'Faça a Coisa Certa', clássico de Spike Lee, completa 25 anos

O filme foi, e continua sendo, um divisor de águas da consciência negra no cinema

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

01 Julho 2014 | 10h08

Estão-se completando 25 anos do lançamento de Faça a Coisa Certa/Do the Right Thing. O filme de Spike Lee foi, e continua sendo, um divisor de águas da consciência negra no cinema. Grandes diretores brancos - Otto Preminger, Martin Ritt - fizeram grandes filmes sobre e contra o racismo. Diretores negros, desde o lendário Arthur Michaux até Gordon Parks, também trataram o assunto e, por volta de 1970, os blaxploitation movies criaram um modelo de cinema que muitas vezes seguia as fórmulas tradicionais de ação e humor de Hollywood, apenas mudando a cor dos protagonistas. No começo dos anos 1960, diante de um filme como Pelo Amor de Ivy, com o jovem Sidney Poitier, os críticos se perguntavam - como é uma love story de negros? Naquela época, a correção política não impunha que se dissesse afro-americanos ou afrodescendentes. E os críticos respondiam - é como Rock Hudson e Doris Day de pele mais escura.

Com isso, queriam dizer que os movimentos por direitos civis estavam estabelecendo uma classe média negra que queria se ver representada na tela, e não apenas por meio de histórias violentas de racismo. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard faz uma definição sucinta de Spike Lee. Diz que é um realizador negro humorado e sensível às tensões raciais que perduram na 'América'. Gueto, jazz e antissemitismo. É reducionista, mas não despropositado. Faça a Coisa Certa foi um dos representantes dos EUA no Festival de Cannes de 1989. Poderia ter estreado nos cinemas norte-americanos, em 30 de junho, aureolado da Palma de Ouro, mas Wim Wenders, presidente, e Hector Babenco, integrante do júri, preferiram premiar sexo, mentiras e videotape, vendo na obra de estreia de Steven Soderbergh o futuro do cinema.

A reclamação contra Spike Lee é que ele não propunha soluções para a tensão social exposta em Faça a Coisa Certa - como se fosse a função do cinema (da arte). Faça a Coisa Certa passa-se num dia particularmente quente, numa vizinhança prestes a explodir (e que explode). Negros, italianos, coreanos - e policiais. O ítalo-americano Sal (Danny Aiello) tem uma pizzaria, e nela cria o Hall da Fama, só com fotos de ítalo-descendentes. Spike Lee trabalha para ele, Giancarlo Esposito é um dos 'costumers'. Esposito reclama da ausência de negros no Hall da Fama. É o estopim para uma verdadeira guerra. No final, dos escombros, Spike Lee tira duas citações - uma de Martin Luther King, contra a violência, e outra de Malcolm X, a favor. A escolha é nossa, do público.

Hás 25 anos, Spike Lee queria que Robert De Niro, casado com uma negra, interpretasse o papel de Sal, mas o astro de Martin Scorsese declinou, de certo com medo de que o confronto da ficção repercutisse na sua vidas privada, ou simplesmente por não concordar com a abordagem do diretor. Spike Lee seguiu uma trajetória zigue-zague - quem não? -, mas nunca deixou de ser interessante, mesmo quando sua militância o levou por caminhos esquisitos. Contra Bird, de Clint Eastwood, fez Mais e Melhores Blues, com Denzel Washington no papel de um jazzista negro de alma branca. É possível compreender sua exasperação. Spike Lee diz que é possível identificar o racismo de quem o entrevista só pelo teor das perguntas. Cobram-lhe muito fugir, volta e meia, ao problema das drogas, mas ele retruca que a droga não é um problema dos negros. É um problema da 'América'. Por que não cobram de cineastas brancos?

Sua produtora chama-se 40 Mulas e Um Acre, o que foi prometido aos escravos libertos nos EUA do século 19. 40 Mules and a Acre. Ele gosta de dizer que Orfeu Negro, de Marcel Camus, foi o filme que o fez querer ser cineasta, e que Pixote, de Babenco, fortaleceu o desejo. Seu Malcolm X não despertou muito entusiasmo, exceto pela interpretação poderosa de Denzel Washington. Mas é possível amar Crooklyn - Uma Família de Pernas para o Ar, seu melhor filme depois de Faça a Coisa Certa, e o documentário sobre Jim Brown. Spike Lee foi duro com Quentin Tarantino (Django Livre) e incensou, até demais, 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. De seus filmes recentes os bons são os menos ligados à questão racial - O Plano Perfeito e o remake de Oldboy, que é bem legal. Mas nada supera Faça a Coisa Certa. São 25 anos já! Os EUA já ganharam até um presidente negro, mas as tensões estão longe de estar resolvidas. Teria sido uma fantasia se o diretor as tivesse resolvida na ficção.

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