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Expoente do Cinema Novo, Glauber Rocha completaria 75 anos

Cineasta criou obras importantes para a cultura brasileira, como Terra em Transe

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

14 de março de 2014 | 12h05

Glauber Rocha tinha a intuição de que ia morrer cedo, como uma de suas referências baianas - o poeta Castro Alves. O autor de Navio Negreiro morreu aos 24 anos, Glauber aos 42, em 22 de agosto de 1981. Estaria completando hoje 75 anos. De certas figuras que morrem cedo, pode-se dizer que o desaparecimento prematuro contribui para o mito. Já pensaram num James Dean septuagenário? Numa Marilyn Monroe velhinha? Mas dá para imaginar Glauber vivo, e fazendo o que sabia ser melhor para ele - polemizar.

As questões de mercado, da cidadania, o mensalão. Em tudo ele estaria apontando o dedo acusador, e pode-se supor que viessem surpresas do seu olhar arguto. Glauber foi um furacão que assolou o cinema brasileiro nos anos 1960, sua grande fase. Nascido em Vitória da Conquista, virou chefe de fila - ideólogo, ou teórico - de um movimento que até hoje gera controvérsia. O Cinema Novo nasceu com o objetivo programático de colocar a cara do Brasil na tela. E era revolucionário, feito por artistas que acreditavam na câmera como instrumento para mudar o mundo.

Glauber foi crítico, fez teatro. Fez curtas, como Pátio. O primeiro longa é meio caótico - Barravento, de 1962 -, mas tem o mérito de encarar a questão do negro no País e o sincretismo cultural. Deus e o Diabo na Terra do Sol marca o verdadeiro (re)começo de sua carreira. A partir daí, em 1964, a estrutura bipolar o acompanhará em Terra em Transe, de 1967, e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, de 1969.

O vaqueiro Manuel é arrastado num turbilhão pelo profeta e depois pelo cangaceiro. Sua via, ele a encontra numa corrida mítica para o mar, ao som da música de Sérgio Ricardo. 'O sertão vai virar mar...' Em Eldorado, o poeta Paulo Martins (Jardel Filho) divide-se entre o demagogo Vieira (José Lewgoy) e o ditatorial Diaz (Paulo Autran), estando sua consciência na revolucionária Sara (Glauce Rocha). E no Dragão, Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros que Maurício do Valle criou em Deus e o Diabo, volta com o parabellum na mão para matar o coronel cego que domina Jardim das Piranhas.

À força de tanto radicalizar seu método baseado na descontinuidade, Glauber nunca mais fez obras tão poderosas como sua trilogia dos anos 1960. No seu tempo, o cinema brasileiro andava bem nos festivais internacionais, mas ia mal nas bilheterias, em casa. Hoje é o contrário. O cinema brasileiro recupera espaço no próprio mercado, mas desagrada à crítica e não interessa muito aos programadores dos grandes festivais. O que pensaria disso Glauber? Nunca saberemos, mas foi um autor definidor da identidade brasileira no cinema. Manuel na escadaria de Monte Santo - a escadaria de Odessa brasileira -, o amor de Corisco e Rosa ao som das Bachianas. Glauber criou algumas das maiores cenas do cinema do Brasil.

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