensa, com horror crescente ao zero e ao dez. Para o historiador, nunca existe neutralidade, porém há redatores mais e menos honestos. O Baudolino, de Umberto Eco, mostra um redator desonesto. Seu conselho era mentir muito para ser acreditado. O leitor de 1808 tinha menos trabalho para seu exercício em busca da verdade, bastava retirar a capa do diário da Corte ou da oposição. O leitor de 2018 recebe um desafio imensamente maior. Como se dizia na República Velha, a verdade eleitoral parecia ser uma mulher nua desejável, mas que deveria estar coberta. Em plena era da liberdade e da informação, a liberdade experimenta burcas ideológicas. Boa e sincera semana para todos nós. 

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