Fábula marcial de Ang Lee é destaque das estréias

O espaço ocupado por O Tigre e o Dragão nas indicações para o Oscar faz dele a principal estréia da semana. O novo longa-metragem de Ang Lee, desta vez falado integralmente em mandarim, concorre em dez categorias, entre elas as de melhor filme e direção. Além disso, disputa a estatueta de melhor filme estrangeiro, título já considerado uma barbada pelos "especialistas" na premiação da Academia. Essa fábula marcial meio pop deve ir longe. Mais ainda do que já foi, pois até o momento já é a produção em língua estrangeira que mais ingressos vendeu nos Estados Unidos em toda a história, tendo deixado para trás A Vida É Bela, de Roberto Benigni.Ou seja, cartaz é o que não falta a O Tigre e o Dragão. Êxito à parte, fica a pergunta: ele vale tudo isso? Bem, a resposta, como sempre, fica com o público. Mas é possível levar alguns pontos em consideração. Primeiro, que o trabalho é uma antiga aspiração de Lee. Ou, pelo menos, ele tem sustentado isso nas entrevistas promocionais. Diz que as artes marciais fazem parte da cultura chinesa profunda. Geraram um tipo de entretenimento de raízes muito fortes no imaginário chinês e que por isso ele se sentia obrigado a fazer um filme sobre o tema. Como se todo cineasta americano tivesse de passar pelo batismo de fogo de dirigir um faroeste ou todo brasileiro precisasse rodar um filme de cangaceiros para cumprir seu rito de passagem profissional.O fato é que o gênero, em si, dá pouco espaço para personagens muito sofisticados. Como acontece com, por exemplo, a saga Guerra nas Estrelas, um parente próximo. Bem contra o mal. É um universo primitivo, arquetípico, de pouca ou nenhuma nuance entre personagens e nenhuma complexidade temática ou narrativa. É por aí que fica e é o que se pode esperar do gênero.A história fala de um guerreiro, Li Mu Bai (Chow Yung Fat), que decide se aposentar e entrega sua espada mágica a um amigo que mora em Pequim. Acontece que a arma é roubada durante a visita de uma jovem ambiciosa ao palácio. A busca pela espada mágica é também um embate entre os bons e os maus, os chamados e os eleitos. Se você não embarca nesse tipo de universo simplificado, desista. O que a trama tem de atrativo, nesse aspecto, é muito pouco. Se o filme valer - e vale - é por outros motivos.O principal deles é a coreografia das lutas, uma ampliação daquilo que já se havia visto em Matrix. Quer dizer, é aquela estética (se o termo cabe) da arte marcial levada ao paroxismo que é permitido pelo uso da computação gráfica e dos efeitos especiais. A primeira luta entre quem rouba a espada e a guerreira interpretada por Michelle Yeoh já mostra ao espectador que o filme será montado na linha da adrenalina pura. Os contendores não correm pelos telhados - flutuam entre eles, com impressionante realismo. Depois há outra luta de antologia, esta sobre um bambuzal, que deverá ficar na memória dos cinéfilos jovens.Porque é bem para eles que O Tigre e o Dragão foi feito, e é importante saber a que público um filme se destina. De modo que Ang Lee, que já falara do universo homossexual, adaptara um romance de Jane Austen e fizera uma leitura pessoal da Guerra da Secessão, volta agora à cultura do seu país de origem temperando-a, sutilmente, com elementos pop contemporâneos. Essas inserções são feitas com delicadeza, diga-se. Ang Lee tem certo pudor e não joga catchupe sobre a milenar culinária chinesa, mas o namorado de uma heroína sai cantarolando algo que se aproxima, de maneira subliminar, a um rock contemporâneo - e isso levando-se em conta que o tempo ficcional situa a história no século 19.Outro aggiornamento é o fato de as heroínas dominarem a ação num universo tradicionalmente machista. De fato, as duas figuras fortes são as mulheres que duelam entre si até descobrirem que não há motivo para isso. Alguma coisa, nesse ambiente, digamos assim, feminista, lembra o clássico Johnny Guitar, de Nicholas Ray, que apresenta o antológico duelo entre duas mulheres (Joan Crawford e Mercedes McCambridge) no mundo viril do faroeste.Enfim, essa fábula marcial tem sido classificada de feminista por críticos de todo o mundo. Parece uma conclusão curiosa, já que essas guerreiras não impuseram um modo de ser feminino ao mundo, mas adaptaram-se ao estilo masculino de conduzir coisas e pessoas. Quer dizer: não venceram, simplesmente adotaram a ética do opressor. É lícito discutir se esse é um comentário sutil de Ang Lee sobre o pós-feminismo ou se ele quis, simplesmente, inverter os pólos tradicionais da ação e assim conseguir seu efeito inovador.Trajetória - Essa disposição original não é estranha à trajetória de Lee. Quem acompanha sua carreira reconhece a qualidade de títulos como Arte de Viver, O Banquete de Casamento, Comer, Beber, Viver - estes três realizados no quadro da cultura oriental. Em 1995, Lee dá um passo ousado e dirige, não sem méritos, Razão e Sensibilidade, uma adaptação do romance de Jane Austen. Dois anos depois, naquele que talvez seja seu melhor trabalho, Tempestade de Gelo, Lee disseca o vazio moral da sociedade norte-americana dos anos 70. Um trabalho de impacto, sólido, dirigido por alguém maduro, que compreende seu tempo e a sociedade em que vive. Pode acompanhar os personagens em seus destinos trágicos sem perder a ternura que demonstra por eles.Cavalgadas com o Diabo, sua visão da Guerra Civil Americana, fica muito aquém do que se poderia esperar. Nem se integra na história nem mantém um distanciamento crítico realmente razoável em relação a ela. Fica devendo, porque, sem ser um artista da ruptura, consegue produzir criticamente, o que não é pouco hoje em dia, e no mundo do cinema em especial.Com O Tigre e o Dragão, Lee chega ao seu maior sucesso, tanto de público como, aparentemente, de crítica. Seu retorno à cultura de origem é tático. Ele a leva ao mundo, mas já devidamente edulcorada com tempero ocidental. É um típico produto globalizado, um interessante cavalo de Tróia que não precisa ser levado muito a sério para ser apreciado.

Agencia Estado,

15 de fevereiro de 2001 | 17h11

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