"Fahrenheit 9/11" chega aos cinemas brasileiros

Fahrenheit ? 11 de setembro, que deu a Palma de Ouro de Cannes a Michael Moore, chega hoje aos cinemas do Brasil. Já é o documentário mais visto de todos os tempos e o primeiro que ultrapassa a barreira de US$ 100 milhões nas bilheterias dos EUA. Moore, amado e detestado com a mesma intensidade, não esconde que sua intenção é impedir a reeleição de George W. Bush. E coleciona para si definições antagônicas: é manipulador e maniqueísta, mas também um pacifista ousado e irreverente. Michael Moore fez sucesso pela primeira vez no cinema com Roger & Eu, em que examina os reflexos do fechamento de uma fábrica da General Motors em sua cidade natal, Flint. Ganhou fama mundial ao expor uma das feridas mais doloridas dos Estados Unidos, passando em revista a tragédia de Columbine, quando dois alunos de uma escola mataram colegas e professores antes de se matarem, e diagnosticando a problemática cultura armamentista no país em Tiros em Columbine. Em Fahrenheit - 11 de Setembro, o cineasta e ativista político tem seu melhor momento. Morgan Spurlock, diretor de outro documentário de sucesso - Super Size Me, sobre (e contra) o McDonald´s -, disse ao Estado que todos precisamos de Moore. "Ele prova que o documentário é a última fronteira da expressão livre, neste mundo global dominado pelas grandes corporações." É só parcialmente verdadeira a afirmação de que nada do que ele diz (ou prova) em Fahrenheit - 11 de Setembro é novidade. Você podia saber do envolvimento do presidente com a família Bin Laden, das falhas de defesa que culminaram no trágico 11 de setembro e do interesse econômico por trás da Guerra do Iraque, mas nunca essas informações foram contextualizadas com tanta clareza. E existem as imagens que você, com certeza, nunca viu - as de Bush naquela escola da Flórida, ao ser informado do segundo ataque às Torres Gêmeas, possui extraordinário valor de documento. O cinismo do presidente falando para sua base - a elite econômica do mundo; ou pedindo atenção para uma jogada de golfe após um rápido discurso patriótico contra o terrorismo expõem o homem por trás da instituição com uma virulência como só o cinema pode fazer. Moore acredita na força do cinema para desmontar a indústria da paranóia montada no país. Luiz Carlos Merten e Alessandro GianniniTrilha sonora tem momentos impagáveis Ainda que de maneira um tanto apelativa, Michael Moore faz bom uso da música pop para obter efeitos cômicos ou dramáticos em Fahrenheit - 11 de Setembro. O alvo da maioria, obviamente, é George W. Bush. Tem country de western tocado no banjo, folk triste à moda de Lambchop, pop árabe, rock pesado, eletrônica, som de caixinha de música, minimalismo, canções natalinas, temas de seriados de tevê, como Peter Gunn, Dragnet e The Greatest American Hero. Nas cenas mais dramáticas, manipula a emoção, é opressiva, angustiante, provoca sensação de sufoco. Nesses momentos se alternam os temas da partitura original composta por Jeff Gibbs e o melancólico Cantus in Memory of Benjamin Britten, de Arvo Part. No entanto, há seqüências tão desconfortáveis que a ausência de música nelas por longos minutos perturba mais. Uma das passagens mais incômodas tem como protagonistas soldados enviados ao Iraque. Eles comentam que ouvem CDs com coisas como Bodies, do grupo Drowning Pool, cuja letra diz: "Isto é o fim/ Pele contra pele, sangue e osso (...) Agora você está aqui/ Levado pelo ódio, consumido pelo medo/ Deixe os corpos atingirem o chão." Em seguida, um deles grita o refrão "burn, motherfucker, burn" (queima, fdp, queima), de Fire Water Burn, do Bloodhound Gang, com sorriso sarcástico e bombas explodindo ao fundo. Em seqüência das mais impagáveis, Moore reúne flagrantes em que Bush e sua turma aparecem adulando os taliban, com quem mantêm altos negócios. A música é Shinny Happy People, do R.E.M. A letra diz: "Gente radiante e feliz apertando as mãos, rindo.../ Onde o amanhã irradia, ouro e prata brilham..."Noutra alfinetada das mais contundentes, nem precisa de letra. Moore exibe documentos para provar que Bush se esquivou de servir o Exército. Mas qual o motivo que o fez fugir do exame médico? Bastam míseros segundos do conhecidíssimo riff de guitarra de Cocaine (Eric Clapton/J.J. Cale) para dar a resposta. Mas a melhor canção da trilha, a tocante Rockin´ in the Free World, do canadense Neil Young, surge nos créditos. Impossível tirar o refrão-título da cabeça na saída. Lauro Lisboa Garcia

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