Fábio Barreto viajará o país atrás de 'Lulas' para novo filme

Cinco vezes ao dia, ou mais, otelefone da produtora LC Barreto, no Rio de Janeiro, toca paratratar do mesmo assunto. São sósias de Lula espalhados peloBrasil pedindo um papel no filme que contará a trajetória dopresidente do país. O filme, baseado no biografia "Lula, o Filho do Brasil" ecom orçamento de 12 milhões de reais, será rodado em novembro edeverá ser lançado apenas no segundo semestre de 2009. Já neste mês, começa o processo de seleção para os quatroatores que vão interpretar Luiz Inácio Lula da Silva. Os atoresdevem ter entre 5 e 6 anos, 10 e 12 anos, 15 e 16 anos e idadeadulta. "Tem muita gente querendo (fazer o papel de Lula)", disse odiretor Fábio Barreto à Reuters. "O Lula não é necessariamenteuma unanimidade, mas continua muito popular mesmo por conta dosproblemas de inflação, etc." Barreto ("O Quatrilho" e "A Paixão de Jacobina") fará oprocesso de seleção em três meses, visitando escolas de teatroem Recife, São Paulo e Salvador. O papel de Eurídice Ferreirade Melo, a dona Lindú, mãe de Lula, será de Glória Pires. "Vamos procurar força, carisma, uma coisa que tenha a vercom a personalidade do próprio Lula", disse Fábio, cujo pai,Luiz Carlos Barreto, é o produtor do projeto. "Queremos umapessoa com muita determinação, força de vontade para chegaronde chegou." Fábio está finalizando o roteiro ao lado da própria autorada biografia, Denise Paraná, e de Daniel Tendler. Será oprimeiro filme de ficção de grande orçamento sobre opresidente, que já foi tema de documentários, como "Entreatos",de João Moreira Salles. O filme de Barreto começa com o parto de uma criança quemorre, seguido de outro, o do próprio Lula, pela mesmaparteira. "Esse vingou, tomara que dê certo", diz a parteira,segundo Barreto, como uma ironia do destino. A história termina com a morte de dona Lindú, um dos focosdo filme, em 1980. Lula então estava preso, mas foi liberadopara ir ao enterro da mãe, onde fez um discurso histórico parauma multidão antes de voltar ao presídio. HISTÓRIA DO POVO BRASILEIRO O filme então pula de 1980 para 2003, com o discurso deposse à Presidência. "A gente funde um discurso no outro",explicou Fábio. "Porque no discurso de posse em Brasília elefala da mãe também." As imagens da posse serão as únicas documentais do filme. O longa narrará ainda a infância miserável no interior dePernambuco, a migração em um pau-de-arara para São Paulo, aadolescência em Santos, o primeiro e o segundo casamentos e aentrada para o sindicalismo. "Na verdade, o filme usa o Lula e a família dele paracontar o que é o povo brasileiro", disse Fábio. "É toda umahistória sobre as qualidades do povo brasileiro, asolidariedade, a generosidade, a tenacidade." Fábio contou que votou em Lula nas duas últimas eleições e,apesar de tantos elogios ao presidente, disse que seu filme nãoserá "chapa-branca, nem puxa-saco". Ele também acredita que oBrasil está andando para frente, embora devagar demais. "Ele está fazendo o que é possível. É inegável que o paísestá melhorando, mas muito lentamente", disse Fábio. "Adistribuição de renda é uma coisa muito lenta, o Brasil é umpaís muito grande, ainda tem muita coisa para fazer." Mas a condescendência com Lula não se estende ao Ministérioda Cultura e à demora para implementar o Tíquete Cultura, umaespécie de vale-alimentação, mas para eventos culturais comocinema. "Tem que se financiar o consumo também, não adianta ficarfinanciando um monte de filmes que não têm onde passar", disseFábio, indicado ao Oscar de filme estrangeiro por "O Quatrilho,(1994). Segundo ele, o tíquete alavancaria de 8 milhões para 50milhões os espectadores de cinema nacional por ano. O projeto édebatido entre os Ministérios da Cultura, Fazenda e ReceitaFederal desde a segunda posse de Lula, em 2007.

FERNANDA EZABELLA, REUTERS

08 de julho de 2002 | 11h41

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