Fábula de Peter Pan concorre a sete Oscars

Marc Forster até hoje agradece a Martin Scorsese. A empresa Miramax estava tão atolada com Gangues de Nova York que o deixou livre para fazer Em Busca da Terra do Nunca. O filme custou barato, menos de US$ 22 milhões, e eles sabiam que não iam perder dinheiro, por causa de Johnny Depp e tudo o mais", explica o diretor de 36 anos, cujo filme emplacou sete indicações para o Oscar e é o melhor dos três finalistas da categoria principal que estréiam nesta Sexta. Na próxima, dia 11, estréiam os pesos-pesados da disputa - O Aviador, de Scorsese, que concorre em 11 categorias mas não é bom; e Menina de Ouro, de Clint Eastwood, que fica muitos degraus acima do bom, algo entre o divino e o maravilhoso. Forster conta à reportagem que recebeu o roteiro de David Magee antes mesmo de fazer A Última Ceia (Monster´s Ball), que é de 2001, e que rendeu um Oscar a Halle Berry. Seu agente chamou-o para dizer que o roteiro ainda estava disponível. Forster embarcou na aventura de filmar a vida de James M. Barrie o criador de Peter Pan. Desde o início, ele não tinha dúvida sobre o ator que queria para o papel, mas não foi fácil conseguir a adesão de Johnny Depp. "Precisei fazer uma ampla pesquisa para convencê-lo de que Barrie não era pedófilo. Johnny jamais interpretaria o papel se ele fosse", diz o diretor, numa entrevista por telefone - ele estava em Los Angeles. Johnny Depp foi indicado para o Oscar de melhor ator do ano passado por Piratas do Caribe, de Gore Vercinski. Uma das sete indicações de Terra do Nunca vai agora, de novo, para ele, que enfrenta concorrentes como Jamie Foxx, o favorito, por Ray - outra das estréias de desta sexta, e o genial Clint Eastwood de Menina de Ouro. Em Busca da Terra do Nunca concorre a melhor filme, ator, roteiro, direção de arte, figurinos, montagem e música. O roteiro de David Magee baseia-se na peça The Man Who Was Peter Pan ("O Homem Que Era Peter Pan"), de Allan Knee. "Fizemos poucas modificações, mas acredito que elas foram essenciais para definir o personagem e sua relação com as pessoas." Barrie, no filme, envolve-se com a viúva Sylvia Llewellyn Davis (Kate Winslet), atuando como pai substituto de seus filhos. É uma história asséptica de amor, sem toque, como Barrie gostava. "Vejo o filme como uma história sobre o poder da criatividade do homem, capaz de transportar as pessoas para outro mundo, e sobre a profunda necessidade humana de ilusões, de sonhos e crenças, que nos inspirem mesmo diante da tragédia", explica o diretor. Forster não poupa elogios ao seu elenco. "Johnny é maravilhoso e agrega as pessoas. Consegui Dustin Hoffman para um pequeno papel só porque ele queria trabalhar com Johnny." Forster admite que se surpreendeu com a indicação de Kate Winslet para melhor coadjuvante por Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. "Sinceramente, acho que ela está melhor no meu filme." Julie Christie, que faz a mãe de Kate, era uma paixão antiga. "Admiro-a desde os tempos de Darling, a Que Amou Demais, nos anos 1960", diz o diretor.Uma aventura nostálgica - A Terra do Nunca, como sabem os queconhecem a história de Peter Pan, é o lugar onde as crianças nãocrescem, vive-se aventuras com piratas e índios e ninguémenvelhece. É o paraíso, mas não isento de perigos. Essa fábulafeliz saiu da pena do dramaturgo escocês James Matthew Barrie(1860 -1937), que, nos primeiros anos do século 20, encenou ahistória de Pan e da família inglesa que vai com ele para aTerra do Nunca. No filme "Em Busca da Terra do Nunca", Barrie éinterpretado por Johnny Depp, ator carismático e que se sai tãobem em papéis exóticos. Basta lembrá-lo em Edward Mãos deTesoura ou como William Blake no magnífico Dead Man, de JimJarmusch. Se você notar bem, Depp leva à sua concepção dramáticaum certo distanciamento, uma ironia fina em relação aopersonagem. Ele tem o ar daqueles que sabem que o rei está nu.Constatam e comentam esse fato com o olhar e, se sabe, de umahora para outra, irão dizê-lo ao mundo. Em poucas palavras: Deppconserva uma certa atitude infantil em sua pessoa, que lhepermite dizer a verdade quando todos estão mentindo. Assim, o papel de Barrie lhe cai como um calçado feitosob medida, já que o escocês, ao menos pelos indícios deixadospor sua obra, é tido como aquele que soube preservar um certoolhar anticonvencional mesmo depois de ter se tornado adulto naconservadora Grã-Bretanha. O encanto do filme se concentra nesseolhar de Barrie. E também na maneira como se recupera a origemda peça através do relacionamento entre Barrie e a família queserve de inspiração para os personagens. (Luiz Zanin Oricchio)

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