Expectativa em Brasília para "Latitude Zero"

Somente neste sábado, no quarto dia da mostra competitiva do 33.º Festival do Cinema Brasileiro, será exibido o primeiro filme completamente inédito da programação. Dos seis longas destacados pela comissão de seleção, quatro já haviam sido apresentados no Festival do Rio BR 2000 e na Mostra Internacional de Cinema São Paulo. Os três primeiros que passaram à noite, na sessão solene do Cine Brasília, foram Tônica Dominante, de Lina Chamie, Minha Vida em Suas Mãos, o filme de Maria Zilda Bethlem dirigido por José Antônio Garcia, e Brava Gente Brasileira, de Lúcia Murat. O quarto, amanhã, será Latitude Zero, de Toni Ventura. E ainda ficam faltando mais dois longas - O Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodanzky, já exibido no Rio e em São Paulo, cartaz de sábado, e o outro inédito da seleção, O Chamado de Deus, de José Joffily, na segunda-feira.O festival começou bem com o filme de Lina, despencou com o de Garcia, voltou a um nível respeitável com o de Lúcia. A expectativa, agora, fica toda por conta de Venturi, que se baseou, para Latitude Zero, numa peça nunca encenada de Fernando Bonassi, As Coisas Ruins da Cabeça.Depois do documentário O Velho, sobre Luís Carlos Prestes, o cineasta incursiona pela ficção. Não é uma mudança tão radical quanto parece ser. Venturi nunca se considerou um documentarista. Fez O Velho movido por sua admiração por Prestes, o dirigente comunista que o escritor Jorge Amado definiu como Cavaleiro da Esperança. Há novamente personagens fortes em Latitude Zero, há um quadro social em ebulição. O filme conta a história de um casal numa situação limite num garimpo no interior do País. Ele é Cláudio Jaborandy, do curta Náufrago, de Amilcar Claro. Ela é Débora Duboc, mulher do diretor e mãe de seu filho, um bebê que faz sua estréia no Festival de Brasília. Está sempre circulando, de carrinho, nos corredores e salões do Hotel Nacional, centro nervoso do evento. "É a estréia dele não só no festival", diz a mãe coruja. A estréia no cinema brasileiro, também. "O choro de bebê que se ouve no filme é dele", diz o pai.Primeiro longa da competição, Tônica Dominante foi bem recebido pelo público na quarta à noite. Hoje, a diretora e sua equipe fizeram uma bela coletiva. Lina, mestra em música e filosofia por uma universidade americana, tem muito claro o como e o porquê desse filme. Tônica Dominante prescinde quase totalmente do diálogo. Transforma a música em personagem para contar, de forma absolutamente nova, não linear, a velha história do boy meets girl. É um filme sobre o processo de criação, sobre a busca da luz, sendo extraordinário o plano emblemático do filme, no qual Fernando Alvez Pinto, que faz o protagonista, desce uma ladeira e caminha pela Rua Xavier de Toledo, no centro de São Paulo. Ele sai da sombra e caminha até o Teatro Municipal, banhado pela luz. Não há ninguém na rua. Um ou outro transeunte, talvez. Nenhum carro. O plano dura quatro minutos de pura magia audiovisual. "Tinha quatro minutos e alguns segundos, cortamos os segundos", diz o montador Paulo Sacramento.Lina explica que foi assim, cortando um segundo aqui, outro ali, que Sacramento e ela conseguiram dar ao filme a fluidez que o torna uma rara experiência encantatória, tanto mais encantatória porque Tônica Dominante se constrói em torno da paixão pela música erudita. Nesse sentido, é difícil para um público mais ligado em pagode, axé e quetais. Lina quer fugir à etiqueta de filme difícil. Diz que o filme foi feito com o coração, para o coração. Propõe uma experiência emocional. O público que aplaudiu, no desfecho, entendeu e viajou na emoção proposta pela diretora. Um destaque - a belíssima fotografia de Kátia Coelho, a primeira mulher a fotografar um longa na história do cinema brasileiro. É um trabalho deslumbrante, ao qual será preciso voltar, muitas vezes, para que ela explique o mistério de outra imagem magistral, a das dunas - na verdade, a duna, uma só, que a equipe localizou em Cabo Frio, no Estado do Rio, e que na tela se multiplica, num efeito arrebatador.Também houve aplausos no fim de Minha Vida em Suas Mãos, mas aí a avaliação dos críticos e jornalistas presentes no 33.º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro variava - seriam aplausos de deboche ou admiração? Se foram de admiração, cai por terra o mito da platéia superpolitizada de Brasília. Maria Zilda Bethlem assina o filme. O nome dela aparece primeiro que todos, como atriz. Depois vem "um filme de Maria Zilda" dirigido por José Antônio Garcia. E depois ainda vem "trilha de Maria Zilda Bethlem", seguido de um música composta por David Tygell. Ela também faz o vocal de uma das músicas.Tamanho narcisismo não teria nada demais - o grande Ingmar Bergman diz que ninguém consegue ser ator se não for narcisista - se o filme fosse bom. Mas não é. Antes da exibição, a atriz e produtora disse que o filme é a concretização de um sonho de 18 anos. A história do assaltante que irrompe na vida de uma mulher solitária e vive com ela uma tórrida paixão inscreve na linha do que se pode chamar de amor bandido. O filme é ofensivo com as mulheres. Júlia, a protagonista, descobre o prazer do sexo ao ser estuprada pelo homem armado. A tese do filme, hollywoodiana, é que um pouco de violência é bom no amor. José Antônio Garcia, co-diretor de O Olho Mágico do Amor e A Estrela Nua e diretor de O Corpo, atuou somente como realizador contratado, um cargo técnico como outro qualquer, na avaliação da atriz e produtora. Ele aceitou o que ela lhe exigia - submissão total. Garcia fez o filme como Maria Zilda queria. Caco Ciocler, que mexeu com os hormônios femininos na minissérie A Muralha, é o bandido, não tão bandido assim, percebe-se lá pelas tantas. O filme tem um lado Oito e Meia Semanas de Amor muito forte. No fim, exibe os diálogos mais constrangedores do cinema brasileiro, o que não quer dizer pouca coisa, já que o cinema nacional, apesar da formação dos diretores cinenovistas, não tem exatamente uma alta tradição literária. Mas o público gostou. Fazer o quê? A roda do festival continua. E amanhã, felizmente, tem o filme de Toni Venturi. Sábado, o de Laís, fortíssimo.

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