Fábio Barreto filma tragédia de imigrantes no RS

As mãos do médico passam suavemente pelo longo cabelo da mulher, que se mantém sentada e imóvel, hipnotizada pelas palavras que ele diz e sentindo arrepios pelo suave contato de seus dedos. A cena dura alguns minutos, até o diretor Fábio Barreto dar o primeiro grito de "corta!" Trata-se da filmagem da primeira cena de A Paixão de Jacobina, longa-metragem produzido por Lucy e Luiz Carlos Barreto, orçado em R$ 8,2 milhões. A manhã chuvosa do início de setembro surpreendeu a equipe de produção, que ensaiara no dia anterior sob um sol escaldante ? a temperatura oscila com facilidade nesta região do Rio Grande do Sul, a 60 quilômetros de Porto Alegre.O médico, João Jorge Maurer, é interpretado por Alexandre Paternost, enquanto a mulher, Jacobina, é vivida por Letícia Spiller. Juntos, formam o casal que participou de um dos momentos mais sangrentos do Segundo Império da história brasileira. Em 1874, Jacobina, uma imigrante alemã, lidera uma seita dissidente do protestantismo e ocupa seu tempo com a leitura da Bíblia, a cura dos males do corpo e a salvação da alma. Ela prega que, no dia de Pentecostes (50.º dia depois da Páscoa), quando brilhar uma luz no céu, o mundo vai ser consumido por chamas purificadoras.A força com que diz suas palavras, além de seus míticos desmaios, considerados uma prova de mediunidade, transformam Jacobina em uma líder religiosa. A população local, que vivia na região onde hoje está a cidade de Sapiranga, teme pelo crescimento de sua fama e passa a tratar seus seguidores de muckers (falsos beatos). Controla também cada passo daquela comunidade que, sob um estado crescente de transe espiritual, passa a viver sob regras pagãs, ou seja, com uma boa dose de liberdade sexual e social."Esse é o tema principal do filme, a busca pela liberdade", comenta o diretor Fábio Barreto, que volta a rodar um longa baseado em uma história de imigrantes (dirigiu também O Quatrilho, uma história de amor entre italianos que foi indicada para o Oscar de melhor filme estrangeiro). "Em um meio comandado por preceitos rígidos, Jacobina busca tornar as pessoas mais livres e sensuais." A disposição de filmar A Paixão de Jacobina é antiga. Logo depois de rodar O Quatrilho, Barreto teve o primeiro contato com a história em 1995, durante o Festival de Gramado. Apesar de interessado, ele teve de adiar o projeto pois já estava envolvido com a produção de seu novo filme, Bela Donna. "Mesmo assim, li o livro do Assis Brasil que trata do assunto (Videiras de Cristal) e iniciei um roteiro, primeiro com José Almino Arraes, depois com Ana Miranda, em seguida com Leopoldo Serran até chegar ao texto final, com Marcelo Santiago", comenta o diretor.Fantasmas ? A peregrinação, acredita Barreto, foi necessária: "Eu vivia um momento de investigação pessoal, em que tentava me livrar de certos fantasmas internos", comenta. "Assim, pesquisar dados sobre a Jacobina, cuja história tem diversas versões, o que permitiu exercitar a imaginação ao escrever o roteiro, possibilitou uma revisão de diversos conceitos que me atormentavam." Realizar uma obra baseada em fato histórico também agrada a Fábio Barreto, que se diz avesso às histórias contemporâneas. "Vivemos em uma época desprovida de interesse, em que a globalização minimiza a qualidade de vida", afirma. "Afetivamente, a humanidade regrediu; por isso, tento investigar nossas origens." A busca pelo passado significou uma intensa pesquisa sobre a história de Jacobina e seus seguidores, os muckers. Há diversas versões sobre os incidentes entre os fanáticos e a população local, o que culminou em uma intervenção do Exército. No filme, o primeiro incidente ocorre quando alguns habitantes, bêbados, invadem a propriedade de um dos seguidores de Jacobina. Por crueldade, matam alguns cavalos. Quando o mucker tenta intervir, é assassinado.A vingança torna-se inevitável, desencadeando uma série de crimes praticados pelos dois lados. Apesar da série de mortes, os responsáveis pela lei ? o delegado John Lehn (Caco Ciocler) e o pastor Boeber (Antônio Calloni) ? não conseguem descobrir nenhum culpado e decidem aguardar os acontecimentos em total impotência.Meteoro ? Por pressão da população, Jacobina é levada a São Leopoldo, cidade gaúcha onde é examinada por um médico, que recomenda sua internação na Santa Casa de Porto Alegre. A profecia, porém, concretiza-se e, no dia de Pentecostes, um meteoro cruza os céus e cai na terra dos muckers. É o suficiente para incitar o conflito armado, obrigando uma ação do Exército. Na primeira investida, os seguidores de Jacobina saem vitoriosos.Na seguinte, no entanto, os fanáticos são encurralados em suas terras e o massacre é inevitável. Jacobina é morta assim como todos os seus seguidores. Apenas Elizabeth Carolina (Talita Castro), cunhada de Jacobina, consegue fugir, ajudada pelo delegado John Lehn. Durante a fuga, eles vislumbram, entre as grandes labaredas e em meio à fumaça, Jacobina levitando e se elevando aos céus. A filmagem da primeira cena exigiu muita concentração de Alexandre Paternost e Letícia Spiller. "Meu personagem vai viver, durante toda a trama, sentimentos antagônicos, pois, ao mesmo tempo em que se orgulha de despertar a liderança messiânica de Jacobina, ele sofre intimamente por ser superado pela mulher no comando dos fiéis", comenta Paternost, que também trabalhou em O Quatrilho. O ator teve pouco tempo para amadurecer seu personagem, pois estava no Maranhão, filmando O Dono do Mar, de Odorico Mendes, e praticamente emendou os dois trabalhos.Já Letícia conseguiu se preparar com antecedência para seu primeiro papel principal no cinema ? nos últimos meses, ela encenou o texto O Falcão e o Imperador, que apresenta uma visão de Deus bem próxima à do homem ? até com um certo clima de sensualidade no ar. "Isso me permitiu familiarizar com os temas religiosos", conta a atriz, que interrompeu a temporada para se liberar para a filmagem, mas deverá estrear a peça em São Paulo no próximo ano. "A luta de Jacobina é pela liberdade espiritual e, por isso, ela procura descobrir a poesia em meio ao caos." Outro ponto de atração é a série de coincidências que a une ao personagem do filme. "Assim como eu, Jacobina era uma filha entre sete, também nasceu no mês de junho e sua mãe, assim como a minha, estava com 42 anos quando ela nasceu", conta Letícia. "Essas semelhanças são de arrepiar." Além de Letícia Spiller e Alexandre Paternost, A Paixão de Jacobina vai contar ainda com Thiago Lacerda, Antônio Calloni, Caco Ciocler e Felipe Camargo, entre outros.O repórter viajou a convite da produção

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