AFP PHOTO / ROBYN BECK
AFP PHOTO / ROBYN BECK

Expulsão de Harvey Weinstein da Academia de Hollywood levanta questões sobre outros nomes

Roman Polanski, Bill Cosby e Casey Affleck são alguns exemplos de pessoas que enfrentaram acusações semelhantes, sem maiores consequências na instituição

Lindsey Bahr, AP

18 Outubro 2017 | 11h57

LOS ANGELES - Harvey Weinstein foi expulso do grupo que entrega os Oscars, e a expulsão do Sindicato de Produtores é uma formalidade a este ponto, mas agora questões estão sendo levantadas sobre o que fazer com outros acusados de má conduta que permanecem com as carteirinhas das mais prestigiosas organizações da indústria do entretenimento.

Antes de sábado, 14, apenas uma pessoa tinha sido expulsa da Academia de Hollywood, e isso por distribuir ingressos para a cerimônia. E antes de segunda, 16, as únicas pessoas a perder a associação do Sindicato dos Produtores dos EUA foram aquelas que deixaram de pagar suas taxas. Agora, ambas as organizações mexeram no vespeiro ao expulsar Weinstein depois de dezenas de acusações de assédio sexual, incluindo de algumas das atrizes mais conhecidas de Hollywood.

+ Quem é Harvey Weinstein?

"As pessoas reconheceram que essa era uma decisão extremamente importante por parte da Academia", disse a presidente da Lucasfilm e membro da Academia, Kathleen Kennedy. "Penso que foi a escolha correta."

A instituição disse que a decisão foi, em parte, para "enviar uma mensagem de que acabou a era da ignorância intencional e da vergonhosa cumplicidade em comportamento sexualmente predatório e assédio no ambiente de trabalho na nossa indústria". A diretoria também pretende estabelecer padrões éticos que os membros deverão seguir.

As implicações podem ser grandes para o grupo que tem mais de 8,4 mil membros. O que acontece com Roman Polanski, que nos 1970 se declarou culpado por ter estabelecido relações sexuais com uma garota de 13 anos que ele embebedou com champanhe e Quaaludes? Ou Bill Cosby, que enfrentou dúzias de denúncias de ataques sexuais?

A lista dos membros da Academia não é pública, portanto ocasionalmente há hipóteses incorretas sobre quem de fato é membro. Woody Allen, por exemplo, não é.

"Nós vamos ter que analisar o que isso significa para o futuro, que tipo de mudanças - cláusula moral - precisamos fazer nos estatutos da academia", disse Kennedy. "E então tenho certeza de que o próximo passo será começar a olhar para algumas dessas outras pessoas."

Agora o escrutínio sobre outros membros potencialmente problemáticos já começou a se tornar uma piada de mau gosto.

John Oliver falou sobre a organização por trás do Oscar no seu programa da HBO.

"Sim, finalmente, o grupo que tem Roman Polanski, Bill Cosby e Mel Gibson encontrou o único cara que tratou mal mulheres e o expulsou", Oliver disse na noite de domingo. "Então, parabéns, Hollywood. Vejo vocês no próximo Oscar onde, e isso é verdade, Casey Affleck vai apresentar o prêmio de melhor atriz."

+ Industria do cinema ‘é machista’, diz produtor brasileiro

Nem a Academia de Hollywood nem o Sindicato de Produtores responderam a pedidos de entrevistas.

Sasha Stone, editora do blog Awards Daily, pensa que vai haver uma pressão enorme para que a Academia avalie outros membros, mas acredita que mesmo entre os nomes frequentemente mencionados as circunstâncias por trás de cada caso são significativas para os membros.

"O que eu acredito que vai acontecer é que a Academia vai tentar estancar a sangria para que não se torne uma instituição que exija que seus membros se comportem perfeitamente", disse Stone. "Se há vítimas o suficiente, como é o caso com Weinstein, isso por si só cria pressão. É realmente sobre eles não quererem lidar com a má publicidade de estar do lado de um abusador reincidente."

A extensão do que a organização poderá fazer é ainda uma dúvida.

O presidente da Academia, John Bailey, disse num memorando para os membros na terça-feira, 17, que a organização "não pode, e não vai, ser uma corte inquisitorial, mas podemos ser parte de uma iniciativa maior para definir padrões de comportamento e apoiar mulheres e homens vulneráveis a riscos profissionais e pessoais por conta da violação de padrões éticos de seus pares".

Mesmo falar em público sobre conduta, sem ter a ver com distribuição de ingressos ou festas muito loucas pós cerimônias, é um movimento ousado e sem precedentes para uma organização que se tornou uma metonímia das "passadas de pano" da indústria do entretenimento nos últimos anos.

"A Academia não foi pensada para isso em termos de estrutura. A diretoria se encontra, o que, três vezes por ano no máximo? Eles não são uma agência do governo nem um ramo do Judiciário. Tampouco um sindicato... Eu acho que isso não é levado em conta algumas vezes", disse o editor da The Playlist, Gregory Ellwood. "De várias maneiras isso fala com o que a Academia tem sido na última década, uma olhada no espelho, e eles tiveram que liderar a corrida nesse sentido e nem sempre estiveram preparados."

Isso inclui os esforços recentes em diversificar os membros.

"A Academia está mudando. Tudo está mudando", disse Laura Dern, membro da organização. "Espero que assim como estejamos avançando, vai mudar mais e mais. E vai haver tolerância zero para comportamento inescrupuloso, abuso de poder, não apenas sobre mulheres mas para homens também, na nossa indústria e em outras." / TRADUÇÃO GUILHERME SOBOTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.